vernonVernon God Little, primeiro romance de DBC Pierre, vencedor do Booker Prize de 2003, é “Uma comédia na presença da morte”. O subtítulo, como disse o autor em entrevistas, marca o encontro da comédia com a tragédia. Pois é assim que Vernon é: engraçado nas divagações e trágico nos acontecimentos narrados pelo cômico e desgraçado protagonista.

Vernon Gregory Little é um garoto prestes a completar 16 anos que se vê numa enrascada. Seu melhor amigo, Jesus Navarro, atirou nos colegas e professores da escola, vitimando várias pessoas, e seguidamente se suicidou. O massacre abalou toda a cidade fictícia de Martirio, no Texas. E onde Vernon está no meio disso tudo? Ele é suspeito de ser cúmplice de Jesus, e é perseguido não só pela polícia, mas principalmente por Eulálio Ledesma, um mecânico de câmeras com aspirações a jornalista. Vernon Acusado Little.

Ledesma, mais conhecido como Lally, coloca toda a polícia, a cidade e a mídia, contra Vernon. Ele é incapaz de gritar a plenos pulmões que é inocente, bloqueado pelas armadilhas do “repórter”. Tentando entender tudo o que está acontecendo à sua volta, Vernon bola planos para escapar de todo esse mal entendido que seu melhor-amigo morto deixou para trás. Tudo o que deseja é provar para todos que não teve nada a ver com o assassinato de seus colegas. Vernon Inocente Little.

Vernon é irônico e desbocado. É cansativo no começo ver tantas vezes a palavra “porra” escrita no livro. Porém, logo me acostumei. A tal palavra faz parte do personagem. Caracteriza-o como um típico adolescente caladão com a cabeça à mil. Vernon também não pára incluir sexo nos seus discursos internos. Tudo acaba sendo ligado a roupas e partes íntimas. Contudo, essa é outra característica que parece ter vindo de fábrica. Vernon Pervertido Little.

E por que isso passa a não incomodar mais? Porque por trás dos palavrões, das obscenidades da mente de Vernon, está uma história marcante. Ela é pesada, chocante no que trata do comportamento humano. Mostra como podemos ser manipulados por pessoas ambiciosas de forma simples e rápida. E Vernon é realmente inocente. Não há duvida disso desde a primeira página. E é nisso que o livro frustra, acende um ódio pela humanidade que chega a altos níveis. Como todos podem ser tão cegos quando a verdade está aí, se esfregando na sua cara? Todos parecem ser ingênuos, mas não. O ingênuo na história é Vernon, que sonha com acontecimentos que sabemos ser impossíveis, mas que são sempre cultivados e regados por ele. E em um mundo de pessoas que se dizem sinceras e esclarecidas, como podem se deixar enganar tão facilmente? “Que porra de vida é essa?”

DBC (Dirty, But Clean) Pierre, que na verdade se chama Peter Finlay, tem uma história de vida tão interessante quanto a de Vernon. Aliás, foram suas decepções e dificuldades que o impulsionaram a escrever esse livro. Australiano, criado no México e que atualmente mora na Irlanda, passou por problemas com drogas e não teve sucesso em nenhuma das carreiras que pretendeu seguir (cartunista, cineasta, caçador de tesouros…). Ele então viu na literatura a sua última esperança, e assim como sua criação, foi nesse momento definitivo que conseguiu driblar o tão citado “destino”, e se fez o deus da própria vida. Vernon God Little.

Sem dúvida, esse é mais um livro na minha lista de favoritos e que recomendarei sempre!