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Dez de dezembro, de George Saunders

dez-de-dezembroÉ difícil falar sobre contos e blábláblá. A leitura é mais leve, mas ao mesmo tempo profunda e blábláblá. Resenhar um livro de contos é complicado porque ou você fala de cada texto, ou faz um comentário que consiga abranger todos os contos em uma coisa só e blábláblá. Não sei quantas vezes já comecei a falar sobre um livro com essas frases, mas a sensação, terminada a leitura, é essa: como explicar que os textos de tal autor são ótimos e como resumir a sensação da leitura como um todo? Isso só acontece, claro, com os bons livros, como foi o caso de Dez de dezembro, de George Saunders.

Não sei se é uma questão cultural, mas minha experiência com contos (que não é lá muita) diz que autores estrangeiros tendem a escrever narrativas mais longas, que abrangem 10, 20, 30, até mais de 60 páginas para uma única história (levantando a discussão de “mas isso é um conto ou uma novela?”), enquanto os escritores nacionais tendem a rechear seus livros com até 50 contos curtos, de três ou quatro páginas cada um – pelo menos foi assim com várias estreias literárias de autores daqui que caíram nas minhas mãos. (Ok, eu sei que alguns brasileiros mandam muito bem em contos mais longos, como os de Pó de parede, da Carol Bensimon, e alguns textos do Antônio Xerxenesky em A página assombrada por fantasmas.) Bem, tendo a gostar mais dos contos maiores, talvez justamente por terem a extensão necessária para me fazer absorver a história com mais detalhes (o que não é uma regra inquebrável, só para deixar claro). Os textos de Saunders são assim.  Continue reading

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Aleatoriedades Literárias

Alguns livros

Com a mudança para São Paulo, o trabalho, a vida social (que agora posso considerar ter agora), e eu estar dando muito mais atenção para a televisão (tenho que justificar os R$ 150,00 da NET que venho pagando), não encontro muito tempo para escrever mais resenhas – até o número de livros lidos diminuiu consideravelmente. Mas calma, não estou desistindo do trabalho, só estou mais preguiçosa mesmo. Por isso, vou falar rapidinho de algumas leituras que fiz durante o ano até agora que não ganharam uma resenha própria por “n” motivos – como não saber como falar deles sem uma segunda leitura, ou achar que o texto ficaria muito ruim e preferir nem começar. Então aí vai: Continue reading

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Diga o nome dela, de Francisco Goldman

diga-o-nome-delaNo dia 25 de julho de 2007 (dia do meu aniversário, aliás, quando eu estava prestes a me mudar para o Rio Grande do Sul), a escritora mexicana Aura Estrada estava se banhando na praia de Mazunte com seu marido, o escritor Francisco Goldman. Quando tentou pegar um jacaré em uma onda, Aura foi arrastada pela força da água, bateu com a cabeça em um banco de areia e perdeu a sensibilidade dos braços e das pernas. Horas depois, ela morreria em um hospital na Cidade do México. Aura deixou para trás sua mãe, Juanita, seus amigos do México e de Nova York e seu marido que, além de lidar com a perda da mulher que mais amou na vida, também era acusado injustamente pela mãe da esposa de ter culpa em sua morte.

Morte, luto e amor podem ser ingredientes para uma história dramática e melosa, mas Diga o nome dela está longe disso – apesar de sugerir tais exageros que tendemos a ver como característicos das novelas mexicanas em alguns trechos. Sensível é a palavra certa para descrever esse livro. Goldman junta nele cada detalhe, objeto, lembrança e textos inacabados de Aura para narrar seu amor por ela, sua dor pela perda dela e a superação dessa dor – não queria usar a palavra “superação” aqui, mas não consegui pensar em outra que fosse descrever melhor a jornada do livro. Continue reading

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NW, de Zadie Smith

nwTenho uma predileção por livros em que, aparentemente, nada acontece. São só personagens andando para lá ou para cá, às vezes nem isso. Um livro pode se passar inteiramente em uma sala, em um sofá, em uma cama – como a história da literatura já mostrou várias vezes –, só se alimentando do caos da mente humana. Quem fica muito tempo parado reconhece isso. Não é fácil lidar com os próprios pensamentos, às vezes. A sensação de que “nada acontece” é só isso, uma sensação. A verdade é que tudo acontece, de forma desordenada e sem sentido. NW, o último romance de Zadie Smith, passa essa sensação em vários momentos. Suas personagens quase não ultrapassam os limites do bairro de Kilburn, na região North West de Londres (daí o título, NW), e suas vidas se cruzam a todo o instante, mas de uma forma tão corriqueira, usual, que não parece que algo realmente vai acontecer.

Neste livro Zadie Smith concentra a narrativa em quatro personagens: Leah Hanwell, Natalie Blake, Felix Cooper e Nathan Bogle. Mas podemos dizer mesmo que as principais são Leah e Natalie, melhores amigas desde a infância, em quem Zadie concentra a maior parte do livro. Nathan cresceu no mesmo conjunto habitacional e estudou na mesma escola que as duas, e Leah sentia um queda por ele quando tinha 10 anos de idade. E Felix é só mais um morador da região que cruza com os três de maneiras distintas. Apesar de terem crescido no mesmo lugar, os quatro construíram vidas muito diferentes, e é isso o que todo o romance mostra: pessoas destoantes se cruzando em algum momento, passando pelo mesmo desafio de sobreviver em uma cidade que às vezes parece acolhedora, outras vezes estranha, construindo suas identidades ou tentando escapar delas.

Leia a resenha completa no Posfácio.

 

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Serena, de Ian McEwan

serenaEra pouco mais de meio-dia do dia 7 de julho de 2012 quando Ian McEwan revelou para uma Tenda dos Autores lotada – e para quem assistia de fora – o final de seu novo romance, lançado mundialmente no Brasil durante a Flip. O segredo de Serena pertencia agora à todos, não só àqueles que já tinham dado conta do livro. Se o próprio autor de uma obra faz isso – entrega de mão beijada, durante um bate-papo, o final de uma história surpreendente –, quem sou eu para reclamar. Mas tudo não poderia passar de mais uma estratégia de manipulação de McEwan com o público, agora podendo ver ele fazer isso ao vivo, cara a cara, e não só através dos livros. Afinal, neste mesmo lugar, ele diria – ou já tinha dito, não lembro direito – que “manipular o leitor é o meu maior prazer”.

Serena é inteiramente um jogo de manipulação. O leitor é levado a pensar uma coisa durante o decorrer da leitura, enquanto o que acontece na verdade é outra. É de se esperar isso de um romance ambientado na Inglaterra do início dos anos 1970, protagonizada por uma funcionária do serviço de inteligência britânico, o MI5. Agentes, espiões, documentos secretos e disfarces, essas coisas todas dos filmes do 007 – mas sem armas, basicamente. Serena Frome é uma jovem de vinte e poucos anos recém formada em matemática pela universidade de Cambridge. Do seu envolvimento com o ex-orientador de um ex-namorado, um professor mais velho, ela acaba conseguindo uma entrevista com o MI5. O professor sumiu da sua vida, mas o emprego foi conquistado, em uma função burocrática e chata que não interessou muito a ela logo no começo. Continue reading

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Garota exemplar, de Gillian Flynn

garota-exemplarGarota exemplar deve ter sido um dos lançamentos estrangeiros mais comentados do ano passado – e um dos com o maior número de leitores evitando spoilers por aí. Acabei adiando a leitura até saber que estava sendo adaptado para o cinema com direção do David Fincher – com estreia prevista para outubro. Queria ler até lá.

Não vou dizer que os spoilers estragaram a experiência da leitura – nunca estragam, insisto que essa é a maior frescura da internet –, mas quando passei para a segunda parte do livro, percebi que sabia bem pouco sobre ele – quem procura acha. Garota exemplar é uma espécie de thriller de investigação com um romance doentio e a dúvida constante sobre quem é o mocinho e quem é o vilão da história. Amy Elliot Dunne some de casa no dia do aniversário de cinco anos de seu casamento com Nick Dunne. O sumiço da mulher já começa envolto em várias dúvidas: Nick não tem um bom álibi para a hora em que Amy desapareceu, e sua reação ao desaparecimento deixa a polícia desconfiada. É um caso típico em que a culpa sempre recai sobre o marido, e claro que ele é o principal suspeito. Continue reading

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Ritos de passagem, de Fábio Kabral

ritos-de-passagemNumumba, Nolom, Kinemara e Gulungo são quatro adolescentes que vivem em um lugar inspirado na África, em uma época em que o mundo ainda era cheio de criaturas fantásticas e magia. A vida deles não é nada simples, como as provações que estão vindo pela frente vão lhes mostrar.

Numumba e Nolom, dois amigos de uma aldeia aos pés da Munda Central, são enxotados a toda hora pela comunidade. Numumba é filho do soldado mais fraco, seu trabalho é levar comida para os outros soldados, e gasta o resto do tempo sonhando ser um herói que destrói criaturas malignas que assombram a região. Nolom é escravo de um senhor gordo e sonolento, que tem a audácia de desejar ser, um dia, um grande contador de histórias e sábio. Kinemara é uma princesa, a mais mirrada e amedrontada da linhagem Kalumba, filhas da Primeira Mulher, e está temerosa com o seu futuro, em que terá de lutar contra suas próprias irmãs. E Gulungo é um escravo da cidade de Kinemara, um garoto que à princípio não deveria nem ter nome, quanto mais ser notado pelos outros – ou pela princesa.

Leia a resenha completa no Posfácio.

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Olhe para mim, de Jennifer Egan

olhe-para-mimFui daquelas leitoras que ficou entusiasmada com A visita cruel do tempo, que tratou de ler o romance premiado de Jennifer Egan assim que ele chegou ao Brasil, e que considerou o livro uma das melhores leituras daquele ano. Sim, ele é ótimo, e aquele capítulo todo em slides de powerpoint foi uma bela sacada. Não consigo lembrar de alguma parte do livro que eu não tenha gostado. Jennifer Egan conseguiu me fazer ficar atenta a cada um de seus inúmeros personagens, e eu esperaria em seus próximos livros encontrar esse mesmo talento. Apesar de ter O torreão autografado aqui do meu lado, ainda não parei para ler seu segundo livro publicado em português. Mas uma das minhas últimas leituras foi o terceiro livro a chegar por aqui, lançado originalmente em 2001, pouco antes dos atentados do 11/9: Olhe para mim.

Neste livro já é possível notar algumas características presentes em A visita cruel do tempo: a narrativa é construída através de vários pontos de vista – mais focado em quatro personagens – com leves mudanças no estilo. A protagonista é Charlotte Swenson, uma modelo de 35 anos (mas diz ter 28) que vê sua carreira decair cada vez mais. Ela conta sua história em primeira pessoa a partir de um acidente de carro que mudou drasticamente a sua vida: ao visitar sua cidade natal, Rockford, ela perde o controle do veículo e o impacto do acidente quebra os ossos de seu rosto. Sua face foi totalmente reconstruída, deixando-a ainda bonita, porém completamente diferente do que era antes. Nem seu agente de Nova York é capaz de reconhecê-la mais, muito menos seus colegas de profissão ou pessoas que antes eram conhecidas, mas não passavam de interesseiros de olho no prestígio de modelo que Charlotte um dia teve. Continue reading

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Um, dois e já, de Inés Bortagaray

umdoisejaSou simpática a livros curtos. Com Bonsai, de Alejandro Zambra, foi paixão na primeira leitura. Existe algo na finura do exemplar, no tamanho grande da fonte e nos grandes espaços em branco na página que me atraem logo para a leitura. Como se um livro breve fosse a melhor representação da frase “o que é bom dura pouco”. Óbvio que essa impressão existe também com os grandes romances – em que 700 páginas são lidas sem mal notar. Mas com o livro curto você sabe que será rápido mesmo, em um, no máximo dois dias (se você se esforçar demais para adiar a leitura), vai terminá-lo. Era isso o que eu pensava logo que comecei Um, dois e já (Cosac Naify, 2014), primeiro livro da uruguaia Inés Bortagaray publicado no Brasil.

Nas 93 páginas do livro, uma menina conta como está sendo a viagem da família de Salto para La Paloma, no litoral do Uruguai. Não sabemos seu nome ou idade, apenas que é a filha do meio: tem uma irmã mais velha, um irmão mais velho e uma irmã caçula. Seus pais estão no banco da frente, as quatro crianças se apertam no banco de trás, revezando os lugares na janela a cada 200 quilômetros de estrada percorrida. Sabemos que eles já viajaram para La Paloma antes, que a história não se passa nos tempos atuais, mas anos atrás, quando o Uruguai ainda estava sob a ditadura, e que seus pais fazem parte do partido oposicionista – em certo momento, a menina lembra de uma passeata contra a censura que foi com os pais e uma amiga filha de um norte-americano. Mas essas coisas são só o pano de fundo em Um, dois e já.

Leia a resenha completa no Amálgama.

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As leis da fronteira, de Javier Cercas

leis_fronteira_CAPA.pdfO verão de 1978 foi atípico para Ignacio Cañas, um jovem catalão da classe média, na cidade de Girona. De um adolescente com uma rotina normal, com amigos da escola e uma família tradicional, ele terminou o ano letivo sendo perseguido por um colega valentão, amedrontado pelos ataques e insultos de seus antigos amigos e travando discussões com o pai. Com 16 anos, a escola não era mais um lugar suportável, sair na rua não era mais divertido, pois a qualquer momento ele poderia topar com seu algoz, e sua casa se tornou um lugar insuportável de ficar. Até que um dia, em um dos fliperamas da cidade, conheceu Zarco e Tere. Jovens que nem ele, praticamente seus vizinhos, mas vindos de um outro lugar, separados de Cañas por um abismo enorme criado pela desigualdade.

Zarco e Tere eram quinquis, gíria catalã para “delinquentes juvenis”, moradores da parte mais pobre da cidade. Nesse dia, no fliperama, convidam Cañas para se juntar a eles em um bar no bairro chinês, conhecido na época por abrigar os traficantes, bandidos e prostitutas de Girona. Qualquer garoto teria declinado o convite e saído correndo amedrontado ao ser “recrutado” para sair com pessoas como Zarco e Tere, mas não Ignacio. Ele já não tinha muito a perder, e o interesse por Tere o convenceu a aparecer no bar depois de alguns dias. E aí a última peça da gangue juvenil mais famosa da Espanha se integra ao grupo, e a história de As leis da fronteira começa.

Leia a resenha completa no Posfácio.

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