Resenhas

As cavernas de aço, de Isaac Asimov

as-cavernas-de-acoAs três leis da robótica dizem que: 1 – “Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano venha a ser ferido”; 2 – “Um robô deve obedecer as ordens dadas por seres  humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei”; 3 – “Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou com a Segunda Lei”. Essas leis são fundamentais para a construção e convivência pacífica entre robôs e humanos, e são as primeiras coisas “instaladas” em seus “cérebros”. Mas a ameaça dos robôs vai além dessas três leis para os personagens de As cavernas de aço, o primeiro romance que trata do universo da robótica escrito por Isaac Asimov.

Como o próprio texto introdutório de Asimov publicado nesta edição lançada no ano passado pela Aleph explica, o autor já havia colocado os robôs como centro de seus contos, publicados em revistas especializadas em ficção científica a partir dos anos 1940. Apesar de já ter escrito romances, As cavernas de aço foi o primeiro texto longo com os homens de lata e cérebros artificiais. Na história, Elijah “Lije” Baley, um investigador da polícia de Nova York, é colocado para trabalhar num caso de assassinato ocorrido na Vila Sideral – local onde moram os Siderais, um povo dos mundos exteriores pouco apreciado pelos humanos. O homem morto é um famoso cientista que projeta robôs, e o caso é mantido às escondidas pelo fato de ser impossível um humano entrar, cometer um crime e sair sem ser visto da Vila – o que pode abalar muitas relações diplomáticas com os outros mundos. Continue reading

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O pintassilgo, de Donna Tartt

o-pintassilgoTheo Decker tem 13 anos quando sobrevive a um atentado terrorista em um museu de Nova York. Mas o trauma maior não é a explosão que presenciou em si, e sim a perda da mãe neste mesmo atentado. A mãe era encantadora e insubstituível para o garoto, que vivia há um ano sem o pai alcóolatra e cheio de dívidas que os abandonou. Theo nunca irá se recuperar dessa falta da mãe, e cada lembrança sobre seus últimos passos, os últimos lugares em que foram juntos, guarda uma porção de dor e saudade.

É óbvio dizer que a vida de Theo muda completamente depois dessa tragédia aleatória – por que, de tantos lugares em NY, eles estavam justamente lá, no meio da explosão? O que aconteceu nas galerias daquele museu define o que o garoto será na vida adulta. Na busca pela saída entre os escombros, Theo encontra o agonizante Welty, um senhor para quem ele faz companhia até o momento da morte e que lhe aponta um quadro na parede, justamente aquele que fez sua mãe adiar um compromisso para estar no museu: “O pintassilgo”, do mestre holandês Carel Fabritius. Theo, sem ter real consciência do que está fazendo, leva a pintura para fora do museu, e sua vida passa a estar diretamente relacionada a ela pelo resto de sua vida. Continue reading

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Como ficar podre de rico na Ásia emergente, de Mohsin Hamid

como-ficar-podre-de-rico-na-asia-emergentePara Mohsin Hamid, a literatura é um tipo de autoajuda. Nas entrevistas que concedeu aqui no Brasil e durante sua mesa na Flip 2014, era isso o que ele dizia quando perguntado sobre o motivo de ter escrito um romance com a linguagem dos livros de autoajuda. Tudo começou com uma brincadeira, disse ele, até que pensou: peraí, mas por que lemos? Não é para nos encontrarmos dentro dos livros, ou então escaparmos da nossa realidade? É uma boa maneira de enxergar a literatura e os livros. Que, mesmo que não estejamos lendo pequenas pílulas de inspiração e conselhos provindos da sabedoria popular, filosófica ou macrobiótica (vai saber), nosso impulso inicial ao escolher uma leitura é o entretenimento e o conhecimento que podemos adquirir através dela. Logo, a literatura tem um papel, sim, de nos ajudar – mas não em todos os casos, claro.

Tudo isso só para dizer que Como ficar podre de rico na Ásia emergente é um livro de “autoajuda”. Escrito como um desses livrinhos famosos que enumeram passos para uma vida plena e de riquezas, ele conta a sua história. Você é o filho caçula de uma família que vive numa aldeia de algum grande país da Ásia. Você está tremendo de febre no chão, na sua cabana, e sua mãe e seu pai não podem fazer muito para te ajudar. Você já perdeu irmãos para a doença. Mas você sobreviverá, sua família vai sair do interior e fixar residência em uma das cidades mais populosas do mundo, você vai trabalhar numa locadora de DVD como entregador e vai conhecer a menina bonita, uma garota que mora próximo à sua casa e com quem você sonha um dia ter coragem para puxar papo. Mas seu maior desejo é ficar rico. E você vai começar do nada o seu “império”, primeiro vendendo comida vencida barata, e depois água engarrafada. Continue reading

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Enquanto Deus não está olhando, de Débora Ferraz

enquanto-deus-nao-esta-olhandoEnquanto Deus não está olhando, o mundo inteiro pode mudar e você nem perceber. É o que o pai de Érica diz, internado no hospital, debilitado pelos anos de alcoolismo. A frase, em si, demora para aparecer no romance de Débora Ferraz, vencedor do Prêmio SESC de Literatura de 2014. Na verdade, a palavra (ou nome) “Deus” é pouco citada durante toda a narrativa de mais de 360 páginas, mas ainda assim é o que dá título ao livro. Enquanto Deus não está olhando é sobre mudanças, e sobre como lidar com elas.

Érica Valentim é a narradora, uma jovem pintora de 20 e poucos anos. Ela está perdida, em busca de um pai que sumiu: um pai alcóolico, que não a compreende e nem aprova sua escolha profissional, mas que mesmo assim é amado e procurado pela filha. Na busca, ela é acompanhada, ou melhor, amparada, por Vinícius, um velho amigo com quem não mantinha contato há cinco anos. No desespero, ela liga para ele, e ele a ajuda. Eles têm uma história mal resolvida, e o retorno do contato é permeado pela tensão desses anos sem se falar. Enquanto procura o pai, Érica evita pisar na garagem recém transformada em ateliê, uma reforma caseira que seu pai com certeza não aprovaria. Mas ela nem teve chance de contar a novidade a ele, pois antes disso ele sumiu de sua vida. Só não da maneira como as primeiras páginas do romance dão a entender.

Leia a resenha completa no Posfácio.

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Dez de dezembro, de George Saunders

dez-de-dezembroÉ difícil falar sobre contos e blábláblá. A leitura é mais leve, mas ao mesmo tempo profunda e blábláblá. Resenhar um livro de contos é complicado porque ou você fala de cada texto, ou faz um comentário que consiga abranger todos os contos em uma coisa só e blábláblá. Não sei quantas vezes já comecei a falar sobre um livro com essas frases, mas a sensação, terminada a leitura, é essa: como explicar que os textos de tal autor são ótimos e como resumir a sensação da leitura como um todo? Isso só acontece, claro, com os bons livros, como foi o caso de Dez de dezembro, de George Saunders.

Não sei se é uma questão cultural, mas minha experiência com contos (que não é lá muita) diz que autores estrangeiros tendem a escrever narrativas mais longas, que abrangem 10, 20, 30, até mais de 60 páginas para uma única história (levantando a discussão de “mas isso é um conto ou uma novela?”), enquanto os escritores nacionais tendem a rechear seus livros com até 50 contos curtos, de três ou quatro páginas cada um – pelo menos foi assim com várias estreias literárias de autores daqui que caíram nas minhas mãos. (Ok, eu sei que alguns brasileiros mandam muito bem em contos mais longos, como os de Pó de parede, da Carol Bensimon, e alguns textos do Antônio Xerxenesky em A página assombrada por fantasmas.) Bem, tendo a gostar mais dos contos maiores, talvez justamente por terem a extensão necessária para me fazer absorver a história com mais detalhes (o que não é uma regra inquebrável, só para deixar claro). Os textos de Saunders são assim.  Continue reading

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Aleatoriedades Literárias

Alguns livros

Com a mudança para São Paulo, o trabalho, a vida social (que agora posso considerar ter agora), e eu estar dando muito mais atenção para a televisão (tenho que justificar os R$ 150,00 da NET que venho pagando), não encontro muito tempo para escrever mais resenhas – até o número de livros lidos diminuiu consideravelmente. Mas calma, não estou desistindo do trabalho, só estou mais preguiçosa mesmo. Por isso, vou falar rapidinho de algumas leituras que fiz durante o ano até agora que não ganharam uma resenha própria por “n” motivos – como não saber como falar deles sem uma segunda leitura, ou achar que o texto ficaria muito ruim e preferir nem começar. Então aí vai: Continue reading

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Diga o nome dela, de Francisco Goldman

diga-o-nome-delaNo dia 25 de julho de 2007 (dia do meu aniversário, aliás, quando eu estava prestes a me mudar para o Rio Grande do Sul), a escritora mexicana Aura Estrada estava se banhando na praia de Mazunte com seu marido, o escritor Francisco Goldman. Quando tentou pegar um jacaré em uma onda, Aura foi arrastada pela força da água, bateu com a cabeça em um banco de areia e perdeu a sensibilidade dos braços e das pernas. Horas depois, ela morreria em um hospital na Cidade do México. Aura deixou para trás sua mãe, Juanita, seus amigos do México e de Nova York e seu marido que, além de lidar com a perda da mulher que mais amou na vida, também era acusado injustamente pela mãe da esposa de ter culpa em sua morte.

Morte, luto e amor podem ser ingredientes para uma história dramática e melosa, mas Diga o nome dela está longe disso – apesar de sugerir tais exageros que tendemos a ver como característicos das novelas mexicanas em alguns trechos. Sensível é a palavra certa para descrever esse livro. Goldman junta nele cada detalhe, objeto, lembrança e textos inacabados de Aura para narrar seu amor por ela, sua dor pela perda dela e a superação dessa dor – não queria usar a palavra “superação” aqui, mas não consegui pensar em outra que fosse descrever melhor a jornada do livro. Continue reading

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NW, de Zadie Smith

nwTenho uma predileção por livros em que, aparentemente, nada acontece. São só personagens andando para lá ou para cá, às vezes nem isso. Um livro pode se passar inteiramente em uma sala, em um sofá, em uma cama – como a história da literatura já mostrou várias vezes –, só se alimentando do caos da mente humana. Quem fica muito tempo parado reconhece isso. Não é fácil lidar com os próprios pensamentos, às vezes. A sensação de que “nada acontece” é só isso, uma sensação. A verdade é que tudo acontece, de forma desordenada e sem sentido. NW, o último romance de Zadie Smith, passa essa sensação em vários momentos. Suas personagens quase não ultrapassam os limites do bairro de Kilburn, na região North West de Londres (daí o título, NW), e suas vidas se cruzam a todo o instante, mas de uma forma tão corriqueira, usual, que não parece que algo realmente vai acontecer.

Neste livro Zadie Smith concentra a narrativa em quatro personagens: Leah Hanwell, Natalie Blake, Felix Cooper e Nathan Bogle. Mas podemos dizer mesmo que as principais são Leah e Natalie, melhores amigas desde a infância, em quem Zadie concentra a maior parte do livro. Nathan cresceu no mesmo conjunto habitacional e estudou na mesma escola que as duas, e Leah sentia um queda por ele quando tinha 10 anos de idade. E Felix é só mais um morador da região que cruza com os três de maneiras distintas. Apesar de terem crescido no mesmo lugar, os quatro construíram vidas muito diferentes, e é isso o que todo o romance mostra: pessoas destoantes se cruzando em algum momento, passando pelo mesmo desafio de sobreviver em uma cidade que às vezes parece acolhedora, outras vezes estranha, construindo suas identidades ou tentando escapar delas.

Leia a resenha completa no Posfácio.

 

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Serena, de Ian McEwan

serenaEra pouco mais de meio-dia do dia 7 de julho de 2012 quando Ian McEwan revelou para uma Tenda dos Autores lotada – e para quem assistia de fora – o final de seu novo romance, lançado mundialmente no Brasil durante a Flip. O segredo de Serena pertencia agora à todos, não só àqueles que já tinham dado conta do livro. Se o próprio autor de uma obra faz isso – entrega de mão beijada, durante um bate-papo, o final de uma história surpreendente –, quem sou eu para reclamar. Mas tudo não poderia passar de mais uma estratégia de manipulação de McEwan com o público, agora podendo ver ele fazer isso ao vivo, cara a cara, e não só através dos livros. Afinal, neste mesmo lugar, ele diria – ou já tinha dito, não lembro direito – que “manipular o leitor é o meu maior prazer”.

Serena é inteiramente um jogo de manipulação. O leitor é levado a pensar uma coisa durante o decorrer da leitura, enquanto o que acontece na verdade é outra. É de se esperar isso de um romance ambientado na Inglaterra do início dos anos 1970, protagonizada por uma funcionária do serviço de inteligência britânico, o MI5. Agentes, espiões, documentos secretos e disfarces, essas coisas todas dos filmes do 007 – mas sem armas, basicamente. Serena Frome é uma jovem de vinte e poucos anos recém formada em matemática pela universidade de Cambridge. Do seu envolvimento com o ex-orientador de um ex-namorado, um professor mais velho, ela acaba conseguindo uma entrevista com o MI5. O professor sumiu da sua vida, mas o emprego foi conquistado, em uma função burocrática e chata que não interessou muito a ela logo no começo. Continue reading

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Garota exemplar, de Gillian Flynn

garota-exemplarGarota exemplar deve ter sido um dos lançamentos estrangeiros mais comentados do ano passado – e um dos com o maior número de leitores evitando spoilers por aí. Acabei adiando a leitura até saber que estava sendo adaptado para o cinema com direção do David Fincher – com estreia prevista para outubro. Queria ler até lá.

Não vou dizer que os spoilers estragaram a experiência da leitura – nunca estragam, insisto que essa é a maior frescura da internet –, mas quando passei para a segunda parte do livro, percebi que sabia bem pouco sobre ele – quem procura acha. Garota exemplar é uma espécie de thriller de investigação com um romance doentio e a dúvida constante sobre quem é o mocinho e quem é o vilão da história. Amy Elliot Dunne some de casa no dia do aniversário de cinco anos de seu casamento com Nick Dunne. O sumiço da mulher já começa envolto em várias dúvidas: Nick não tem um bom álibi para a hora em que Amy desapareceu, e sua reação ao desaparecimento deixa a polícia desconfiada. É um caso típico em que a culpa sempre recai sobre o marido, e claro que ele é o principal suspeito. Continue reading

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