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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Lincoln in the Bardo, de George Saunders

lincoln-in-the-bardoGeorge Saunders é um dos principais nomes do conto norte-americano. Aqui no Brasil, lançou Dez de dezembro, livro que reúne dez contos que, como escrevi na época, são “de alguma forma ligados a questões como a realidade obscura da vida no subúrbio, conflitos morais, o cotidiano com suas falhas, acertos, dramas e comédias”. Os contos possuem certa dose de fantasia, ou de absurdo, mas são, basicamente, sobre questões existenciais, sobre o comum da vida. Lembro de ter gostado de tudo nesses contos: dos enredos, das personagens, da maneira com que Saunders escreve. Então não foi por puro acaso que li Lincoln in the Bardo, seu primeiro romance que foi lançado no começo desse ano.

Lincoln in the Bardo chegou com grande barulho lá fora (aqui deve ser lançado mais para o fim do ano). Não só por ser a primeira narrativa longa de Saunders, que também dá aulas de escrita criativa, mas por causa da própria inventividade do autor. Outro detalhe chamativo é o seu audiobook, que tem um elenco invejável: Nick Offerman, David Sedaris, Carrie Brownstein, Ben Stiller, Julianne Moore, Miranda July, Susan Sarandon, Jeff Tweedy, Bill Hader, o próprio Saunders e muito mais gente. Só essa lista já dá uma ideia do que é essa história e de como ela é contada, e aumentou todas as minhas expectativas para a leitura. Expectativas que foram muito bem alcançadas.

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Altos voos e quedas livres, de Julian Barnes

altos-voos-e-quedas-livres“Toda história de amor é uma história de sofrimento em potencial”, diz Julian Barnes em vários momentos de Altos voos e quedas livres (tradução de Léa Viveiros de Castro). As 128 páginas desse livro enganam, assim como o início, Pode parecer uma história leve sobre balonismo, as primeiras pessoas que se aventuraram pelo ar, os pioneiros que pensaram em unir balão com câmera fotográfica e mostrar para quem nunca esteve lá em cima como é ver a cidade de tão alto. Mas Altos voos e quedas livres é um livro sobre amor e perda – amor que nos leva tão para o alto; perda que nos derruba sem aviso.

Até quase metade do livro, Barnes concentra a narrativa no balonismo: seus pioneiros, aqueles que acertaram ou erraram seus voos, os que foram parar em lugares inusitados, levados sem rumo pelo vento. Fred Burnaby, Sarah Bernhartd, Félix Tournachon: pessoas que no final do século XIX despertavam admiração e espanto por suas estripulias aéreas, que são usadas pelo autor como uma metáfora da própria vida. “Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma”, escreve Barnes, falando de como Tournachon, apelidado de Nadar, passou a fotografar de um balão, ou como pessoas como Burnaby e Sarah, tão diferentes em suas ambições, tiveram um breve affair. Da mesma forma, Barnes junta duas coisas que não imaginaríamos ver no mesmo lugar, o balonismo e o luto.

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Swing Time, de Zadie Smith

swing-timeDuas meninas se conhecem nas aulinhas de dança do bairro. Duas meninas pardas, filhas de pais brancos e negros. Uma delas, Tracey, demonstra um talento singular logo de início. A mãe, branca e espalhafatosa, mima a garota com o que ela quer, e Tracey tem uma liberdade que nenhuma outra criança do bairro tem. O pai, negro, está preso – mas para a pequena Tracey ele está em turnê com Michael Jackson. A outra menina, que vem a ser a narradora de Swing Time, romance mais recente de Zadie Smith, não tem o mesmo talento, mas é apaixonada por musicais – com todas as suas canções e danças. Sua mãe, descendente de jamaicanos, é uma dona de casa mergulhada em leituras que tenta passar à filha um senso de identidade. O pai, branco, trabalha nos correios e, apesar de apaixonado pela esposa, sente que é deixado de lado pelo seu autodidatismo. Tracey e a narradora são duas crianças com muito em comum, mas também guardam diferenças gigantescas.

Swing Time começa com a narradora já em seus trinta e poucos anos, voltando para Londres após ser demitida de seu emprego como assistente pessoal de uma cantora pop australiana mundialmente famosa – algo tipo uma Madonna. Não sabemos o motivo da demissão e nem por que a narradora está recebendo tantas mensagens raivosas em seu celular, trancada num quarto de hotel sem contato com a família ou amigos. Mas ao passear pela cidade ela começa a revelar sua história, e essa amiga de infância, Tracey, tem papel fundamental nela. Read more

“Quem matou Roland Barthes?”, de Laurent Binet

quem-matou-roland-barthesQuem matou Roland Barthes?, de Laurent Binet (tradução de Rosa Freire D’Aguiar), foi o último livro lido em 2016, e um dos meus preferidos do ano. É daqueles livros que você não sabe exatamente os motivos de ter gostado, ou apenas não consegue descrevê-los bem. Ele é divertido, ele é bem escrito, ele pode até ser considerado inventivo, apesar de ser uma clássica história de investigação policial, um quem matou quem – ou quem mandou alguém matar quem, neste caso –, um romance que usa elementos reais para criar uma absurda história de conspiração que envolve a linguagem. Talvez eu tenha gostado do livro porque finalmente usei o que tive que aprender de semiótica na faculdade. Talvez.

Roland Barthes estava atravessando a rua quando foi atropelado por uma camionete de lavanderia no dia 25 de fevereiro de 1980. Estava voltando para casa após um almoço onde estavam presentes vários políticos e estudiosos, incluindo o candidato socialista à presidência da França, François Mitterrand. Até aí, tudo aconteceu de verdade. O almoço e o atropelamento são o ponto de partida para a trama policial de Laurent Binet. Considerando o atropelamento um acontecimento suspeito, a polícia francesa coloca o delegado Jacques Bayard para investigar as causas do acidente. Suas perguntas para Barthes no hospital não surtem muito efeito: ele apenas descobre que seus documentos foram perdidos, mais um fato suspeito. Um mês depois do atropelamento, Barthes morreria no hospital. Read more

História da sua vida e outros contos, de Ted Chiang

HistoriaDaSuaVidaGEsse é um daqueles raros casos em que fiquei com muita vontade de ler o livro depois de ver o filme. Quando saí da sessão de A chegada, queria conhecer tanto a história original quanto os outros contos de Ted Chiang – a ideia toda apresentada no filme me pareceu legal demais para me contentar só com o audiovisual. Claro que as indicações de pessoas cujo gosto literário eu confio também ajudaram na decisão de ler Chiang, assim como algumas entrevistas do próprio autor – ele parece ser um daqueles caras de boas que não quer muita atenção, só fazer seu trabalho e escrever uns textos fictícios vez ou outra, gosto desse pessoal.

Por conta disso, comecei a leitura de História da sua vida e outros contos com as expectativas mais altas (a tradução lançada pela Intrínseca é de Edmundo Barreiros). Quem me conhece sabe que sou contra esse negócio de cultivar expectativas positivas sobre qualquer coisa, porque a decepção é quase certa. Mas não foi assim com Ted Chiang. Os contos são bons. Assim, bem bons.

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O homem sem doença, de Arnon Grunberg

o-homem-sem-doencaSamarendra Ambani é suíço. Seu nome e aparência podem sugerir que não. Mas ele é suíço, logo ele é neutro e não desperta ameaças. Sam, como é conhecido, é arquiteto, filho de pai indiano e mãe suíça. Nasceu em Zurique. Tem uma namorada que pretende pedir em casamento e mora com a mãe e a irmã mais nova, debilitada por uma rara síndrome. Os pais não quiseram gastar com um tratamento arriscado que poderia dar a ela uma vida quase normal. Não tinham muito dinheiro, não queriam deixar a Suíça. Mas Sam quer algum dia poder pagar para que ela possa se recuperar, para que a irmã possa parar de desejar sua própria morte. Ao contrário da irmã, Sam é saudável. Nunca fica doente, nunca cai de cama.

É pensando na irmã que Sam se inscreve para um concurso: construir um teatro de ópera em Bagdá, no Iraque. Seu sócio não quis entrar na empreitada, então Sam resolve fazer o projeto sozinho. Finalista do concurso, ele é convidado a viajar até Bagdá para conhecer o local onde o teatro será construído. Sam aceita fazer a viagem, apesar das preocupações da namorada e da mãe: Bagdá não é mais perigosa, os ataques foram contidos, ele terá seguranças à disposição e estará em boas mãos. Não é bem isso o que acontece.

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Uma temporada no escuro, de Karl Ove Knausgård

uma-temporada-no-escuroUma temporada no escuro (tradução de Guilherme da Silva Braga) é um dos livros mais divertidos de Karl Ove Knausgård. Quarto volume da série Minha Luta, neste livro o escritor norueguês se concentra no início de sua vida adulta. Formado no colégio e sem planos de ingressar em uma faculdade, o Knausgård de 18 anos consegue um emprego como professor em uma pequena vila no norte da Noruega – lá ele poderia ganhar algum dinheiro e ter tempo para fazer o que realmente quer: escrever. É estranho pensar que um moleque de 18 anos tenha algo a ensinar para alunos pequenos, crianças e adolescentes dois anos mais novos que ele. Mas a localização remota da ilha e sua população minúscula – cerca de 200 e poucas famílias – não torna o lugar muito atrativo para professores formados. A mão de obra desses alunos recém-saídos do forno é bem conveniente para lugares como esse, então era bem comum que jovens como Karl Ove fossem passar um ano dando aulas básicas até arranjarem algo “melhor” para fazer.

É assim que o romance começa: Knausgård está chegando na vila, ansioso para começar a trabalhar, para morar pela primeira vez sozinho, ter seu próprio espaço. O tamanho da vila não o assusta. Na verdade, estar num lugar tão vazio de pessoas e remoto é um atrativo a mais, ele se torna rapidamente uma novidade, as pessoas vêm falar com ele espontaneamente e se mostram muito solícitas. Em sua primeira noite, o sentimento do escritor é puro contentamento. Contentamento por ter 18 anos, por estar se virando sozinho e por estar começando a escrever.

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A filha perdida, de Elena Ferrante

a-filha-perdidaUma mulher de meia-idade, professora, deixa a cidade para passar as férias no litoral do sul da Itália. Leda está livre das obrigações de mãe. Suas duas filhas, já crescidas, vivem perto do pai em Toronto, no Canadá. As preocupações atuais de Leda são o trabalho e, agora, encontrar um lugar confortável nas areias de uma praia tranquila para ler e revisar seus estudos. Momentos que são interrompidos pelas lembranças da própria maternidade desencadeadas pela presença de uma jovem mulher e sua filha acompanhadas da barulhenta família, pessoas que também transportam a narradora para a sua juventude em Nápoles.

A filha perdida, de Elena Ferrante (tradução de Marcello Lino), apresenta vários elementos que encontramos na tetralogia napolitana – o livro foi lançado anteriormente aos da série. Temos neste livro uma narradora que saiu de um lugar onde reina a violência e a ignorância e conseguiu se estabelecer em um ambiente intelectual, assim como faz Lenu a partir do segundo livro da série, História do novo sobrenome. Conforme Leda desenvolve seu relato sobre os dias naquela praia, suas experiências se encontram com aquelas que Lenu começa a vivenciar no terceiro livro, História de quem foge e de quem fica, principalmente quando fala da maternidade, do cansaço de manter um trabalho e uma casa, dos anseios de uma mulher que quer ser reconhecida pela inteligência e pelo trabalho, e não se resumir ao papel de mãe. É como se o curto romance fosse um pequeno ensaio do que seriam seus livros de maior sucesso.

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Paraíso e inferno, de Jón Kalman Stefánsson

paraiso-e-inferno“Pouco de nós se assemelha à luz. Estamos muito mais próximos da escuridão, somos quase escuridão, tudo o que temos são recordações, e a esperança que, seja como for, se desvaneceu, continua a se desvanecer e em breve se assemelha a uma estrela extinta, um rochedo escuro. No entanto, sabemos um pouco sobre a vida e um pouco sobre a morte, e conseguimos falar disso: fazemos todo este percurso para te tocar, e para concretizar o destino.”

A Islândia sempre esteve na minha lista de lugares a visitar. Por causa da neve, das montanhas, dos vulcões, do jeito de lugar inabitado, sem grandes prédios, onde a natureza é o que chama a atenção. O país tem cara de uma cidade de mentira, toda inventada, onde tudo parece de brinquedo ou antigo. Acho isso tudo bonito demais. Parece mágico. Mas a Islândia não é só beleza, ou melhor, justamente aquilo que é bonito pode ser traiçoeiro. E só parei para pensar nisso depois de ler Paraíso e inferno, de Jón Kalman Stefánsson, lançado neste ano no Brasil e traduzido direto do islandês por João Reis.

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Os 10 melhores livros de 2016

Chegou a hora, pessoal. Nunca vamos parar de fazer listas. Precisamos de listas. Precisamos categorizar o que acontece com a gente. Acho que até já perdemos a birra com as listas que reinou no ano passado. Não temos como fugir delas.

Na lista “vida em 2016”, eu colocaria algo como: “começou bom, aí ficou ruim, aí piorou, aí pareceu melhorar um pouco, agora não sei o que tá acontecendo”. Mas uma coisa é certa: 2016 foi um bom ano de leituras. Já começou com um destaque grande para obras escritas por mulheres – e o melhor foi notar que fiz isso inconscientemente, não baseei minhas escolhas em “esse foi escrito por uma mulher e por isso tenho que ler”. E também consegui bater minha meta de leitura no Goodreads (ok, 30 livros, até fácil comparado com aquele ano em que li 92…), pois sabemos como a vida adulta e proletária é difícil, e não é nem uma questão de ter tempo para ler, mas força de vontade mesmo. Considero isso uma vitória.

Depois dessa introdução nada animada, aqui vai a minha listinha de MELHORES LEITURAS DE 2016 (não é melhores lançamentos, é o que li de mais legal nesse ano mesmo).

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