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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Estação Atocha, de Ben Lerner

estacao-atochaAdam Gordon é norte-americano, tem 20 e poucos anos, é poeta e está vivendo em Madri. Ganhou uma bolsa prestigiosa para viver um tempo na capital espanhola para escrever. Mas no lugar de alegria, orgulho ou contentamento ( qualquer sentimento mais eufórico sobre ser um jovem poeta promissor), ele sente bem o contrário. A rotina é medida pelos momentos em que toma seus remédios para controlar a depressão e ansiedade. Mais fuma e passeia do que escreve. Enfim, Adam não se sente digno da bolsa, de ser chamado de poeta, não vê exatamente genialidade naquilo que escreve e pensa que a bolsa seria bem mais aproveitada por outro estudante que soubesse falar espanhol melhor que ele. Ele se considera uma farsa, e para disfarçar o iminente fracasso que vai desmascará-lo a qualquer hora, inventa algumas mentiras aqui e ali só para parecer mais interessante.

Protagonista e narrador de Estação Atocha, de Ben Lerner (tradução de Gianluca Giurlando), Adam pode parecer um personagem intragável, mas não é. Ele é só mais um jovem inseguro que se compara demais com os outros, pensando que não merece nada daquilo de bom que lhe acontece. Estação Atocha acompanha esses meses de bolsa, suas tentativas de interagir com a comunidade artística de Madri, com as mulheres que encontra, com sua compreensão afetada pelo seu espanhol ruim (ruim, pelo menos, em sua auto-avaliação), com sua batalha interna de lidar com as próprias mentiras que dão início a uma culpa instantânea. Ben Lerner acompanha os vaivéns de um poeta sem muita confiança em si mesmo.

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Mais uma lista de melhores leituras de 2015 (que ninguém aguenta mais)

Por trabalhar com redes sociais para uma editora, o que mais ando vendo no fim do ano são as listas de melhores livros do bendito ano. E eu não aguento mais tanta lista. Já tem até uma lista das melhores listas de melhores livros (please, stop listas, mas essa é bem legal porque mostra umas estatísticas das listas, como número de autoras mulheres, homens, traduções, brancos, negros que aparecem nelas etc.). Mas se eu não suporto mais ver tanta lista por aí, por que estou fazendo uma? Porque é tradição, porque quero relembrar o que li esse ano, porque o Google adora e vivo recebendo visitas no blog por causa delas (rs).

De acordo com o DATAr.izze.nhas (a página de livros lidos), o número de títulos que eu li vem caindo a cada ano, shame on me. Já cansei de procurar desculpa para justificar isso (ano passado foi a mudança para São Paulo), então vou jogar a real e dizer que às vezes estou tão cansada, mas tão cansada, que só quero deitar no sofá e encarar a parede (ou então assistir novela mesmo). Ou talvez esteja desenvolvendo alguma dificuldade de me manter concentrada em uma coisa só. Mas ainda consegui reunir nove livros que gostei muito mesmo de ler em 2015, entre coisas que comecei no ano passado (beijo, DFW) e até uma releitura. Então, segue a listinha em ordem cronológica de leitura. :)

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Gigantes, de Pedro Henrique Neschling

gigantesJá devo ter comentado em algum texto, acredito, sobre aquilo que eu pensava que gostaria de ser quando adulta. Aos 15 anos, decidi estudar jornalismo, sonhando, sei lá, ser uma correspondente internacional, fazer grandes matérias, escrever sobre aquilo que eu acreditava ser importante e fazer diferença para o mundo. Aos 17, indo para a faculdade, estava empolgada com as aulas, ansiosa para começar a trabalhar feito uma louca em algum jornal, crente de que iria aguentar o tranco. Também estava feliz em um relacionamento que indicava durar para sempre, imaginando um futuro em que dividiria um espaço só meu com alguém que amava. Não preciso nem dizer que tudo saiu bem diferente do planejado. Não só deixei o sonho de ser uma grande jornalista de lado como estou em outra cidade, dividindo um apartamento com uma amiga, sem nenhum sinal de relacionamento ou amor no horizonte. E estou bem satisfeita com isso, ou pelo menos com parte disso.

Não sou só eu que não seguiu os planos da adolescência. Na verdade, para muitos deve ser assim – quando jovens, somos cheios de sonhos e expectativas com a vida que teremos pela frente, e, bem, geralmente estamos com a cabeça bem longe da realidade. Essa introdução toda é só para mostrar como o enredo de Gigantes, primeiro romance de Pedro Henrique Neschling, está tão próximo da realidade do jovem-adulto de hoje, que tem acesso a tantas informações, possibilidade de se conectar com tantas pessoas e lugares, que tudo parece fácil e possível, até descobrirmos que não é. Da mesma forma que eu fiz escolhas que nunca imaginei que faria, Fernando, Duda, Camila, Zidane e Lipe não se tornaram aquilo que desejavam ser.

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Cyberstorm, de Matthew Mather

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Tensão política, uma tempestade de neve e um ataque cibernético: uma das maiores cidades do mundo, Nova York, é derrubada e seus moradores se encontram em desespero. A comunicação começa a falhar, comida e mantimentos não chegam mais à cidade, e ainda há o boato de que muitas pessoas estão morrendo de gripe aviária, o que não pode ser confirmado nem desmentido. Às vésperas de um ano novo de frio rigoroso, todos estão presos na cidade e sem contato com o mundo, sem luz elétrica e sem água. Em Cyberstorm (tradução de Carolina Caires Coelho), Matthew Mather cria um cenário apocalíptico com esses ingredientes, e mostra como a paranoia e a falta de informação pode complicar ainda mais a sobrevivência quando o mecanismo de uma cidade começa a falhar.

Essa história é contada pelo ponto de vista de Mike, um homem de uns 30 e poucos anos que trabalha com internet e vive uma pequena crise em seu casamento: com um filho de dois anos, ele e sua mulher, filha de uma família tradicional e rica, estão se afastando aos poucos quando ela cogita voltar para a carreira de advogada. A proximidade com um vizinho que pouco o agrada levanta suspeitas de traição, que logo são eclipsadas quando Nova York começa a enfrentar o ataque cibernético. Com ajuda de Chuck, amigo e vizinho paranoico que mantém um abrigo e estoque de mantimentos em caso de ataques ou desastres, eles montam no prédio em que vivem um acampamento, ajudando mais pessoas que moram no seu andar e mantendo a mínima ordem. Algo que logo começa a chamar a atenção de gente de fora que, claro, não estão preparadas para enfrentar a neve, a fome e a falta das coisas básicas para a sobrevivência.

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Assim começa o mal, de Javier Marías

assim-comeca-o-malNo início dos anos 1980, a Espanha vive seus anos de liberdade após o fim da ditadura franquista. Francisco Franco ficou no poder de 1936 até sua morte, em 1975, e o país viveu tempos obscuros durante esse período. O que aconteceu entre opositores e apoiadores de Franco nestes anos raramente era comentado logo após as primeiras eleições livres, e os espanhóis, principalmente os jovens, aproveitavam essa liberdade, enquanto os que viveram os anos de ditadura preferiam não lembrar os detalhes do que aconteceu. Mas esse silêncio é quebrado, em parte, por Juan de Vere, um jovem de 23 anos contratado pelo cineasta Eduardo Muriel para ser seu assistente.

Assim começa o mal, novo romance de Javier Marías, alterna entre a vida privada e as histórias da ditadura franquista que vêm à tona. Muriel, preocupado com os boatos que surgem sobre a índole de Jorge Van Vechten, famoso médico pediatra e seu grande amigo, incumbe De Vere de investigar se as histórias que ouviu são verdadeiras ou não, fatos tão horríveis, na avaliação do cineasta, que podem lhe custar a amizade. Conforme se aproxima da vida de seu patrão, De Vere também vai se inteirando das questões pessoais de sua família, observando a relação de Muriel com sua esposa, Beatriz Noguera, uma mulher de 40 e poucos anos que preserva a beleza de sua juventude, mas que é constantemente rechaçada pelo marido. Beatriz ainda preserva o amor que sempre sentiu por Muriel, mas ele, quando estão sozinhos, trata a esposa com grosserias e xingamentos. Com o divórcio ainda proibido na Espanha, o casal continua a viver junto, para o desgosto de Muriel e satisfação de Beatriz, que tem esperanças de reconquistar o marido.

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Só faltou o título, de Reginaldo Pujol Filho

so_faltou_o_tituloUma das coisas que mais me surpreendeu depois de começar a trabalhar em uma editora é a quantidade de gente que despreza a literatura contemporânea e os autores novos. Os motivos são vários: não lidam com profundidade em seus livros com os problemas de nosso tempo; não têm o requinte dos clássicos e assassinam a nossa língua; são narrativas feitas para se agradar e agradar aos seus pares etc. Sem falar nas acusações de panelinhas, de favorecimento porque o autor recém lançado é amigo de um amigo de um amigo que conhece um editor e, por algum tipo de favor, conseguiu ser publicado. Mas nenhuma dessas acusações é mais divertida do que aquela que diz algo parecido com: “Não entendo como vocês publicam esse tipo de lixo quando tem um autor muito melhor para ser publicado: eu”. Ter confiança no trabalho e amor próprio é bom, claro, mas devemos baixar um pouco a bola da amargura quando o pobre escritor renegado pelo mercado editorial se acha absurdamente melhor que qualquer coisa que esteja nas livrarias.

Por conta disso, ri muito logo de cara de Edmundo Dornelles, protagonista do primeiro romance de Reginaldo Pujol Filho, Só faltou o título. Entre os 40 e 50 anos, idade que tem durante a história, Edmundo escreve páginas e páginas de rancor dirigidas ao mercado literário pelas constantes recusas a seus romances – tão bem escritos, elaborados, obras-primas da literatura nacional que ninguém lê porque boas histórias não vendem no Brasil e nem interessam aos “leitores”. Além de elaborar impropérios contra autores, leitores, editores e livreiros, ele também reclama da gentinha sem cultura e sem inteligência que o rodeia: a namorada, Babi, com quem passa a morar junto em 2002 e o atormenta por considerar sua escrita um “hobby”; os colegas de bar, que fica logo abaixo de seu apartamento em Porto Alegre e que frequenta assiduamente; Tatiana Fagundes, a assistente editorial da Record que lhe passa as revisões que rendem o único dinheiro que consegue ganhar; o irmão Sérgio, que continuou com o negócio do pai, sua mãe e toda a família que o vê como alguém sem sucesso na vida. Ninguém é tão inteligente, culto e importante como Edmundo, e ninguém é capaz de enxergar a sua grandeza.

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A Vênus das peles, de Sacher-Masoch

a-venus-das-peles“Masoquismo é uma tendência ou prática parafílica, pela qual uma pessoa busca prazer ao sentir dor ou imaginar que a sente.”

Isso é o que Wikipedia diz sobre masoquismo. Nada muito complexo, apenas isso mesmo: encontrar o prazer na dor, ou na sensação de estar sentindo dor. Ser amarrado, chicoteado, socado, cortado, quiçá xingado, humilhado e até traído. A dor pode ser física ou também mental, mas é isso o que buscam: uma submissão que só pode ser conquistada com a confiança – pois no final você sabe que é só ali, na hora do sexo, e depois tudo voltará à velha forma de antes. O termo foi inspirado no nome de Leopold von Sacher-Masoch por conta do livro A Vênus das peles, uma das primeiras narrativas em que o desejo da dor como meio de atingir o prazer sexual foi narrado na literatura, escrito em 1870 – e que, claro, causou o maior escândalo na época. O livro ganhou uma nova edição pela Hedra em 2015 com tradução de Saulo Krieger.

Severin é um jovem rico quando conhece Wanda, uma viúva tão bem financeiramente quanto ele. A inicial admiração pela beleza da mulher logo se transforma em juras de amor, juras que encontram resistência na própria mulher que, amante da própria liberdade, sabe que seu desejo por Severin não será eterno. Mas, louco de paixão, ele se entrega à sua visão da Vênus em carne e osso – e peles. Uma entrega tão grande que ele lhe revela suas predileções, que consistem em ser maltratado, amarrado e espancado, tratado como um escravo ávido por satisfazer os desejos de sua “dona”. Apesar de nunca ter praticado tais atos, Wanda aceita, com algumas objeções iniciais, ser a Vênus das peles de Severin.

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Não há lugar para a lógica em Kassel, de Enrique Vila-Matas

nao-ha-lugar-para-a-logica-em-kassel2Em 2011, Enrique Vila-Matas aceitou o convite para participar da Documenta, uma exposição de arte sediada na cidade de Kassel, na Alemanha (seria Kassel a Inhotim da Europa?). Conhecido como um evento que apresenta o que há de mais novo no mundo da arte, o rótulo vanguardista da Documenta, à princípio, não o deixa muito animado. É da arte vanguardista que seus colegas riem, pensa o escritor, são ideias “inovadoras” facilmente rejeitadas. Mas esse não é o tipo de pessoa que ele quer ser, alguém que zomba daquilo que propõe ser novo, inédito, diferente. Aceitando participar, viaja à cidade onde fica por alguns dias, mais contemplando as obras e refletindo sobre a literatura e a arte do que, de fato, sendo parte da obra – ou, pelo menos, da obra que ele deveria representar. O relato – romanceado – desse convite e de sua participação está em Não há lugar para a lógica em Kassel, recém-lançado no país com tradução de Antônio Xerxenesky. A tarefa de Vila-Matas na Documenta é sentar em um restaurante e escrever, assim como outros colegas escritores fizeram. Escrever e interagir com possíveis curiosos que venham lhe perguntar o que está escrevendo. Dar ao visitante a oportunidade de conversar com o autor sobre seu processo criativo enquanto ele está realmente criando, quem sabe. Mas a perspectiva de passar dias sentado à mesa de um restaurante chinês durante algumas horas em uma cidade alemã não lhe é muito empolgante, e logo a animação que sente ao raiar do dia vai sendo soterrada pela ansiedade de estar à espera de ninguém tendo que escrever “ao vivo”.

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Estação Onze, de Emily St. John Mandel

estacao-onze2Alguma coisa acontece no mundo de modo que a sociedade não é mais aquela que conhecemos. Uma catástrofe nuclear, um avanço tecnológico, uma invasão extraterrestre, a própria natureza se vingando do homem… Anos depois, podem ser centenas, podem ser milhares, essa sociedade se reorganiza, seja na própria Terra ou em outros planetas – nem sempre ela continua habitável, né. Há muitas ficções científicas assim, e vale lembrar que um velho livro conhecido da galera (vulgo Bílbia) traz um monte de ideias de como acabar com o mundo. Mas em Estação Onze (tradução de Rubens Figueiredo), o que podemos chamar de sci-fi pós-apocalíptico, a coisa acontece em um tempo mais recente e estamos observando tudo. E é isso o que me fez gostar muito do romance de Emily St. John Mandel.

É noite em Toronto, no Canadá. Jeevan Chaudhary está na plateia de uma montagem nova de Rei Lear, clássico shakespeariano, quando o ator principal, Arthur Leander, tem um ataque cardíaco fulminante. Estudando para ser paramédico após anos de carreira jornalística como paparazzi e repórter, ele logo tenta reanimar o ator, mas já é tarde. No palco, uma atriz-mirim de 8 anos, Kirsten Raymonde, vê tudo sem entender exatamente o que está acontecendo. Pouco depois da morte de Arthur, começam a aparecer na cidade as primeiras vítimas da Gripe da Georgia, até então limitada apenas à Europa, que em questão de horas mata uma multidão de pessoas. E aí o mundo como o conhecemos acaba.

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Nora Webster, de Colm Tóibín

nora-webster-2Uma mulher com mais de quarenta anos perde seu marido. Com duas filhas jovens já fora de casa, às voltas com a faculdade, e dois garotos (pré) adolescentes para cuidar, ela não tem muito dinheiro, não tem emprego, e as coisas não são exatamente fáceis para uma mulher no final dos anos 1960 na Irlanda, ainda mais uma viúva. Nora Webster, romance mais recente de Colm Tóibín – que veio para a Flip de 2015 – é a história dessa mulher. Um livro, segundo o autor, que levou anos para ser escrito e que traz ecos da história de sua própria mãe e de como ela, Tóibín e seu irmão lidaram com a perda do pai.

Nora Webster (tradução de Rubens Figueiredo) não é apenas um livro sobre o luto, embora ele esteja sempre presente. Quando começa a narrativa, seis meses após a morte de Maurice, um respeitado professor da cidade, Nora ainda está fragilizada, triste e inconformada com a perda do amor de sua vida. A toda hora ela pensa o que Maurice faria, relembra suas opiniões, conversas que tiveram sobre conhecidos da cidade, sobre suas famílias, sobre os filhos. O sofrimento dela é palpável, transmitido ao leitor pela escrita simples e tocante de Tóibín. Ele não precisa de muito para mostrar como Nora está emocionalmente desgastada, apavorada com o futuro dela e de sua família. E, ainda maior que isso, sua irritação com a maneira que passa a ser tratada por todos.

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