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Olhe para mim, de Jennifer Egan

olhe-para-mimFui daquelas leitoras que ficou entusiasmada com A visita cruel do tempo, que tratou de ler o romance premiado de Jennifer Egan assim que ele chegou ao Brasil, e que considerou o livro uma das melhores leituras daquele ano. Sim, ele é ótimo, e aquele capítulo todo em slides de powerpoint foi uma bela sacada. Não consigo lembrar de alguma parte do livro que eu não tenha gostado. Jennifer Egan conseguiu me fazer ficar atenta a cada um de seus inúmeros personagens, e eu esperaria em seus próximos livros encontrar esse mesmo talento. Apesar de ter O torreão autografado aqui do meu lado, ainda não parei para ler seu segundo livro publicado em português. Mas uma das minhas últimas leituras foi o terceiro livro a chegar por aqui, lançado originalmente em 2001, pouco antes dos atentados do 11/9: Olhe para mim.

Neste livro já é possível notar algumas características presentes em A visita cruel do tempo: a narrativa é construída através de vários pontos de vista – mais focado em quatro personagens – com leves mudanças no estilo. A protagonista é Charlotte Swenson, uma modelo de 35 anos (mas diz ter 28) que vê sua carreira decair cada vez mais. Ela conta sua história em primeira pessoa a partir de um acidente de carro que mudou drasticamente a sua vida: ao visitar sua cidade natal, Rockford, ela perde o controle do veículo e o impacto do acidente quebra os ossos de seu rosto. Sua face foi totalmente reconstruída, deixando-a ainda bonita, porém completamente diferente do que era antes. Nem seu agente de Nova York é capaz de reconhecê-la mais, muito menos seus colegas de profissão ou pessoas que antes eram conhecidas, mas não passavam de interesseiros de olho no prestígio de modelo que Charlotte um dia teve. Continue reading

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Um, dois e já, de Inés Bortagaray

umdoisejaSou simpática a livros curtos. Com Bonsai, de Alejandro Zambra, foi paixão na primeira leitura. Existe algo na finura do exemplar, no tamanho grande da fonte e nos grandes espaços em branco na página que me atraem logo para a leitura. Como se um livro breve fosse a melhor representação da frase “o que é bom dura pouco”. Óbvio que essa impressão existe também com os grandes romances – em que 700 páginas são lidas sem mal notar. Mas com o livro curto você sabe que será rápido mesmo, em um, no máximo dois dias (se você se esforçar demais para adiar a leitura), vai terminá-lo. Era isso o que eu pensava logo que comecei Um, dois e já (Cosac Naify, 2014), primeiro livro da uruguaia Inés Bortagaray publicado no Brasil.

Nas 93 páginas do livro, uma menina conta como está sendo a viagem da família de Salto para La Paloma, no litoral do Uruguai. Não sabemos seu nome ou idade, apenas que é a filha do meio: tem uma irmã mais velha, um irmão mais velho e uma irmã caçula. Seus pais estão no banco da frente, as quatro crianças se apertam no banco de trás, revezando os lugares na janela a cada 200 quilômetros de estrada percorrida. Sabemos que eles já viajaram para La Paloma antes, que a história não se passa nos tempos atuais, mas anos atrás, quando o Uruguai ainda estava sob a ditadura, e que seus pais fazem parte do partido oposicionista – em certo momento, a menina lembra de uma passeata contra a censura que foi com os pais e uma amiga filha de um norte-americano. Mas essas coisas são só o pano de fundo em Um, dois e já.

Leia a resenha completa no Amálgama.

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As leis da fronteira, de Javier Cercas

leis_fronteira_CAPA.pdfO verão de 1978 foi atípico para Ignacio Cañas, um jovem catalão da classe média, na cidade de Girona. De um adolescente com uma rotina normal, com amigos da escola e uma família tradicional, ele terminou o ano letivo sendo perseguido por um colega valentão, amedrontado pelos ataques e insultos de seus antigos amigos e travando discussões com o pai. Com 16 anos, a escola não era mais um lugar suportável, sair na rua não era mais divertido, pois a qualquer momento ele poderia topar com seu algoz, e sua casa se tornou um lugar insuportável de ficar. Até que um dia, em um dos fliperamas da cidade, conheceu Zarco e Tere. Jovens que nem ele, praticamente seus vizinhos, mas vindos de um outro lugar, separados de Cañas por um abismo enorme criado pela desigualdade.

Zarco e Tere eram quinquis, gíria catalã para “delinquentes juvenis”, moradores da parte mais pobre da cidade. Nesse dia, no fliperama, convidam Cañas para se juntar a eles em um bar no bairro chinês, conhecido na época por abrigar os traficantes, bandidos e prostitutas de Girona. Qualquer garoto teria declinado o convite e saído correndo amedrontado ao ser “recrutado” para sair com pessoas como Zarco e Tere, mas não Ignacio. Ele já não tinha muito a perder, e o interesse por Tere o convenceu a aparecer no bar depois de alguns dias. E aí a última peça da gangue juvenil mais famosa da Espanha se integra ao grupo, e a história de As leis da fronteira começa.

Leia a resenha completa no Posfácio.

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Mudança, de Mo Yan

mudanca-mo-yanMudança era para ser um livro sobre as mudanças pelas quais a China passou nos últimos 30 anos. No povoado rural em que nasceu, Mo Yan viveu os últimos dias da era maoista, vivenciou a Revolução Cultural e se tornou escritor enquanto a China caminhava para um grande crescimento econômico. Mas o livro, uma encomenda feita por Tariq Ali para a coleção What Was Comunism, acabou tomando outra forma do que um relato preciso sobre as transformações da China comunista. Na verdade, é uma “autobiografia ficcionalizada” em que Mo Yan mostra a mudança por um viés mais humano, focado nas pessoas de seu povoado e em um velho caminhão soviético.

Um caminhão soviético porque, desde quando ainda estava na escola, a vida de Mo Yan esteve ligada ao Gaz 51 dirigido pelo pai de uma de suas colegas, Lu Wenli. Na comunidade rural em que cresceu, dirigir um caminhão conferia um status superior ao seu motorista e sua família, pois poder sentar atrás de um volante e ser responsável por ele era um sinal de importância que deveria ser respeitado. Havia satisfação em ver o Gaz 51 percorrendo as ruazinhas, levantando poeira sem se importar com o que vinha pela frente – o que causava a morte de muitas galinhas por atropelamento. Todas as crianças sonhavam em sentar no banco do caminhão com o pai de Lu Wenli para sentir sua velocidade. Continue reading

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Vício inerente, de Thomas Pynchon

vicio-inerentePara quem conheceu Thomas Pynchon lendo Contra o dia – seu calhamaço de mais de mil páginas com inúmeras histórias e personagens que não parecem fazer sentido algum – enfrentar Vício inerente é bem mais tranquilo. Sim, fiz a doidice de começar a ler o autor mais recluso e zoeira de todos com uma história nada fácil, e maravilhosa. Vício inerente já estava há algum tempo na minha pilha de leituras – assim como está Mason & Dixon – e decidi dar a vez a ele por um motivo bem claro: o livro está sendo adaptado para os cinemas por Paul Thomas Anderson, e deve estrear ainda este ano. Em casos especiais, eu gosto de ler o livro antes de ver o filme.

Vício inerente é uma história de detetive que resgata o protagonista de Vineland e O leilão do lote 49. Larry “Doc” Sportello é um detetive particular que viveu intensamente a época do Flower Power e toda a cultura hippie dos anos 1960. Mas neste livro, que situa o protagonista no início dos anos 1970, a cultura hippie já não está tão em alta, e aos olhos de muitos Doc não passa de um maconheiro fracassado. Pois sim, ele vive chapado, e não esconde isso de ninguém. A maconha, aliás, tem papel importante em toda a jornada do livro. Continue reading

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Reconhecimento de padrões, de William Gibson

reconhecimento-de-padroesDe todas as alergias que existem no mundo, certamente a mais estranha que tive conhecimento até agora foi a aversão à marcas registradas. Quando li a sinopse de Reconhecimento de padrões, de William Gibson, imaginei algo ideológico. Pensei que Cayce Pollard, sua protagonista, tivesse algum tipo de pensamento contra o marketing em geral, a cultura das marcas e sua exposição excessiva. Mas não: a aversão que ela tem é realmente física. Iniciada quando criança, ao ver aquele bonequinho dos pneus Michelin, e daí para frente se repetindo com qualquer marca famosa reconhecível em todo o mundo: ânsia de vômito causado por bolsas Louis Vuitton, dores de cabeça espontâneas ao ver uma placa do McDonald’s. Coisas desse tipo.

Cayce sofre com essa aversão por ter uma sensibilidade aguçada para logotipos. Por ter esse dom – ou fardo, dependendo do ponto de vista – ela é capaz de dizer rapidamente se uma nova marca ou tendência fará sucesso no mercado ou não. Usando a sensibilidade a seu favor, ela atua como uma espécie de consultora, contratada por grandes agências do mundo todo para avaliar suas ideias e campanhas e indicar o que será ou não desejado nos próximos meses – uma coolhunter. Contudo, o último trabalho para o qual foi contratada se mostrou um desafio maior do que ela poderia imaginar. Por trás da avaliação de um novo logotipo para uma marca de tênis esportivos havia uma disputa de cargos na qual ela não queria se envolver, o autor misterioso de um filme cultuado pela cena artística alternativa e um novo pedido de cooperação com o dono da agência Blue Ant, que ela considera ser a pessoa mais repugnante do planeta. Continue reading

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Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, de Alice Munro

odio-amizade-namoro-amor-casamentoEm 2013, aos 82 anos de idade, a canadense Alice Munro ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. A autora já tinha alguns livros traduzidos aqui no Brasil, mas, como é regra para mim, geralmente não conheço escritores recém-agraciados com o prêmio da academia sueca, e o Nobel acaba sendo o ponto de partida para lê-los. Felizmente, assim que anunciado, editoras apresentaram novas edições e traduções engatilhadas – como a de seu último livro publicado, Vida querida. Outra delas foi Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, publicado no final do ano passado pelo selo Biblioteca Azul da Globo Livros.

O volume traz nove contos que narram vidas de personagens bem distintas: jovens, idosos, crianças, todas as histórias girando em torno de reencontros, do companheirismo, do amor e de algumas traições. O primeiro conto, que dá nome ao livro, faz referência a uma brincadeira adolescente de duas das personagens, que inventam cálculos matemáticos com os nomes de suas paqueras e, contando em ordem, preveem se suas relações vão terminar em ódio, amizade, namoro, amor ou casamento. Neste primeiro conto Alice Munro joga com a percepção do leitor, fazendo a história mudar de rumo a toda hora.

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O senhor Henri e a enciclopédia, de Gonçalo M. Tavares

o-senhor-henriEm algum lugar existe um bairro habitado pelos grandes nomes da literatura. O Sr. Cortázar vive no mesmo prédio que o Sr. Gógol, o Sr. Melville e o Sr. Henri. Na construção ao lado, encontramos o Sr. Kraus e o Sr. Voltaire. Mais acima, o Sr. Brecht, e um pouco mais além, o Sr. Rimbaud, o Sr. Balzac e o Sr. Carroll. Ainda há muitos senhores – e a Srª Woolf – morando neste lugar criado por Gonçalo M. Tavares, uma região fictícia para aqueles que se dedicam a fazer ficção. O bairro é uma série de livros do escritor português que fala de cada um desses moradores, dezenas de obras inspiradas em autores consagrados, que há pouco descobri ao ir em uma palestra sobre o autor (minha especialidade em eventos literários: frequentar palestras sobre escritores que ainda nem li). Saí de lá querendo ler qualquer coisa dele, e dias depois já tinha em casa duas de suas obras: Aprender a rezar na era da técnica O senhor Henri e a enciclopédia. É sobre Henri que este texto vai falar.

O senhor Henri e a enciclopédia é o segundo livro da série O bairro, inspirado no poeta belga Henri Michaux. Do primeiro capítulo ao 36º, o senhor Henri não larga o seu copo de absinto, e quanto mais bebe, mais falador fica. Durante toda a narrativa Henri monologa sobre os verbetes que lê em sua enciclopédia todos os dias, demonstrando seu conhecimento sobre o mundo para os colegas de balcão do ilustre estabelecimento que frequenta – o bar. O absinto é como um combustível que o senhor Henri pede a cada três ou quatro frases, mais um copo, por favor.

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2001: Uma odisseia no espaço, de Arthur C. Clarke

2001-uma-odisseia-no-espacoDesde o início, quando o homem-macaco ainda estava enfrentando tempos de escassez e fome, o que proporcionou sua sobrevivência foram as armas. Com uma pedra pontuda e afiada na mão, ele descobriu que podia matar animais para comer, o que lhe daria mais alimento e não o faria depender apenas das plantas e frutas providas pela natureza. Com as armas, pôde afugentar seus inimigos e predadores. E conforme as armas foram evoluindo, o homem-macaco também passou por mudanças, adquirindo novas habilidades, ficando mais frágil fisicamente, porém mais inteligente – se tornou homo sapiens A curiosidade sobre o lugar em que vive e sobre o que o homem é levantou perguntas complexas, como, por exemplo, se a Terra é o único planeta com vida inteligente no Universo. Em 2001: Uma odisseia no espaço – livro escrito por Arthur C. Clarke simultaneamente com o roteiro do filme de Stanley Kubrick – existe inteligência além da nossa. E foram os alienígenas os responsáveis pelo despertar da mente humana.

A visita de um artefato alienígena à Terra dá início à história de um dos maiores clássicos da ficção científica. Após narrar detalhadamente a vida de uma tribo do ancestral do homem na África, Clarke dá um gigante salto no tempo, partindo para os anos 1990, onde Dr. Floyd está viajando à Lua para resolver uma questão confidencial do governo norte-americano. Algo aconteceu na base lunar, e ele é o responsável por descobrir o quê. Ele e sua equipe de cientistas se deparam com um monolito, um artefato escuro, como se feito de puro material preto, com dimensões precisas e, segundo seus cálculos, enterrado nas rochas da Lua muito tempo antes de existir vida humana como a conhecemos. Aquilo não poderia, de forma alguma, ter sido construído pelo homem, e não estava lá no satélite da Terra desde sempre. O monolito foi deliberadamente escondido. Ou seja, houve vida inteligente no Universo além da Terra. A dúvida é: aqueles que deixaram o monolito na Lua ainda existiam? Continue reading

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A festa é minha e eu choro se eu quiser, de Maria Clara Drummond

a-festa-e-minha-e-eu-choro-se-eu-quiserFelicidade é ter status, conhecer pessoas, ser convidado para festas. É ter um emprego badalado, que paga bem e te faz conhecer mais pessoas e ir para mais festas. Essas afirmações podem ser verdadeiras para muitos jovens de hoje. Mas para Davi, protagonista e narrador de A festa é minha e eu choro se eu quiser, romance de estreia de Maria Clara Drummond, não há felicidade nisso – nunca houve. Nem todos os amigos do mundo são capazes de fazer você esquecer que está insatisfeito, sem saber com o quê ou por quê. A vida é mais complicada que uma noite de festas e um círculo social da modinha, e felizmente (ou infelizmente), não são todos que possuem uma autoconsciência capaz de lhes dizer que aparentar felicidade não é o mesmo que ser feliz.

Davi é um cineasta do Rio de Janeiro que aceita um emprego para dirigir vídeos publicitários em São Paulo. É um jovem bonito, com um bom salário, que frequenta festas todas as noites e também viaja para Berlim. Mas é a sua autoconsciência a responsável pela narrativa. Ela aponta o que parece falso nas relações que mantêm e nas que observa durante as noitadas com seus supostos amigos. Ela o lembra de seu passado pouco popular, de quando era um menino gordinho que tomava antidepressivos e dormia no palco durante uma apresentação da feira de ciências. Ela repete o tempo todo que ele está perto do fracasso, que seu sucesso não é real e logo ele será desmascarado. Ela o trava, o desanima e o arrasta para um buraco interno do qual ele luta para sair. Continue reading

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