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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Belas Maldições: As belas e precisas profecias de Agnes Nutter, Bruxa

Há seis mil anos, mais precisamente no dia 21 de outubro, Deus criou o mundo. Fez os animais, as plantas, céu, oceanos, essas coisas todas. Fez um paraíso e nele pôs um homem. Depois uma mulher. Para guardar os portões do Éden, escalou um anjo com uma espada flamejante. Mas isso não impediu que um outro anjo rastejasse do céu até a Terra. Então ele se transformou em um demônio. Ou melhor, numa cobra. A partir daí, anjo e demônio, ou Aziraphale e Crowley, conviveram até o fim dos tempos. Eram inimigos tão próximos que poderiam ser considerados amigos.

Ainda há um livro. As Belas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa. Ele nunca vendeu, pois as profecias de Agnes eram realmente precisas. Ele era direcionado a uma única pessoa, Anathema Device, decendente profissional. As previsões tratavam de objetos perdidos ao Apocalipse. E esse último era o que mais importava, o trabalho da vida de Anathema. Falando em Apocalipse, não podemos esquecer de seus 4 caveleiros. Ou melhor, motoqueiros.

Entre bebês, patos especialistas em realpolitik, usinas nucleares, tibetanos, freias diabólicas, e músicas do Queen, Belas Maldições, publicado aqui pela Bertrand Brasil, fala da atrapalhada e mágica chegada do filho do Diabo à Terra. A junção da ironia de Terry Pratchett e a fantasia de Neil Gaiman fizeram do Apocalipse uma história encantadora, com os personagens mais inusitados e as cenas mais engraçadas da literatura.

Gostamos de Crowley e Aziraphale logo de início. Os dois travam longos diálogos sobre o grande Plano Inefável de Deus, filosofam sobre o bem, o mal e a atitude das pessoas. Tratam o Céu e o Inferno como duas empresas concorrentes, procurando a melhor forma de fazerem seus trabalhos. Se reúnem casualmente para tratar de negócios, fecharem contratos para agradar seus superiores. Os dois estão tão ligados a Terra que, no momento em que o Anticristo chega, decidem não querer que ela acabe.

Pratchett e Gaiman construíram uma narrativa repleta de referências externas, indo do cotidiano londrino a clássicos da literatura, música, cinema e quadrinhos. Várias notas de rodapé dão um tom mais cômico ainda à trama, conseguindo inserir momentos incomuns de forma natural na narração. E é genial a forma com que tratam as esquisitices humanas, usando do sarcasmo e ironia para mostrar os nossos defeitos.

O Anticristo de Gaiman e Pratchett é um garoto com uma imaginação ilimitada, que vive uma vida simples na pequena Tadfield, e passa seus dias liderando uma gangue em busca de aventuras. E tem um cão demoníaco, chamado Cão. Quem imaginaria um anticristo desses? Pois é, toda a história de Belas Maldições é assim, totalmente criativa, cativante e gostosa de ler.

A principal mensagem do livro certamente está entre as linhas dos diálogos de Crowley e Aziraphale, que falam muito sobre o comportamento humano. Eles não creditam os atos bons e maus a feitos próprios, mas a predisposição do homem de escolher o que fazer. Mostra que muitas vezes, o bem pode ser o mal, e vice-versa. Todas as personagens tem algo para passar, e ensinam a dar valor a vida, por mais simples que ela seja. É um manual de como viver, de como manter o mundo funcionando.

Belas Maldições é um dos melhores livros que já li, e com certeza vai encantar muitos leitores ainda. Nunca o fim do mundo será tão divertido.