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Estação Onze, de Emily St. John Mandel

estacao-onzeAlguma coisa acontece no mundo de modo que a sociedade não é mais aquela que conhecemos. Uma catástrofe nuclear, um avanço tecnológico, uma invasão extraterrestre, a própria natureza se vingando do homem… Anos depois, podem ser centenas, podem ser milhares, essa sociedade se reorganiza, seja na própria Terra ou em outros planetas – nem sempre ela continua habitável, né. Há muitas ficções científicas assim, e vale lembrar que um velho livro conhecido da galera (vulgo Bílbia) traz um monte de ideias de como acabar com o mundo. Mas em Estação Onze (tradução de Rubens Figueiredo), o que podemos chamar de sci-fi pós-apocalíptico, a coisa acontece em um tempo mais recente e estamos observando tudo. E é isso o que me fez gostar muito do romance de Emily St. John Mandel.

É noite em Toronto, no Canadá. Jeevan Chaudhary está na plateia de uma montagem nova de Rei Lear, clássico shakespeariano, quando o ator principal, Arthur Leander, tem um ataque cardíaco fulminante. Estudando para ser paramédico após anos de carreira jornalística como paparazzi e repórter, ele logo tenta reanimar o ator, mas já é tarde. No palco, uma atriz-mirim de 8 anos, Kirsten Raymonde, vê tudo sem entender exatamente o que está acontecendo. Pouco depois da morte de Arthur, começam a aparecer na cidade as primeiras vítimas da Gripe da Georgia, até então limitada apenas à Europa, que em questão de horas mata uma multidão de pessoas. E aí o mundo como o conhecemos acaba. Continue reading

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Nora Webster, de Colm Tóibín

nora-websterUma mulher com mais de quarenta anos perde seu marido. Com duas filhas jovens já fora de casa, às voltas com a faculdade, e dois garotos (pré) adolescentes para cuidar, ela não tem muito dinheiro, não tem emprego, e as coisas não são exatamente fáceis para uma mulher no final dos anos 1960 na Irlanda, ainda mais uma viúva. Nora Webster, romance mais recente de Colm Tóibín – que veio para a Flip de 2015 – é a história dessa mulher. Um livro, segundo o autor, que levou anos para ser escrito e que traz ecos da história de sua própria mãe e de como ela, Tóibín e seu irmão lidaram com a perda do pai.

Nora Webster (tradução de Rubens Figueiredo) não é apenas um livro sobre o luto, embora ele esteja sempre presente. Quando começa a narrativa, seis meses após a morte de Maurice, um respeitado professor da cidade, Nora ainda está fragilizada, triste e inconformada com a perda do amor de sua vida. A toda hora ela pensa o que Maurice faria, relembra suas opiniões, conversas que tiveram sobre conhecidos da cidade, sobre suas famílias, sobre os filhos. O sofrimento dela é palpável, transmitido ao leitor pela escrita simples e tocante de Tóibín. Ele não precisa de muito para mostrar como Nora está emocionalmente desgastada, apavorada com o futuro dela e de sua família. E, ainda maior que isso, sua irritação com a maneira que passa a ser tratada por todos. Continue reading

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O primeiro homem mau, de Miranda July

o-primeiro-homem-mauO primeiro homem mau, novo livro – e primeiro romance – de Miranda July (tradução de Caroline Chang e Christina Baum) causa estranhamento – o que não é ruim. Cheryl é uma mulher de 43 anos obcecada por um homem com mais de 60. Vive de uma forma bem monótona, regrada, fazendo tudo para economizar tempo e esforço. Tudo para não chegar ao extremo de jantar na banheira e fazer xixi em garrafas quando está sem forças para levantar – quando a vida parece miserável demais e não há sentido em manter a casa limpa, o cotidiano em ordem e sair para trabalhar (te entendo, Cheryl).

Sua obsessão por Philipp vem da certeza de que eles, em vidas passadas, eram um casal, assim como a certeza de que há, no mundo, um menino de quem ela é a verdadeira mãe – Kubelko Bondy, uma “entidade”, acho melhor dizer, que ela percebe psiquicamente em crianças com as quais cruza na rua desde pequena, sempre dizendo “dessa vez ainda não sou sua mãe, mas nunca vou te abandonar”, e abandona. É uma rotina bem peculiar que é logo quebrada e virada mais ainda de cabeça para baixo quando Clee, filha de 20 anos de seus patrões, se hospeda em sua casa sem indicativos de sair. E é aqui que a história realmente começa. Continue reading

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Do que é feita uma garota, de Caitlin Moran

do-que-e-feita-uma-garotaJohanna Morrigan é uma garota de 14 anos que não vê a hora de experimentar a vida. Em 1990, ela vive em Wolverhampton, uma cidadezinha no condado de West Midlands, Inglaterra, com sua família totalmente decadente: um pai (Pat) sem noção da realidade que sonha em ser um astro do rock milionário, uma mãe em depressão pós-parto depois da chegada dos gêmeos surpresa (que nem nome têm), o irmão mais velho (Krissi), de 15 anos, uma sombra sensata na casa, e outro de seis anos (Lupin), sempre às voltas com a irmã. Ninguém na casa trabalha e a família vive de benefícios do governo – o pai é “meio deficiente”. Mas Johanna é uma adolescente feliz, inteligente, que devora todos os livros da biblioteca, reencena musicais com seus irmãos, se diverte do seu jeito.

O único porém é que ela está louca para perder a virgindade e não tem perspectivas de ver isso acontecer tão cedo – é feia, gordinha, não tem amigos, nenhum atrativo para um homem. Então, para tentar fazer isso acontecer e também arranjar mais dinheiro para sua família – e para se livrar de um episódio humilhante protagonizado por ela na TV –, Johanna decide se reinventar assumindo uma nova personalidade, a de Dolly Wilde. Do que é feita uma garota (tradução de Caroline Chang) é um romance de formação onde a própria protagonista se constrói, costurando hábitos, conhecimentos, experiências para se tornar uma garota cool e “transável”. Caitlin Moran, autora de Como ser mulher, recheia essa história com referências a livros, séries, filmes e, o mais importante, muita música da cena underground dos anos 1990. Pois quando se torna Dolly Wilde, ela escolhe como objetivo, além das transas, claro, ser jornalista e crítica musical numa revista de circulação nacional. Continue reading

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A amiga genial, de Elena Ferrante

a-amiga-genialEu lembro de, na escola, ter umas coleguinhas em que me espelhava para tentar ser como elas. Bonitas, bem vestidas, inteligentes, geralmente elas vinham de famílias que tinham mais dinheiro que a minha. Era uma mistura de inveja com admiração, creio eu. Não é que eu odiava elas daquele jeito tipo “se eu não tenho isso, elas também não podem ter”. Eu queria estar próxima delas, por mais que visse que algumas não gostavam das mesmas coisas que eu e até eram meio “malvadas” – faziam fofoquinhas, zombavam dos outros alunos, essas coisas. Eu não era esse tipo de gente, mas achava importante estar perto para ter um tipo de aprovação delas, para que elas vissem que eu era tão boa como elas. Acho que por isso achei tão fácil me identificar com Lenu Greco, a narradora e protagonista de A amiga genial, de Elena Ferrante (tradução de Maurício Santana Dias).

Lenu – apelido para Elena – tem essa relação com Lila – Rafaella Cerullo –, com quem desde criança firmou uma amizade marcada justamente por essas características: o desejo de ser como ela, a competição velada entre as duas para ver quem estava mais à frente, seja nos estudos ou na vida social, a necessidade de aprovação uma da outra. Mas, acima de tudo isso, a admiração, principalmente da parte de Lenu, que é quem nos conta essa história toda. Continue reading

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A ilha da infância, de Karl Ove Knausgård

ilha-da-infanciaUma das memórias mais antigas que tenho, acho, é de quando ainda morava em Witmarsum. Estava na cozinha da casa de madeira onde eu e meus pais morávamos, fazendo sei lá o que, e aí resolvi ir para perto do fogão. Fiquei mexendo nele até apertar o botão do acendedor automático. Não esperava pelo barulho de choque que ele fez, e isso me assustou tanto que saí correndo para meu quarto e me joguei na cama. Só que bem onde caí tinha uma vaquinha vermelha de plástico que deu uma pontada na minha costela. E aí comecei a chorar mesmo. O “acho” foi porque eu não tenho certeza se isso realmente foi uma lembrança ou se foi um sonho infantil. Eu deveria ter uns dois anos de idade na época, e não acho possível que tenha uma memória capaz de lembrar dessas coisas com esses detalhes. Acontece que é bem difícil para nós lembrarmos das nossas primeiras memórias, porque as células do nosso cérebro são “trocadas” e aí os arranjos que elas formariam para resgatar essas lembranças não são mais possíveis de serem refeitos. Por isso lembramos tão pouco (e mal) dos nossos primeiros anos de vida.

Enfim, Karl Ove Knausgård ignora essa questão em A ilha da infância, terceiro livro da série Minha luta (tradução de Guilherme Braga). Mas pelo bem da literatura, claro. O escritor norueguês começa a história justamente quando tem oito meses de idade – e, como diz logo depois, é claro que ele não se lembra de nada do que acabou de escrever. Seu pai, sua mãe e Yngve, seu irmão mais velho, estão chegando na casa nova localizada em uma ilha de Sørlandet. E a partir daí ele segue uma narrativa linear sobre o tempo em que viveu lá, até os 13 anos de idade. E essa é uma característica diferente dos outros dois romances anteriores, que apresentavam longos flashbacks fora de ordem enquanto outra cena mais mundana acontecia na vida de Karl Ove. Que eram, de uma forma mais simples, lembranças que iam surgindo. Mas aqui elas estão mais “organizadas”, e não temos ideia do que o autor estava fazendo enquanto escrevia sobre sua infância. Continue reading

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Stoner, de John Williams

stonerDepois de sua morte, o que será que resta de você no mundo? De William Stoner, o que restou foi um manuscrito medieval doado pelos seus colegas à biblioteca da Universidade do Missouri em sua memória, mas a lembrança de quem foi e o que fez não contém a mesma permanência que o livro. Stoner nasceu em 1891, morreu em 1956, e sua vida não foi das mais emocionantes. Mas ele é o protagonista de Stoner, romance de John Williams publicado em 1965 e resgatado da memória literária em 2003, depois de ficar tão esquecido como o seu personagem. Pessoas como Stoner merecem ter sua história contada, pois pessoas como ele são iguais a maioria de nós:  não são nada especiais, passam pelo mundo deixando poucas marcas, vão embora sem fazer muita falta. E a vida segue.

Filho de pequenos agricultores, Stoner foi parar na Universidade do Missouri por ideia de seu pai. Prevendo que a terra seca não traria muito futuro, seguiu a indicação de um amigo de enviar o jovem William à universidade para aprender mais sobre a terra do que ele jamais aprendeu. O garoto, com 19 anos, segue o conselho e vai para Columbia, assim como acontecerá com qualquer decisão que virá a tomar no resto de sua vida. É quase como se ele não fizesse escolhas por conta própria, sempre empurrado pelas ideias dos outros. Mas depois de dois anos na faculdade, ele decide trocar o curso de ciências agrícolas para o de literatura, matéria que desconhecia até então. E aí Stoner troca o trabalho na terra pelo intelectual. Um mundo completamente diferente daquele de onde veio. Continue reading

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A segunda pátria, de Miguel Sanches Neto

capa-a-segunda-patriaQuando eu era mais nova (ou seja, adolescente), ouvi várias histórias sobre Blumenau. Que a cidade tinha uma série de túneis debaixo dos principais prédios do centro – como os colégios, o Teatro Carlos Gomes, etc. – que serviriam como fuga para soldados alemães na Segunda Guerra Mundial. Que esse teatro, construído durante a guerra, imita o design de um quepe da SS, e teria o propósito de abrigar Hitler durante seus discursos para um público ariano caso precisasse fugir da Alemanha – Blumenau seria um óbvio destino, pelo jeito. Enfim, eram várias as histórias e “teorias da conspiração” postadas em antigas comunidades do falecido Orkut que envolviam uma das mais famosas cidades de Santa Catarina e a Segunda Guerra.

A colonização alemã, que foi bem intensa naquela região, pode ter abrigado, sim, uma certa comunidade nazista (como aconteceu até no interior de São Paulo, vamos lembrar, e também a recente suástica na piscina de um professor de HISTÓRIA de Pomerode, lá do ladinho de Blumenau). Mas, felizmente, o que se viu durante aquele período não foi um anexo menorzinho do nazismo no Sul do país. E aí chega Miguel Sanches Neto com um romance que imagina o contrário do que aconteceu na nossa História: e se o governo brasileiro tivesse ficado do lado dos alemães, e não dos americanos? O que teria acontecido? Continue reading

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Minha luta, de Karl Ove Knausgård

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Já faz um tempo que Karl Ove Knausgård é bastante falado por aí. Quando o primeiro livro da série Minha luta saiu em inglês, foram resenhas atrás de resenhas elogiosas – fora o sucesso na Noruega, claro. Porém, mesmo com todo esse espaço na imprensa, a impressão é que muita gente não leu os livros dele – como escreveu Tim Parks nesse artigo do New York Review of Books, em que fala do argumento das vendas do livro para vender mais livros que não necessariamente serão lidos. Seria mais uma pura modinha? Acho que não. Já havia lido o primeiro livro no ano passado, mas queria escrever sobre os dois já lançados no Brasil ao mesmo tempo, então finalmente estou aqui levantando a mãozinha e dizendo “sim, eu li!”.

Minha luta é a série em que Knausgård narra toda a sua vida, ou pelo menos as partes mais importantes dela – eu sei, você pensou em Hitler com esse nome, mas esquece isso. Não é uma autobiografia, pelo menos eu não vejo como uma, mas sim uma história romantizada, cheia de memórias, “causos”, pensamentos e reflexões do autor sobre a literatura e a escrita. Não é um “eu sou essa pessoa e essa foi a minha vida”. Acho que vai bem mais além disso. Mas é só um cara escrevendo sobre coisas cotidianas? Sim, é, e é muito bom. Continue reading

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Graça infinita, de David Foster Wallace

graca-infinita-capaGraça infinita chegou no Brasil com toda aquela pompa de livro genial de autor genial que é lido só por gente genial aqui das nossas literaturas contemporâneas. Certo que parte do motivo de tanta gente decidir ler o livro é poder se sentir meio incluso nesse grupinho. Mas hey, é só um livro, uma ficção, uma história escrita há 20 anos e que agora chegou aqui (e que parece que só vem crescendo mais e mais – tem até filme sobre David Foster Wallace pra sair). Mas aí você começa a ler, tem aquele estranhamento inicial de “o que está acontecendo aqui?” – por mais que você tenha lido e relido a sinopse –, e aos poucos tudo vai fazendo sentido, tudo vai se encaixando. Só que nem ler todas as mais de 1144 páginas será o bastante para entender o livro, tem gente que já está na quarta leitura e ainda acha que precisa de mais.

(Mas calma, isso não quer dizer que ele seja completamente obscuro. Guardemos esta informação: não tem problema não entender alguma coisa, tá? E esse entendimento com certeza vai mudar com o passar dos anos e novas leituras, e algumas coisas passam a fazer mais – ou menos – sentido que as outras. Ok, posso continuar?) Continue reading

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