Avenida Niévski e Notas de Petersburgo de 1836, de Nikolai Gógol

Todo lugar, das grandes metrópoles às pequenas cidades do interior, tem uma rua que reúne nele seus tipos, sua vida social. Avenida Paulista, Quinta Avenida, os calçadões de Ipanema, a Champs Elysées, a Rua dos Andradas… Podemos listar uma rua importante para cada cidade, onde as pessoas se encontram, flanam, trabalham, enfim, onde se cria todo o imaginário que vira retrato daquele lugar. No ano passado, a Cosac Naify publicou uma linda e interessante edição de Avenida Niévski, de Nikolai Gógol, um dos contos de sua série de histórias de Petersburgo escritas entre 1832 e 1842. É o cotidiano dessa avenida – na época, a principal da capital do império russo – que é retratado no conto.

O início da narrativa parece uma declaração de amor à Avenida Niévski, com Gógol exaltando a maneira como ela se transforma no decorrer das horas – mendigos e boêmios pela manhã bem cedo, ao acordarem, funcionários públicos a caminho do trabalho, os almoços, os passeios ociosos dos ricos durante a tarde, a turba barulhenta e ávida por contato social da noite. A avenida é portadora de uma misticidade que atrai para ela todos aqueles que querem ser vistos e querem ver. Uma avenida que é caminho, passagem, vitrine e inspiração. Continue reading

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Rostos na multidão, de Valeria Luiselli

Não sei se existe alguma regra que define a partir de que ponto você tem certeza que um livro é bom. Ou quantos livros de um determinado autor você precisa ler até ter certeza de que ele realmente é bom. Como quase tudo na literatura, essas relações de gosto são bem relativas. Um parágrafo pode ser o bastante para alguém se apaixonar por uma história, enquanto outros sempre ficarão à procura das qualidades que fazem aquele escritor ser adorado por tantos. Isso tudo só para dizer que para mim as coisas também funcionam de um jeito bem diferente dependendo do livro. O ideal é o básico: ler tudo, e na última página decidir se é bom ou não. Mas às vezes ignoro essa minha própria regra, e já determino bem antes disso o que pensei sobre o livro.

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Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose, de Stephen Rebello

Perto do final do livro Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose, o escritor e roteirista Stephen Rebello fala de como o filme é recepcionado pelos jovens telespectadores acostumados com os filmes de terror que vieram depois dos anos 1980: “o filme de Hitchcock pode soar hoje tão incompreensível quanto uma velha série dos primórdios da TV ou um filme mudo. Quem foi criado com Jason e Freddy pode ficar perplexo com o fato de o público de 1960 ter gritado por causa de Norman.” Achei interessante essa percepção ser expressa logo no final do livro que acompanha como foi a produção de um dos mais famosos filmes do aclamado diretor de suspense. Depois de mais de 200 páginas ressaltando a característica inovadora e corajosa do longa, é dito ao leitor que, hoje, o que Hitchcock fez não causa espanto algum.

Claro que isso não significa que o filme perdeu sua importância dentro da história do cinema, muito pelo contrário. O livro, publicado nos anos 1990 e reeditado agora por conta do filme Hitchcock, feito com base no relato de Rebello, é um documento que atesta o caráter transformador do trabalho de Hitchcock no cinema e sua importância na época. Para quem nunca havia visto Psicose antes, como eu, ler essas páginas foi querer ver o filme com toda a atenção do mundo para perceber os detalhes que o autor destacou no livro – o que realmente acabei fazendo. Continue reading

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Monstros fora do armário, de Flavio Torres

Dentro de si, o homem guarda impulsos sombrios. Por fora, a imagem é de uma pessoa normal, incapaz de pensar em alguma atrocidade contra outro ser humano, ainda mais de praticá-lo. Mas por mais direito, ético e bem apessoado que alguém possa parecer, a verdade é que todos guardam em seu íntimo algo nebuloso, um desejo maléfico ou vontade de, em alguns momentos, praticar em alguém algo dolorido como castigo ou escape. São momentos assim os narrados nos breves contos de Flavio Torres em seu primeiro livro, lançado pela Não Editora, Monstros fora do armário.

Nascido em Niterói, mas criado em Porto Alegre, o currículo de Flavio como ficcionista é parecido com o de vários outros autores publicados por essas bandas: participação na oficina de Luiz Antonio de Assis Brasil – provavelmente uma das oficinas de criação literária mais famosas do país – e também dos seminários de criação literária de Léa Masina. Ou seja, exercício criativo não lhe faltou. Continue reading

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Pulso, de Julian Barnes

A literatura conserva os traços de todas as culturas. No Brasil, temos diferentes tradições que as da Europa – muitas vezes, tradições que se destoam dentro do próprio país. Quem lê os Contos gauchescos de Simões Lopes Neto, por exemplo, nota que aquele livro, aquelas histórias, pertencem unicamente ao Rio Grande do Sul. Quem lê As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, e A leste do Éden, de John Steinbeck, vê-se inconfundivelmente envolvido numa história do sul dos Estados Unidos em diferentes épocas. Já Pulso, livro de contos de Julian Barnes recém-publicado no Brasil, é tipicamente inglês.

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Putas assassinas, de Roberto Bolaño

Quando uma personagem rende muito mais história do que pode caber em um romance, ou ela se repete em demais livros, continuações de sua trama, ou acaba sendo fragmentada em pequenas doses de ficção transformadas em conto. É o que poderia ser dito sobre Arturo Belano, protagonista de Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño – uma das suas personagens mais famosas e também seu alter ego  No romance de Bolaño, conhecemos Arturo através de personagens secundárias, aquelas que viveram perto dele por um bom período ou estiveram lado a lado por um breve momento. Em Putas assassinas, sua presença é constante em alguns dos contos narrados em primeira ou terceira pessoa, mas dessa vez com o ponto de vista centrado nele.

Digo que sua presença é constante, mas ele aparece identificado como Aruturo Belano em apenas um conto, “Fotos”, em que está em uma aldeia abandonada da África e observa um grande livro com poemas publicados em francês nos anos 1970, reunidos em um volume único. Alguns poetas ele conhece, outros não, porém não são os poemas que lhe prendem, e sim as fotografias dos autores que analisa, observa e imagina nas mais diversas situações. Nos demais contos, envoltos em sua maioria pela anonimidade, podemos apenas adivinhar, ou imaginar, que os protagonistas possam ser ele juntando o que se sabe do personagem pelos outros livros em que figura. Continue reading

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Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos

Crianças podem ter sacadas geniais sobre algumas coisas da vida. Por conhecerem pouco do mundo e terem uma visão limitada dele, tudo parece mais simples e descomplicado nas suas cabeças. As explicações inocentes que, quando criança, damos para as coisas mais esquisitas e as associações que fazemos são a grande parte da graça da infância. Para uma criança como Tochtli, então, isso é ainda mais visível. Seu desconhecimento do mundo é um tempero a mais na sua imaginação trágica, mas cômica, que alimenta suas vontades em Festa no covil.

Tochtli tem 10 anos de idade e é filho de Yolcault, um chefão do tráfico mexicano. Vive junto com ele em um castelo, como diz, e conhece, no máximo, umas 14 ou 15 pessoas. Porém, mantém contato com um número menor que esse: algumas empregadas, dois ou três capangas de seu pai e Mazatzin, seu tutor que lhe ensina o que ele deveria estar aprendendo numa escola com outras crianças. Ele adora chapéus, tem uma enorme coleção de todos os tipos, três deles de detetive, que usa para fazer pequenas investigações pelo seu palácio. Às vezes é atacado por fortes dores de barriga, e seu desejo consumista mais recente é adquirir um hipopótamo anão da Libéria para seu pequeno zoológico. Continue reading

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a máquina de fazer espanhóis, de valter hugo mãe

antónio jorge da silva tem 84 anos de idade quando sua mulher, laura, morre. A morte não era esperada, apesar da idade avançada, e para aumentar ainda mais tristeza da situação, silva pensava – ou assim desejava – não precisar ter que viver um dia sequer sem a esposa depois de passarem juntos 48 anos, terem dois filhos, terem sobrevivido tranquilamente os dias em que Portugal vivia sob a ditadura salazariana e chegado aos tempos atuais sem maiores problemas. A perda foi dolorosa, sentida com muita indignação, e em meio a essa melancolia toda o velho silva é internado em um lar de idosos em Portugal. Coloco-os aqui assim, em minúsculas, pois é como valter hugo mãe o faz em a máquina de fazer espanhóis, romance publicado no Brasil em 2011 pela Cosac Naify.

Esse foi o livro que causou tanto alvoroço em volta do autor quando ele esteve na Flip de 2011 e conquistou a todos com sua fala na mesa dividida com a escritora Pola Oloixarac. O escritor apresentou visível emoção por estar no Brasil como convidado para falar exclusivamente sobre sua obra. valter hugo mãe (que hoje já abandonou as minúsculas tanto na assinatura quanto nos romances mais recentes), nasceu em Angola, mas radicou-se em Portugal, onde atualmente vive, e se lá em 2011 ele era um autor desconhecido para muitos, hoje não há quem não saiba quem é e como escreve. Continue reading

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Ficção de polpa – Aventura!

Há uma predisposição dos adultos, parece, de rechaçar o que é desconhecido e fantasioso. Todos devemos ter o pé no chão, conhecer tudo, e se possível não se maravilhar ou se entreter com algo que não seja ligado aos tormentos da mente e da sua existência no mundo. A fantasia, a ficção científica e a aventura guardam, ainda, aquele estigma de produto planejado unicamente para distrair crianças e adolescentes ociosos durante as férias. Mas quando essa geração de crianças cresce, a visão desse tipo de literatura – ou cinema, ou jogos – passa por mudanças e ganha ares não só de fantasia, mas também de papel fundamental na formação de leitores. O escape da realidade que esse gênero promove na infância e adolescência se mostra válido e necessário na vida adulta.

Aí está um motivo para embarcar nas seis aventuras organizadas por Samir Machado de Machado e publicadas pela Não Editora no quinto volume do Ficção de Polpa, dessa vez com o subtítulo de Aventura!. Publicação voltada para a literatura de gênero que imita, tanto no conteúdo quanto na parte gráfica, as antigas revistinhas pulp, o Ficção de polpa já trouxe aos leitores histórias de ficção científica, horror, crimes, e agora o foco está nas aventuras que vêm acompanhadas de mapas e desbravamento de lugares desconhecidos. Com menos textos que os volumes anteriores, o espaço para os autores desenvolverem seus contos é maior, e entre as histórias suas personagens conhecem mundos secretos, desbravam novas terras e tentam sobreviver a ambientes hostis. O livro ainda traz a tradicional “faixa bônus”, o conto “O Aranha: uma aventura amazônica”, do norte-americano Arthur O. Friel. Continue reading

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O escolhido foi você, de Miranda July

A procrastinação é o mal daquele que conhece o valor da internet e seu vasto conteúdo. Todos procrastinam o trabalho, a aula, os exercícios físicos e até a vida social, e uma grande incentivadora disso é a internet. Todos procuram por uma cura, mas não encontram porque ficaram tempo demais… procrastinando. Miranda July criou um sistema para burlar o gasto de tempo com coisas inúteis que adiam as tarefas importantes, um vídeo que volta e meia retorna às timelines do Twitter e Facebook pela genialidade de seu método – que é uma cena deletada de seu último filme, The future. Na verdade, por ser uma grande procrastinadora – ou seja, usuária da internet, smartphones e todas as suas possibilidades –, está sempre à procura de maneiras para evitar o adiamento das ações, e um deles foi transformar a sua distração em algo produtivo. O resultado disso foi o livro O escolhido foi você.

Enquanto escrevia o roteiro de The future, Miranda se viu em meio a uma crise de bloqueio criativo. Para tentar encontrar alguma inspiração ou apenas para fazer o tempo passar, começou a ler avidamente as edições do PennySaver, um classificado gratuito entregue em Los Angeles pelos correios todas as terças-feiras. O jornalzinho continha anúncios de tudo: gente querendo vender de eletrodomésticos a objetos inúteis, de animais a roupas. E foi aí que Miranda teve seu estalinho criativo que a levou a transformar essa leitura em algo útil: ligar para os anunciantes mais estranhos, marcar um encontro e entrevistá-los sobre as suas vidas. Continue reading

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