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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Meu Nome Não é Johnny, de Guilherme Fiuza

fiuzaAo ler um jornal ou ver um noticiário na TV, sempre nos indignamos quando a notícia se trata de um bandido que não recebeu a pena que merecia. A visão que temos deles são de pessoas preguiçosas, que vivem às custas dos outros e só se aproveitam dos nossos ganhos, roubando ou enganando. Provavelmente, foi esse o sentimento de muitas pessoas em 1995, no Rio de Janeiro, acerca da prisão de João Guilherme Estrella. Porém, se essas pessoas lerem Meu nome não é Johnny, do jornalista Guilherme Fiuza, essa opinião mudará drasticamente.

Guilherme entrou em contato com João com uma proposta: contar a sua história para um jornalista e, dessa história, dar vida a um livro. O ex-traficante aceitou na hora. Assim o nome de João Guilherme voltou a cair na mídia, mas dessa vez falaram bem do “barão da cocaína” da Zona Sul Carioca e acertaram o seu nome. Isso porque ele não é mais barão de coisa alguma. Meu nome não é Johnny faz um relato intenso sobre o início da vida de traficante de João, sua recuperação e sua liberdade. Ele é um anti-herói cuja capacidade de agradar atinge a todos, sendo bandidos, policiais ou as pessoas que devoraram o livro ou viram o filme. Pois, na verdade, João nunca foi bandido. Ele só fez algo ilegal.

Digo isso porque fica claro no livro que ele nunca desejou seguir essa carreira. Foi remando conforme a correnteza, e do papel de usuário de cocaína passou a vendedor em um estalo. A narração clara e objetiva de Fiuza mostra isso com clareza, sem romantizar a infância de João contando “o que ele queria ser quando crescer”. Isso não está no livro, mas certamente João nunca se fez essa pergunta. Ele apenas queria saber de viver e aprontar da forma mais divertida que pudesse.

Eu ainda não cheguei a ver o filme inspirado nesse livro, mas um longa nacional, sobre tráfico de drogas e ambientado em uma prisão tem o histórico de conter uma linguagem nada agradável. Confesso que esperava um glossário de palavras obscenas e gírias em Meu nome não é Johnny, mas me surpreendi com a forma de Fiuza ao mostrar esse assunto na literatura passando, ao mesmo tempo, a sensação de veracidade. Há mais falas de Fiuza, o narrador, do que diálogos das personagens. E essa narração é irônica, sarcástica, e transforma um livro que tem tudo para ser depressivo em uma leitura agradável e engraçada. Muitas das situações pelas quais João Guilherme passa, principalmente na prisão e no manicômio, são mais engraçadas do que qualquer episódio de Casseta & Planeta, sendo que hoje isso não é muito difícil de conseguir.

A única linha seguida por Guilherme na hora de apresentar os fatos é transcrever o início, o meio e o final, mas alternando entre os parágrafos flashbacks de João acerca de algum assunto. Algumas personagens do livro aparecem do nada em uma lembrança, duram duas páginas e somem sem dar mais as caras. Às vezes pode ser confusa essa viagem constante ao passado de João, mas foi um artifício inteligente de Fiuza de mostrar mais da personagem sem precisar de páginas e páginas de rodeios acerca de sua vida. Logo, o leitor se acostuma e se situa na narração sem comprometer o geral da leitura.

Meu nome não é Johnny é um livro que bota por terra a crença de algumas pessoas, como eu, de que bandido sempre será bandido. Guilherme teve todas as chances que podia pedir aos céus para voltar a ser um “barão” depois de ser libertado, mas sua determinação, vinda de dentro da cadeia, só o afastou mais das drogas. Ele é a prova viva de que sim, uma pessoa pode se recuperar. Contudo, não é a cadeia e os tratamentos que vão fazer isso. A vontade tem que partir da pessoa, e o livro ressaltou esse lado de João. No fim, é como se ele nunca tivesse sido bandido, e só resta no livro, filme, e nas suas lembranças os tempos de grande traficante de cocaína do Rio. Livro recomendadíssimo para quem está atrás de uma boa narrativa nacional.