De pedra em pedra se monta um castelo e de gota em gota se forma um rio. Há vários desses ditados populares que querem dizer, basicamente, que aos poucos algo se torna grande. Grande o bastante para se tornar perceptivelmente bom ou, em muitos casos, insuportável. A rotina de Alfred e Enid Lambert é assim: nas pequenas ações de cada um, forma-se um ambiente opressor, deprimente e decadente. As pequenas torturas diárias que o casal de idosos confere um ao outro extrapolam a vida conjugal e estendem seus tentáculos para os três filhos. Eles, com suas próprias vidas, tão diferentes da dos pais, vão alimentando hábitos, pensamentos e escolhas que só contribuem para uma existência dolorosa e vazia enquanto divergem sobre a razão e o futuro do velho casal. (mais…)
24 de janeiro de 2012
O dinheiro conseguido com sangue é sagrado. Nos campos da China do final dos anos 1950, o homem que vendia seu sangue era visto como forte, saudável, um bom partido para as filhas dos camponeses. Isso porque possuía sangue em abundância e bom o suficiente para receber por ele. Já nas cidades, o sangue é algo tão sagrado que vendê-lo é quase como dar a própria vida. O que aqui chamamos de ato solidário, doar para aqueles que necessitam, nessa China constitui um mercado negro em que as pessoas davam sua energia em troca de dinheiro – e precisavam, inclusive, levar mimos ao “Chefe de Sangue” para que ele aceitasse comprá-lo. E o que deveria ser feito esporadicamente vira um hábito que suga a vida das pessoas transformando-as em vítimas. (mais…)
17 de janeiro de 2012
Em 1978, Gregory David Roberts foi preso por assalto à mão armada na Austrália. Ao se divorciar, o até então escritor se rendeu completamente à heroína, perdeu o contato com sua filha, sua família, e passou a roubar para alimentar seu vício. Capturado, ele foi condenado a passar 19 anos dentro de uma prisão de segurança máxima. Contudo, o horror das torturas sofridas dentro da cadeia e o desejo incontrolável pela liberdade levaram Roberts a um ato extremo: fugir. E em 1980, livre da prisão e um dos mais procurados foragidos da Austrália, ele desembarca em Bombaim, a cidade mais populosa do mundo. Muito mais do que uma chance de se esconder, se redimir de seus erros e começar uma nova vida, Gregory David Roberts encontrou na cidade a acolhida que nunca teve em nenhum outro lugar, e se sentiu em casa em meio ao caos da cidade indiana marcada pela pobreza, desigualdade e crimes. (mais…)
9 de janeiro de 2012
O nome, a capa, o subtítulo: tudo indicava que Peregrina de araque: uma jornada de fé e ataque de nervos no Oriente Médio é um daqueles tipos de livros no melhor estilo YA Books, só que nacional. Lembra aquelas histórias de mulheres decididas que embarcam em alguma viagem maluca para esquecer um desapontamento afetivo ou profissional e, no melhor estilo Sessão da Tarde, aprontam altas confusões. Depois de muitas situações absurdas e engraçadas, terminam em um momento de epifania, autoconhecimento ou qualquer outra coisa que “levante o astral”. O diário de viagem da jornalista gaúcha Mariana Kalil, publicado pela editora Dublinense, pode até ter muito disso. Contudo, ele não tem a pretensão de trazer importantes ensinamentos sobre a vida através de um romance água com açúcar. Mariana só quer mesmo contar como foi sua viagem, assim, de forma bem despretensiosa. (mais…)
3 de janeiro de 2012
Uma coisa difícil de entender no mundo dos quadrinhos é como muita gente ainda os considera “coisa de criança”. Para mim, desde o começo, gibis, HQ’s, graphic novels, enfim, álbuns e tirinhas que num olhar superficial são destinados às crianças servem para qualquer idade. Se eu pegar agora um dos gibis da Turma da Mônica ou do Pato Donald que li quando pequena, vou me divertir tanto quanto naquela época. Assim como Peanuts é uma das minhas tiras favoritas desde a infância, e que parece trazer muito mais significados para os adultos que para as crianças com suas ironias e reflexões sobre a vida. O mesmo para Mafalda e muitas outras histórias que fizeram a infância de muita gente e ainda são admirados por eles, independente da idade. (mais…)
2 de janeiro de 2012
Fui começar a pensar nas melhores leituras do ano para o post especial de toda a equipe do Meia Palavra. E toda vez que pensava em um título, eu dizia: “não, esse fulano já escolheu. Mas também tem esse bom. E esse. E esse outro. E mais esse”. Ah, impossível. Quando fui finalmente escrever a minha parte de melhor leitura, abri essa lista de livros lidos que mantenho aqui no blog e, enquanto olhava, ia clicando nos que mais me agradaram usando o seguinte critério: se viesse alguma boa lembrança dessa leitura, ele seria escolhido. E isso aconteceu com nada mais, nada menos, que 20 livros. Sim, 20. E não consegui diminuir essa lista não querendo ser injusta com os livros e comigo mesma. (mais…)
23 de dezembro de 2011
Antes de falar diretamente do livro De tudo fica um pouco, quero comentar duas coisas, ou fazer duas reflexões, o que quer que isso signifique. Primeiro já falando do livro de certa forma, ele é fruto de uma oficina literária ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC-RS. O professor é nome conhecido e acompanha muitos lançamentos de novos escritores da cena literária porto-alegrense, autores que passaram pela sua oficina de escrita criativa. Uns bons, outros nem tanto. Não sei exatamente o que pensar dessas oficinas, se elas são mais uma máquina de fazer escritores – contribuindo para a tal reclamação que corre por aí que possuímos mais autores do que leitores e por isso estamos em uma área já saturada cheia de “criação não criativa” –, um capricho de quem gosta de rabiscar algumas linhas para aperfeiçoar um pouco a linguagem ou uma ferramenta que realmente contribui para a formação do escritor. Minha opinião sobre isso é inexistente, no final das contas. (mais…)
20 de dezembro de 2011
Ao falar da literatura japonesa na introdução de 14 contos de Kenzaburo Oe,Arthur Dapieve destaca o talento desse povo em dizer muito usando poucas palavras. Ou seja, da forma que os japoneses, como sociedade em geral e não só seus escritores, dizem tanto sobre suas dores e problemas quando silenciam. É estranho pensar na literatura como algo que se destaca pelo silêncio, pela ausência de palavras, sejam ditas ou escritas, justamente na abertura de uma coletânea de contos de um dos maiores escritores japoneses, ganhador do Nobel de Literatura em 1994. Ainda mais queKenzaburo Oe não esconde nenhum desses dramas dentro dele mesmo, mas confere às suas personagens certa dificuldade para falarem de seus problemas – e, por isso, o talento da narrativa se faz indispensável para que o leitor veja o que elas não dizem. (mais…)
14 de dezembro de 2011
Contos fantásticos que abordam temas recheados de seres sobrenaturais, como demônios e gárgulas, misturados com outros de ficção científica que se passam no espaço e em futuros distantes. É bom sair um pouco da realidade e seus dramas tão exaltados pela literatura contemporânea que conseguem, em sua maioria, representar bem esses aspectos surpreendentes que todos guardam. Não há problema em deixar isso tudo um pouco de lado e se embrenhar em fantasias mirabolantes, certo? Certo. E foi assim que liConexões malignas, de Mário André Pacheco, mais um dos recentes lançamentos da editora Dublinense. (mais…)
9 de dezembro de 2011
Muito mais que uma estrutura policial, Edney Silvestre usa a sensibilidade para narrar a história de um sequestro em São Paulo no ano de 1991, em pleno governo de Fernando Collor. O Brasil passava pela crise do congelamento de poupanças em bancos, pela instabilidade dos preços dos itens mais básicos, pelo caos que levou ricos à pobreza, pobres ao desespero, quando pessoas se viram com pouco ou quase nada. Em uma época como essa, o título do novo romance do jornalista, A felicidade é fácil, vai totalmente contra ao que os brasileiros viviam. Não, a felicidade não é nada fácil. (mais…)
8 de dezembro de 2011
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