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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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O Nascimento de Vênus, de Sarah Dunant

o-nascimento-de-vênusNo final do século XV, Alessandra Cecchi, de 14 anos, está prestes a sofrer grandes mudanças em sua vida. Apaixonada pela arte, sonha em ser pintora. Desde pequena, mostrou ter uma mente perspicaz e um talento enorme para a erudição, e não para ser uma dona de casa. Vive em meio ao crescimento artístico da Itália Renascentista, e vê sua cidade, Florença, se encher de cores e texturas trazidas pelas artes. Porém, as pregações do Frei Savonarola e a iminente entrada do exército francês na cidade complicam os objetivos da garota. Essa é a base da história contada em O Nascimento de Vênus, de Sarah Dunant.

Nessa época, as mulheres ainda eram subjugadas aos homens, e seu dever era se casar, dar filhos herdeiros ao seu marido e cuidar da casa. Se isso não fosse o desejado, o convento servia como opção. Contudo, a jovem Alessandra não almejava nenhum desses dois destinos. Quando um pintor, trazido pelo seu pai para ilustrar a capela de sua casa, chega à Florença, o instinto artístico só aumenta, e desperta em Alessandra a possibilidade de se aprofundar na pintura. Mas o ele é misterioso, sempre está acuado à sua presença, e suas saídas solitárias à noite levantam suspeitas em Alessandra quanto a uma série de assassinatos que atinge Florença. Se não bastasse isso, a chegada do exército francês a faz se casar às pressas, uma troca feita entre ela e seu marido para que os dois se protejam de Savonarola, que estreita o cerco religioso em Florença.

Parece que Sarah Dunant recebeu o manuscrito com os relatos de Alessandra, como se tivesse passado de mão em mão por herança de família, e que agora resolveu publicá-lo. Quem leu A Esposa Bórgia vai identificar vários aspectos parecidos, sendo que as histórias se passam no mesmo país e época. O que é muito interessante, pois vemos a vida italiana do século XV por outros olhos. Aqui, o centro de tudo é Alessandra, e através dela vemos grandes nomes da história política e artística. Entretanto, esse não é um romance que usa essas personagens históricas para conferir ação à trama. O drama de Alessandra se sustenta sozinho e esses nomes são revelados ocasionalmente, no decorrer da narrativa.

A caracterização das personagens foi feita de tal forma que todos são cativantes, não importa os erros e pecados que elas cometam. Alessandra de início poderia ser considerada mimada e arrogante, mas conforme cresce percebe-se que ela é uma jovem astuta e realmente inteligente, com os defeitos de qualquer humano, mas com um coração incapaz de sentir raiva das tramas de seu marido ou de sua família. E assim é com as outras personagens.

O Nascimento de Vênus é um livro que pode não emocionar no sentido de arrancar lágrimas durante a leitura. Contudo, ele é marcante, seu descortinar não é previsível, a leitura foi uma surpresa a cada página, despertando uma curiosidade que fazia ser difícil fechar o livro. Sarah montou uma história cativante, que entretém e faz refletir. Segundo a autora, a base da narrativa é proveniente de estudos modernos, apresentando no livro fatos que não estão presentes em outras obras do gênero. Uma narrativa que, de forma criativa, apresenta ao leitor os aspectos da sociedade do século XV sem ter que apelar para feitos mirabolantes dos nomes da época, além de ensinar um pouquinho mais sobre a vida desses anos.