r.izze.nhas

Resenhas e aleatoriedades literárias.

Menu Close

Toltchoques horrorshow

256192_4Anthony Burgess é considerado, juntamente com George Orwell (1984) e Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo), um dos mestres da ficção do século XX, devido à grande obra Laranja Mecânica. Narrado por Alex, o livro mostra uma Londres “ultra-violenta”, onde os jovens maltratam as pessoas, sejam crianças, adultos ou idosos. A polícia não consegue impor a lei, e consegue ser tão violenta quanto as gangues de adolescentes que tentam combater. Alex é líder de uma dessas gangues e, ao ser preso depois de matar uma velha senhora, passa por um tratamento pesado de recuperação, que pretende tirar dele toda a vontade de praticar atos imorais.

Esse é um daqueles livros que as pessoas dizem conter relatos fortes. Não sei se essas pessoas lêem pouco jornal ou o que seja, mas tudo é tão igual ao que a gente vê nos noticiários que as cenas agressivas não me chocaram em nada. Violência gratuita, roubo, estupro… Tudo que estamos acostumados a ouvir e, infelizmente, a ver também. Logo, há uma direta identificação com o ambiente retratado na obra, principalmente para os que vivem nas grandes cidades. Talvez os que se chocam nutrem ainda alguma esperança de que isso um dia venha a melhorar, mas confesso que entrei naquele estado em que nada mais me surpreende. Chocamo-nos com as cenas, com os relatos, mas tudo tem aquele gosto de “ah, de novo”.

Mas isso não é nenhum comentário negativo ao livro, “meus irmãos”. É um livro do século XX que fala do futuro, e esse futuro, que parecia distante na narrativa, está se tornando nossa realidade. Gírias incompreensíveis, que apenas são entendidas por aqueles que as falam e convivem com elas. Jovens sem respeito, polícia sem respeito, métodos de recuperação que simplesmente não funcionam. É, realmente, um livro que foi escrito ontem ou, quem sabe, hoje à tarde… E que vai continuar, para pessimistas como eu, atual para sempre.

Dá até um certo receio de falar de uma obra tão bem feita como é Laranja Mecânica. Burgess foi genial ao criar todas aquelas novas palavras e, mesmo assim, tornar a história compreensível, passando do estranhamento inicial à uma familiaridade espantosa que nos leva a usar alguns desses termos fora do livro. É o que vemos acontecer com nossa linguagem. Por que estranhar um livro com palavras novas se em cada grupo diferente de pessoas também há termos cujo significado desconhecemos? Não são apenas os atos que fazem com que o livro se mostre como uma previsão dos anos seguintes, mas a sua própria forma de contar esse futuro. actkubrickclockwork

Torcemos por Alex, julgamos seus atos como monstruosos, mas mesmo assim simpatizamos com ele. Alex, fora a violência, é um adolescente civilizado se formos compará-lo com seus colegas de cela. Educado, amante da cultura, bem articulado. Um “mano da comunidade” (não é preconceito, por favor), o chamaria de playboizinho. Mas no fundo invejaria toda essa rebusques de Alex. A classe média nunca iria pensar que um garoto jovem com uma fala como a dele seria capaz de tais atrocidades. A aparência que Burgess deu a Alex faz com que ele seja “simpático” para nós.

O livro levanta a seguinte reflexão: para onde estamos caminhando, no que consistirá a nossa sociedade? Vemos Alex se recuperar de seus impulsos violentos, e sentimos pena dele por ver que nunca mais conseguirá se inserir nos grupos e viver como uma pessoa “normal”. Afinal, adianta fazer uma lavagem cerebral em um bandido se ele não vai ser aceito pelo resto das pessoas? Por mais que ele tenha se curado, sempre prevalece o raciocínio de que “pau que nasce torto nunca se endireita”.

Devo considerar Laranja Mecânica leitura obrigatória. Mas obrigar é errado, não é? Se tornaria algo penoso principalmente por causa do dialeto criado por Burgess. Mas não posso deixar de fazer um apelo. Quem não leu, por favor, leia. No final, perceberá que valeu a pena.