Resenhas

A balada de Adam Henry, de Ian McEwan

a-balada-de-adam-henryDentre o monte de livros que compõem a minha pilha interminável de futuras leituras, escolhi A balada de Adam Henry, o mais recente romance de Ian McEwan, pelo dilema moral e religioso que a história prometia. Fiona Maye é uma juíza do Tribunal Superior especializada em direito de família, em Londres, e está prestes a completar sessenta anos. Com sucesso na carreira e, até então, na vida pessoal, ela vê sua rotina abalada pelo pedido do marido, Jack, de que eles tenham um casamento “aberto”, ou seja: insatisfeito com a vida sexual, ele informa Fiona que está interessado em uma mulher muito mais nova, uma estudante de estatística de 28 anos, e que gostaria de manter um caso com ela, mas com o consentimento da esposa – ela mesma poderia ter suas aventuras fora do casamento.

Inconformada com o pedido de Jack, Fiona não aceita o acordo e exige que ele escolha entre a longa e tranquila união e a jovem. Ao se ver sozinha em casa, ela mergulha ainda mais no trabalho que ocupou sua rotina durante toda a vida, mas que nunca chegou a tirar momentos seus com Jack, apesar de não ter dado espaço para que ela tivesse filhos. Até aí, tudo bem, vemos os detalhes de uma história comum sobre uma mulher ameaçada de abandono que usa o trabalho para esquecer por algumas horas os dramas pessoais. Mas a história de Fiona toma um novo rumo com a chegada de Adam Henry, adolescente de 17 anos com um tipo raro de leucemia que precisa de uma transfusão de sangue urgente para dar continuidade ao tratamento que salvará a sua vida. Porém, o jovem e sua família recusam a transfusão. São Testemunhas de Jeová e, pelas regras da religião, uma pessoa não pode receber em seu corpo o sangue de outra, o sangue dado por Deus não pode ser “profanado” com o de outro ser vivo. Como Adam é menor de idade, o hospital leva a decisão à justiça, e cabe à Fiona decidir qual será o futuro do garoto. Continue reading

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Aleatoriedades Literárias

As melhores leituras de 2014 (por mim mesma)

Faltam poucos dias para 2014 acabar (poderia colocar o número de dias aqui, mas sou tão ruim com números que poderia errar esse cálculo fácil, então vamos usar o “poucos dias” mesmo), e esse foi um ano bom profissionalmente, pessoalmente, mas fraquíssimo na minha intensidade de leitura – provavelmente por estar tão ocupada com as coisas fora dos livros, né – e também por usar o tempo no ônibus para dormir mais.

Mas vamos lá: foram 27 livros lidos ao todo (sim, só isso), e há ainda quatro em processo de leitura - Graça infinitaque está maravilhoso, O demônio do meio-dia, que interrompi justamente por causa do Graça, mas que também estava ótimo, A balada de Adam Henry, a atual leitura de ônibus (pois né, difícil carregar DFW por aí), e Oblómovque já vou até considerar aqui como “abandonado” porque sei que vou levar eras até pegar ele de novo – tiro da conta o Dom Quixote marcado como “lendo” no Goodreads porque li o primeiro volume no ano retrasado e falta só o segundo, hehe. Continue reading

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Resenhas

Tempo de espalhar pedras, de Estevão Azevedo

tempo-de-espalhar-pedrasA terra neste lugar já foi próspera, mas não se pode dizer o mesmo nos dias de hoje. Plantação nunca vingou muito, só para o sustento. Criação ninguém nunca teve muita para dela tirar lucro. A riqueza que havia ali vinha das pedras, do garimpo de diamantes que levou até lá homens em busca de riqueza, e que caíram nas mãos controladoras de um coronel capaz de confiscar as próprias ferramentas de trabalho como pagamento de dívidas que ele forçou seus homens a adquirir. Hoje eles continuam a trabalhar com menos afinco que antes, mas com esperança e desespero maior, movidos pela fome em busca da última pedra.

Em Tempo de espalhar pedras, Estevão Azevedo acompanha a vida de quatro personagens nessa terra sem nome: Ximena, filha de um dos garimpeiros mais velhos, se engraça com Rodrigo, este caçula de garimpeiro rival, Diogo. Ainda há Joca, seu irmão, que busca uma forma de mostrar seu valor, se não para a família que seja para Bezerra, amigo que o acolhe na busca pela pedra em local escondido das fuças do coronel. E, por fim, Silvério, o carola que reza enquanto, alucinando de fraqueza e fome, procura convicto a pedra que se esconde quiçá debaixo da própria casa. Continue reading

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O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan

imageAntes de ler O mundo assombrado pelos demônios, li Contato, o romance “alienígena” de Carl Sagan. Protagonizado por uma cientista, o livro apresenta um observatório que recebe estranhos sinais de rádio que, quando descriptografados, mostram que estivemos sendo observados do espaço esse tempo todo, e ainda oferece um manual para a construção de uma espécie de nave para encontrarmos nossos “vizinhos”. Antes mesmo de saber quem era Sagan e qual era a sua importância para a ciência, eu conhecia sua ficção – que na época gostei bastante.

Depois de conhecer seu trabalho de astrofísico (cientista, astrobiólogo, cosmólogo etc.), ver um ou outro episódio de Cosmos e ficar mais interessada pelo que ele tinha de “real” para escrever, me interessei por O mundo assombrado… O livro, publicado em 1996, é descrito como uma carta de amor à ciência, um relato íntimo em que Sagan conta como foi conquistado por ela e por que a considera tão fundamental. O livro tem isso, mas também tem muito de alerta. Alerta para que o leitor saiba diferenciar ciência de pseudociência, de ser crítico e cético – que não é o mesmo que ser descrente em tudo, mas sim ser cauteloso com os fatos que se colocam na nossa frente. Mesmo agora, em 2014, com toda a tecnologia que nos permite acessar facilmente qualquer informação, esse alerta é muito necessário.

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As cavernas de aço, de Isaac Asimov

as-cavernas-de-acoAs três leis da robótica dizem que: 1 – “Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano venha a ser ferido”; 2 – “Um robô deve obedecer as ordens dadas por seres  humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei”; 3 – “Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou com a Segunda Lei”. Essas leis são fundamentais para a construção e convivência pacífica entre robôs e humanos, e são as primeiras coisas “instaladas” em seus “cérebros”. Mas a ameaça dos robôs vai além dessas três leis para os personagens de As cavernas de aço, o primeiro romance que trata do universo da robótica escrito por Isaac Asimov.

Como o próprio texto introdutório de Asimov publicado nesta edição lançada no ano passado pela Aleph explica, o autor já havia colocado os robôs como centro de seus contos, publicados em revistas especializadas em ficção científica a partir dos anos 1940. Apesar de já ter escrito romances, As cavernas de aço foi o primeiro texto longo com os homens de lata e cérebros artificiais. Na história, Elijah “Lije” Baley, um investigador da polícia de Nova York, é colocado para trabalhar num caso de assassinato ocorrido na Vila Sideral – local onde moram os Siderais, um povo dos mundos exteriores pouco apreciado pelos humanos. O homem morto é um famoso cientista que projeta robôs, e o caso é mantido às escondidas pelo fato de ser impossível um humano entrar, cometer um crime e sair sem ser visto da Vila – o que pode abalar muitas relações diplomáticas com os outros mundos. Continue reading

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Resenhas

O pintassilgo, de Donna Tartt

o-pintassilgoTheo Decker tem 13 anos quando sobrevive a um atentado terrorista em um museu de Nova York. Mas o trauma maior não é a explosão que presenciou em si, e sim a perda da mãe neste mesmo atentado. A mãe era encantadora e insubstituível para o garoto, que vivia há um ano sem o pai alcóolatra e cheio de dívidas que os abandonou. Theo nunca irá se recuperar dessa falta da mãe, e cada lembrança sobre seus últimos passos, os últimos lugares em que foram juntos, guarda uma porção de dor e saudade.

É óbvio dizer que a vida de Theo muda completamente depois dessa tragédia aleatória – por que, de tantos lugares em NY, eles estavam justamente lá, no meio da explosão? O que aconteceu nas galerias daquele museu define o que o garoto será na vida adulta. Na busca pela saída entre os escombros, Theo encontra o agonizante Welty, um senhor para quem ele faz companhia até o momento da morte e que lhe aponta um quadro na parede, justamente aquele que fez sua mãe adiar um compromisso para estar no museu: “O pintassilgo”, do mestre holandês Carel Fabritius. Theo, sem ter real consciência do que está fazendo, leva a pintura para fora do museu, e sua vida passa a estar diretamente relacionada a ela pelo resto de sua vida. Continue reading

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Como ficar podre de rico na Ásia emergente, de Mohsin Hamid

como-ficar-podre-de-rico-na-asia-emergentePara Mohsin Hamid, a literatura é um tipo de autoajuda. Nas entrevistas que concedeu aqui no Brasil e durante sua mesa na Flip 2014, era isso o que ele dizia quando perguntado sobre o motivo de ter escrito um romance com a linguagem dos livros de autoajuda. Tudo começou com uma brincadeira, disse ele, até que pensou: peraí, mas por que lemos? Não é para nos encontrarmos dentro dos livros, ou então escaparmos da nossa realidade? É uma boa maneira de enxergar a literatura e os livros. Que, mesmo que não estejamos lendo pequenas pílulas de inspiração e conselhos provindos da sabedoria popular, filosófica ou macrobiótica (vai saber), nosso impulso inicial ao escolher uma leitura é o entretenimento e o conhecimento que podemos adquirir através dela. Logo, a literatura tem um papel, sim, de nos ajudar – mas não em todos os casos, claro.

Tudo isso só para dizer que Como ficar podre de rico na Ásia emergente é um livro de “autoajuda”. Escrito como um desses livrinhos famosos que enumeram passos para uma vida plena e de riquezas, ele conta a sua história. Você é o filho caçula de uma família que vive numa aldeia de algum grande país da Ásia. Você está tremendo de febre no chão, na sua cabana, e sua mãe e seu pai não podem fazer muito para te ajudar. Você já perdeu irmãos para a doença. Mas você sobreviverá, sua família vai sair do interior e fixar residência em uma das cidades mais populosas do mundo, você vai trabalhar numa locadora de DVD como entregador e vai conhecer a menina bonita, uma garota que mora próximo à sua casa e com quem você sonha um dia ter coragem para puxar papo. Mas seu maior desejo é ficar rico. E você vai começar do nada o seu “império”, primeiro vendendo comida vencida barata, e depois água engarrafada. Continue reading

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Enquanto Deus não está olhando, de Débora Ferraz

enquanto-deus-nao-esta-olhandoEnquanto Deus não está olhando, o mundo inteiro pode mudar e você nem perceber. É o que o pai de Érica diz, internado no hospital, debilitado pelos anos de alcoolismo. A frase, em si, demora para aparecer no romance de Débora Ferraz, vencedor do Prêmio SESC de Literatura de 2014. Na verdade, a palavra (ou nome) “Deus” é pouco citada durante toda a narrativa de mais de 360 páginas, mas ainda assim é o que dá título ao livro. Enquanto Deus não está olhando é sobre mudanças, e sobre como lidar com elas.

Érica Valentim é a narradora, uma jovem pintora de 20 e poucos anos. Ela está perdida, em busca de um pai que sumiu: um pai alcóolico, que não a compreende e nem aprova sua escolha profissional, mas que mesmo assim é amado e procurado pela filha. Na busca, ela é acompanhada, ou melhor, amparada, por Vinícius, um velho amigo com quem não mantinha contato há cinco anos. No desespero, ela liga para ele, e ele a ajuda. Eles têm uma história mal resolvida, e o retorno do contato é permeado pela tensão desses anos sem se falar. Enquanto procura o pai, Érica evita pisar na garagem recém transformada em ateliê, uma reforma caseira que seu pai com certeza não aprovaria. Mas ela nem teve chance de contar a novidade a ele, pois antes disso ele sumiu de sua vida. Só não da maneira como as primeiras páginas do romance dão a entender.

Leia a resenha completa no Posfácio.

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Dez de dezembro, de George Saunders

dez-de-dezembroÉ difícil falar sobre contos e blábláblá. A leitura é mais leve, mas ao mesmo tempo profunda e blábláblá. Resenhar um livro de contos é complicado porque ou você fala de cada texto, ou faz um comentário que consiga abranger todos os contos em uma coisa só e blábláblá. Não sei quantas vezes já comecei a falar sobre um livro com essas frases, mas a sensação, terminada a leitura, é essa: como explicar que os textos de tal autor são ótimos e como resumir a sensação da leitura como um todo? Isso só acontece, claro, com os bons livros, como foi o caso de Dez de dezembro, de George Saunders.

Não sei se é uma questão cultural, mas minha experiência com contos (que não é lá muita) diz que autores estrangeiros tendem a escrever narrativas mais longas, que abrangem 10, 20, 30, até mais de 60 páginas para uma única história (levantando a discussão de “mas isso é um conto ou uma novela?”), enquanto os escritores nacionais tendem a rechear seus livros com até 50 contos curtos, de três ou quatro páginas cada um – pelo menos foi assim com várias estreias literárias de autores daqui que caíram nas minhas mãos. (Ok, eu sei que alguns brasileiros mandam muito bem em contos mais longos, como os de Pó de parede, da Carol Bensimon, e alguns textos do Antônio Xerxenesky em A página assombrada por fantasmas.) Bem, tendo a gostar mais dos contos maiores, talvez justamente por terem a extensão necessária para me fazer absorver a história com mais detalhes (o que não é uma regra inquebrável, só para deixar claro). Os textos de Saunders são assim.  Continue reading

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Aleatoriedades Literárias

Alguns livros

Com a mudança para São Paulo, o trabalho, a vida social (que agora posso considerar ter agora), e eu estar dando muito mais atenção para a televisão (tenho que justificar os R$ 150,00 da NET que venho pagando), não encontro muito tempo para escrever mais resenhas – até o número de livros lidos diminuiu consideravelmente. Mas calma, não estou desistindo do trabalho, só estou mais preguiçosa mesmo. Por isso, vou falar rapidinho de algumas leituras que fiz durante o ano até agora que não ganharam uma resenha própria por “n” motivos – como não saber como falar deles sem uma segunda leitura, ou achar que o texto ficaria muito ruim e preferir nem começar. Então aí vai: Continue reading

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