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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Dias de abandono, de Elena Ferrante

dias-de-abandonoOlga é abandonada por Mario após quinze anos de casamento. Eles vivem num apartamento em Turim, na Itália. Ela, escritora, deixou o trabalho de lado para cuidar da casa e dos filhos, Gianni e Ilaria. Depois de um almoço em que tudo aparentava estar tranquilo, Mario lhe comunica calmamente que está indo embora. Olga fica sozinha com as crianças, tentando entender o que aconteceu, tentando não ser consumida pelo rancor do abandono.

Este é o enredo do curto romance de Elena Ferrante, Dias de abandono (tradução de Francesca Cricelli). A autora da série Napolitana mantém neste livro a mesma intensidade narrativa que encontramos em A amiga genial e História do novo sobrenome. Quem nos conta todo o drama da separação é a própria Olga, que aproxima o leitor de seus sentimentos e medos.

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A história dos meus dentes, de Valeria Luiselli

0c07f0b1-e096-431e-b570-dce06c9ea491Uma fábrica de sucos do México convidou a autora Valeria Luiselli para escrever sobre a organização do catálogo de uma galeria. Essa fábrica patrocina e mantém uma das maiores coleções de arte do país, e o convite fazia parte de mais uma obra artística. Valeria aceitou a encomenda, porém não queria escrever sobre esse tema específico. Ela se interessou mais pelos operários da fábrica. E assim começou a escrever capítulos curtos que, semanalmente, eram enviados de Nova York, onde vive, para o México. O texto era impresso em pequenos caderninhos e distribuídos entre os operários que liam e, uma vez por semana, se reuniam para discutir o texto. Os encontros eram gravados e os comentários eram, então, enviados de volta para Valeria nos EUA. Ela fazia alterações conforme as sugestões ou críticas dos funcionários da fábrica de sucos. Assim nasceu A história dos meus dentes (tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman).

Gustavo Sánchez Sánchez, mais conhecido como Estrada, é o melhor leiloeiro do mundo (mas só ele sabe disso), e quer escrever a sua “autobiografia dental”. Antes de ser leiloeiro, foi segurança de uma fábrica de sucos na Cidade do México, fábrica que patrocinava e mantinha uma grande galeria de arte. Galeria que ele nunca conheceu por dentro, pois não saía dos portões da fábrica. Depois de passar por outros cargos lá dentro, fazer cursos e mais cursos, deixar o emprego, se casar e ter um filho, Estrada vira leiloeiro.

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Cidade em chamas, de Garth Risk Hallberg

cidade-em-chamasCidade em chamas é um livro gigante, mas você não precisa ter medo dele pelo tamanho. Essa é a primeira coisa que falo para quem diz que ainda está meio receoso de dedicar tempo (e força, pois pesado) no primeiro romance de Garth Risk Hallberg. Não, Cidade em chamas não é nenhum labirinto literário quase que incompreensível que vai te fazer arrancar os cabelos – tipo Ulysses e Graça infinita, já que estamos falando de catataus e traduções do Caetano Galindo, que também cuidou dessa aqui. Cidade em chamas é, na verdade, uma história bem tranquila de ler. E talvez por isso muitos tenham se decepcionado com o livro, por esperar algo mais desafiador dele. Bem, ele não me decepcionou, mas também não colocaria na mesma categoria desses outros livrões citados.

Os Hamilton-Sweeney são uma família rica e tradicional de Nova York. William Hamilton-Sweeney III é a ovelha negra dessa família. Já saindo da adolescência ele foge de casa, descontente com o novo casamento do pai, que lhe dará uma madrasta e um tio pouco confiáveis (o irmão de Felicia é denominado, até, de Irmão Demoníaco). A irmã, Regan, mais certinha, ficou para trás para “tocar os negócios da família”. Mas isso só saberemos depois. É em volta desses irmãos que todas as outras personagens orbitam em maior ou menor grau. Quando Cidade em chamas começa, estamos em pleno réveillon, quando a cidade está deixando o ano de 1976 para trás. William, já com trinta e poucos anos, é uma lenda na cena underground de NY. Ex-líder da banda punk Ex-Post Facto, vive como pintor e divide o apartamento com o namorado, Mercer Goldman, um jovem professor de inglês negro que dá aulas numa tradicional escola para meninas. Vindo do interior dos EUA, Mercer ainda é um deslumbrado com a cidade que descobriu praticamente ao lado do namorado e sonha em escrever lá o grande romance americano. Já Regan está passando por um divórcio, com dois filhos, e entrando de cabeça ainda mais nos negócios da família.

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Bonita Avenue, de Peter Buwalda

bonita-avenueSiem Sigerius é o respeitado reitor de uma universidade holandesa localizada em Enschede. Casado com Tineke, que faz móveis em sua casa de fazenda, ajudou a criar as duas enteadas, Joni e Janis. Joni, a mais velha, namora Aaron, fotógrafo que admira a figura de Sigerius e de quem acaba se aproximando muito por conta do jazz e de seus treinos de judô – esporte que Siem dominava na juventude e quase o fez participar das Olimpíadas, mas que abandonou após um acidente. Acamado, o tédio o levou à matemática, momento em que descobriu ser um gênio com os números. Mas no começo de Bonita Avenue, romance de Peter Buwalda (tradução de Cassio de Arantes Leite), essa composição familiar não existe mais. Através dos pontos de vista de Siem, Joni e Aaron, o autor vai revelando os acontecimentos que causaram o afastamento dessas pessoas – e a morte do reitor.

A vida de Sigerius começa a sair dos eixos quando, no ano 2000, percebe uma grande semelhança entre Joni e sua “atriz pornô” favorita: Linda, uma americana de cabelos escuros e olhos claros (o contrário de Joni), que posta suas fotos eróticas em um site. Lendo a sinopse você pode até pensar que Sigerius é um velho pervertido que nutre uma atração secreta pela jovem enteada, mas não. A relação dele com Joni é paternal e protetora, são poucos os momentos em que há algum tipo de tensão sexual entre os dois, e sua reação ao notar a semelhança é mais próxima do puritanismo: como assim minha filha está se expondo desse jeito na internet? A própria relação dele com a pornografia é recente, não é como se Siem fosse um incorrigível tarado.

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Tirza, de Arnon Grunberg

tirzaJörgen Hofmeester é um homem de bem. Pai zeloso, profissional respeitado, marido dedicado, e mesmo assim foi abandonado pela bela mulher. Se preocupa com o futuro da família, economiza para deixar às duas filhas o necessário para nunca passarem nenhuma necessidade. Um homem de bem naquela concepção clássica de alguém que age pensando no bem-estar da família, para mantê-la unida e abastecida com o que precisar. “De bem”. Hofmeester é o protagonista de Tirza, romance do holandês Arnon Grunberg traduzido no Brasil por Mariângela Guimarães. Um personagem que tem de tudo para despertar a simpatia de qualquer um com seu jeito certinho e regrado de tocar a vida, mas que por algum motivo desconhecido só é pisoteado por ela. Mas essa impressão não passa de um equívoco inicial.

Ambientado em Amsterdã, Tirza é um romance sobre a decadência de um homem prestes a entrar na terceira idade. Perto dos 60 anos, Hofmeester está em sua casa, localizada no endereço mais respeitável da capital holandesa, preparando sushis e sashimis para a festa de formatura de Tirza, sua filha mais nova. Enquanto corta o peixe conforme os ensinamentos do curso que fez com a esposa pouco antes dela o deixar, ele repassa mentalmente tudo o que de mais importante lhe aconteceu até agora. Tirza está com 18 anos e partirá com o namorado em uma viagem pelo continente africano antes de entrar numa faculdade. A atraente esposa, que havia abandonado a família há três anos para viver um amor da juventude, volta para casa seis dias antes da festa, despertando raiva e alívio do marido. Ibi, a filha mais velha, deixou a casa há poucos anos e largou a faculdade para tocar um hotel na França junto com o namorado. Até ali, a vida de Hofmeester se resumia em ir de bicicleta para seu cargo de editor de língua estrangeira numa renomada editora, recolher o aluguel de seus inquilinos, cuidar da casa, do jardim e cozinhar para Tirza.

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Romance moderno, de Aziz Ansari

romance-modernoSem vergonha alguma: sempre usei bastante sites de relacionamento. Tinder, Ok Cupid, Happn, até aquele Tastebuds, que faz matchs com as pessoas de acordo com o gosto musical – cheguei a baixar uma vez um aplicativo que fazia a combinação pelos signos, mas não tinha quase ninguém do Brasil usando, então nem deu pra testar. Curiosidade? Sim. Desespero? Talvez. Mas acho que conhecer pessoas é o que sempre procurei fazer desde que comecei a usar a Internet (lá por 2004, 2005, meio atrasada). Os aplicativos e sites de relacionamento são, para mim, como um novo chat do Terra. Não sou a pessoa mais social do mundo, sempre bate aquela ansiedade/medo/vergonha de interagir com um possível crush pessoalmente, então a internet foi sempre a primeira opção pra mim. O que muita gente acha estranho e/ou errado, mas vou mostrar aqui que não.

Mas Taize, o que tem relacionamento a ver com um blog de resenhas? A-há! A resenha de hoje é, caso você tenha ignorado o título do post, de Romance moderno, livro do ator/comediante Aziz Ansari (esse mesmo, do Parks and Recreations, do Master of None, do stand-up comedy). Romance moderno (traduzido por Christian Schwartz) é, como o subtítulo diz, “uma investigação sobre relacionamentos na era digital”. Não é um livro sobre relacionamentos na Internet, veja bem, mas sim um livro que procura explicar como a tecnologia influencia nossas abordagens e também fala da mudança de valores quando o assunto é amor. Com a ajuda do sociólogo Eric Klinenberg, Aziz fala de uma forma bem-humorada sobre os prós e contras de tanta conectividade na hora de encontrar a alma gêmea.

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Os luminares, de Eleanor Catton

os-luminaresNova Zelândia, 27 de janeiro de 1866. Walter Moody acaba de chegar a Hokitika debaixo de uma tempestade, para no primeiro hotel que encontra e vai para a sala de fumantes depois de deixar seu quarto procurando por uma boa bebida. Escolhe uma cadeira e percebe que há um clima estranho no lugar: há mais doze homens com ele, cada um fazendo alguma coisa, mas todos com uma cara de desconfiança. Um deles, Thomas Balfour, decide puxar conversa e saber do motivo dele estar ali: quem é o jovem bem apessoado, o que faz em Hokitika, de onde veio, qual é a sua história. Depois de contar como veio parar na cidade – um conflito com seu pai que o fez querer sumir, adotando outro nome para subir a bordo da Goodspeed e ir atrás de ouro sem que ninguém saiba de seu paradeiro -, ele pergunta também o motivo de Balfour e todos os outros estarem ali.

Os doze homens se reuniram para discutir os estranhos eventos recentes de Hokitika. Crosbie Wells, um eremita bêbado que morava numa cabana no vale Arahura, foi encontrado morto em sua casa no dia 14 de janeiro. O corpo foi descoberto pelo político Alistair Lauderback, em viagem de campanha. No mesmo dia, Anna Wetherell, uma prostituta, é encontrada desacordada na estrada do vale para a cidade, provavelmente uma tentativa de suicídio por overdose de ópio. Ainda no mesmo dia, Emery Staines, o prospector de ouro mais rico da cidade, desaparece – sendo que ele havia contratado Anna pela noite toda no dia anterior. E todos desconfiam da participação de um só homem nesses eventos confusos, o capitão da Goodspeed, Francis Carver. É esse o mistério de Os luminares, de Eleanor Catton (tradução de Fábio Bonillo), que por quase 900 páginas tenta ser desvendado pelos homens da cidade, cada um com algum tipo de participação, mesmo que involuntária, no que aconteceu.

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História do novo sobrenome, de Elena Ferrante

historia-do-novo-sobrenomeQuando terminei a resenha de A amiga genial no ano passado, falei que a curiosidade de ler a série Napolitana de Elena Ferrante vinha desse mistério sobre a autora: dá poucas entrevistas e nenhuma pista sobre sua real identidade. Mas além disso, também falei que, fora essa curiosidade, o romance se sustenta sozinho, justamente o objetivo de Elena ao querer manter a sua identidade desconhecida. Se eu pensava que essa era uma estratégia muito bem-feita de chamar a atenção do mercado editorial e de ser lida, não penso mais o mesmo depois de ler o segundo livro, História do novo sobrenome. Não importa mesmo quem ela é, porque enquanto lia nem pensava nesse mistério. A qualidade de A amiga genial e a maneira que o livro terminou fizeram minhas expectativas crescerem muito com a série, e o segundo livro alcançou todas elas.

Com tradução de Maurício Santana Dias, História do novo sobrenome começa um pouco além do ponto em que o primeiro livro acaba: o casamento de Lila Cerullo com Stefano Caracci, dono da charcutaria do bairro humilde de Nápoles. A festa luxuosa do jovem casal, que marcaria sua entrada na vida adulta e prometia um futuro feliz, só foi perfeita nas aparências. Como descobrimos depois, logo na primeira noite juntos Lila percebe o erro que cometera ao se casar. Ela não esconde do marido seu arrependimento, e os dois logo entram em conflito. Na noite de núpcias começam as agressões de Stefano na mulher, que apesar dos socos e tapas não recua em sua rebeldia. Isso tudo é narrado, claro, por Lenu Greco, que semanas após o casamento descobre o que vem acontecendo entre ela e seu marido. Ela só vai conhecer de verdade os sentimentos da amiga meses depois, quando Lila lhe confia alguns cadernos em que registra a história do seu casamento, sua infância e outros pensamentos – itens importantes para Lenu entender coisas que nunca teria notado sozinha. Mas antes de estar de posse desses cadernos, Lenu já tem preocupações quanto ao futuro brilhante da amiga, deixado de lado por causa de uma união conveniente apenas para sua família.

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O pomar das almas perdidas, de Nadifa Mohamed

o-pomar-das-almas-perdidasEm 21 de outubro de 1987, três mulheres de diferentes gerações se encontram de maneira dramática. O encontro acontece durante a cerimônia que comemora o início do governo de Siad Barre em 1969, realizado num estádio na segunda maior cidade da Somália, Hargeisa. Todos da cidade, principalmente as mulheres, são convocados a participar e exultar o poder do presidente. Nem todas estão satisfeitas de estarem nessa situação. É através dessas três mulheres que Nadifa Mohamed narra os eventos que dariam início à Guerra Civil da Somália em O pomar das almas perdidas (tradução de Otacílio Nunes).

Kawsar é uma senhora solitária e idosa que vive em um pequeno bangalô de Hargeisa. Viúva, foi casada com um antigo chefe da polícia da cidade antes do golpe, e perdeu sua jovem filha logo depois, que não se recuperou após ser presa com estudantes que protestavam contra o governo. As duas perdas e a solidão em que ficou anos depois só aumentaram sua antipatia com todo o regime em que vive o país, e é com desgosto que ela caminha com suas vizinhas até o estádio. “As mães da revolução foram chamadas de sua cozinha, de suas tarefas, para mostrar a dignatários estrangeiros como o regime é amado, quanto elas são gratas pelo leite e pela paz que lhes trouxe. Ele precisa de mulheres que o façam parecer humano”, pensa ela enquanto entra no estádio.

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O último samurai, de Helen DeWitt

o-ultimo-samuraiSibylla foi ainda jovem para a Inglaterra. Inventou suas próprias habilidades para conseguir estudar em outro continente, não que ela não soubesse de nada, apenas porque não precisava que nenhuma autoridade atestasse o que ela sabe. Sibylla é uma jovem peculiar de uma família peculiar. Filha de uma mulher com talento para música, mas não talento suficiente para viver dela e se tornar a pianista que sonhava – assim como aconteceu com todos os seus tios. O pai, ateu, se desviou de um futuro brilhante nas ciências exatas para satisfazer a vontade de seu pai, um pastor, de pelo menos dar uma chance à religião. Duas pessoas que foram levadas a não fazer aquilo que queriam e nunca mais conseguiram voltar, que construíram juntos uma rede de motéis e cuja vida se resumia a isso – encontrar o próximo lugar à beira da estrada que poderia abrigar mais um empreendimento de sucesso. Sibylla quis sair dessa vida, e conseguiu.

Voltar para os Estados Unidos seria um fracasso pessoal para Sibylla. Com ajuda de uma amiga, consegue um visto de trabalho na Inglaterra, arruma emprego em uma editora, conhece um escritor famosinho em uma festa com quem passa apenas uma noite, e dessa noite nasce Ludo (ou David, ou Steven ou Stephen). Agora, cuidando de um garoto brilhante de quatro anos de idade, ela ganha a vida como digitadora de revistas cujos temas são os mais absurdos possíveis, e cuida sozinha da educação do filho. Uma criança tão peculiar quanto toda a sua família.

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