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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Londres, O Romance, de Edward Rutherfurd

londres-o-romanceMuitas vezes, um romance histórico tem como tema algum conflito importante ou personalidades aclamadas pelos seus atos. São narrados acontecimentos que marcaram épocas, aqueles que mudaram os rumos da sociedade ou pelo menos de uma parcela dela. Porém, eu nunca vi um livro cujo tema central era uma cidade e o que aconteceu com ela no decorrer dos anos. Pois é disso que se trata o livro Londres, O Romance, do escritor Edward Rutherfurd, que narra os momentos marcantes da capital londrina por dois mil anos.

O livro pode parecer assustador no início pelo seu tamanho. São 1019 páginas, algo que pode não só desencorajar leitores não muito assíduos como cansar os ombros daqueles que se propõem a carregá-lo. Esse tipo de preocupação não é necessária. Londres tem um ritmo leve e agradável de leitura, e seu tamanho só dá credibilidade à proposta de narrar 2000 anos da cidade. Contudo, a história começa muito antes disso, e Rutherfurd apresenta até como foi a formação da ilha Britânica, para depois falar das origens da cidade.

E como ele faz isso? Rutherfurd foi criativo, ao meu ver, no modo de mostrar Londres. De 54 a.C. à 1997 d.C., somos apresentados à várias famílias tradicionais da cidade e seus arredores. Tudo começa com os então não nomeados Ducket, que receberam esse nome por terem uma peculiaridade física: membranas entre os dedos. Conforme os capítulos passam, outras famílias começam a fazer parte do enredo, e todas tem algum tipo de ligação com a outra. Através delas, presenciamos os momentos mais importantes, da conquista romana aos bombardeios alemães na Segunda Guerra Mundial.

As situações no início mudam rapidamente, e é um pouco difícil se manter na linha de qual personagem descende de qual. Aí está uma maior exigência durante a leitura. O mais interessante do romance é que de um capítulo ao outro, a atmosfera da história muda. Alguns capítulos tem um ar mais pesado, com grandes problemas que exigem grandes respostas. Outros são simples e cômicos, um alívio para o leitor que pode se cansar com tantas questões de honra e sobrevivência. E as personagens são das mais variadas formas: irônicas, covardes, respeitosas, religiosas, despretensiosas, sonhadoras ou realistas. Todavia, uma característica é comum a todas, motivo da ascensão e queda das famílias durante os anos: a determinação. Essa variação de caráter dá ar à narração, tornando impossível se cansar com uma personagem.

Em Londres, Rutherfurd situa os leitores perfeitamente à época retratada em cada capítulo. Ele mostra ao leitor diferentes faces da capital, e no segundo capítulo, onde é narrada os dias de Londres como cidade romana, é tão convincente e novo que eu nunca consegui imaginar antes uma Londres tão diferente daquela que conheço. E o aspecto da cidade muda conforme a época, claro, impulsionada por guerras e principalmente por conflitos religiosos. Nos sentimos dentro de Londres e entendemos as convicções de cada personagem.

Com um romance assim grandioso, tanto de tamanho quanto de conteúdo, entendemos o porquê de a cidade, mesmo não sendo mais o centro financeiro do mundo, ainda é tão importante e tão procurada pelas pessoas de outros países. É interessante notar que, desde o seu início, Londres sempre esteve cheia de estrangeiros atrás de novas oportunidades. Edward Rutherfurd montou no livro pequenas maquetes vivas da cidade ao longo desses anos, e imagino que não só um estrangeiro pode entender a cidade através de Londres, O Romance, mas que um próprio londrino consegue se identificar e se entender melhor nele.