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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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O Livro Negro dos Vampiros

“Vampiros me parece ser o clichê da década”, disse um leitor do r.izze.nhas. Ele está certo. Mas nesse momento, o clichê está mais ligado a personagens embebidos em leite condensado. Ou lantejoulas. Doce demais enjoa, sempre disse minha mãe, e o mesmo acontece com personagens com mel em demasia. Os vampiros que fazem sucesso hoje infelizmente são assim. É interessante ver uma abordagem diferente, mas preferimos que eles não fujam tanto daquilo que conhecemos.

Em O Livro Negro dos Vampiros pode-se encontrar histórias atuais, escritas por autores brasileiros conhecidos e desconhecidos, que não são tão doces assim. São tipo um chocolate amargo. Organizado por Claudio Brites e publicada pela Andross, a antologia reúne mais de 50 contos, selecionados entre 300, que apresentam uma gama de personagens que passam pelo clássico vampiro dos tempos vitorianos, pelo gótico a até por novos cenários que cativam pela criatividade. Vemos o antigo e o novo exaltando uma só adoração: o mito do vampiro.

Entre os autores estão Liz Marins, com sua inconfundível Liz Vamp, o próprio organizador d’O Livro Negro, Kizzy Ysatis, que assina o prefácio de forma apaixonada,  Octavio Cariello, Helena Gomes e Brontops, quem me apresentou o livro (obrigada!). Eles e mais todos os outros autores criaram contos dando diferentes características aos seus vampiros, ambientando cada história em uma época e lugar distintos.

Os meus contos preferidos foram aqueles que retrataram os sugadores de sangue em crise por conta das mudanças sociais ou então em situações decadentes. Um dos textos que insere o vampiro em uma realidade nova é o de Gustavo Campello, Nem Alfa, Nem Ômega, onde ele vaga pela Terra sem vida depois do Apocalipse. Tempos Moderno, de Kathia Brienza, insere os vampiros nos tempos atuais, onde ser imortal não é mais glamuroso. São abordagens novas e muito bem elaboradas, que não descaracterizam a lenda.

As narrativas vão do vampiro óbvio, revelado desde o início, ao mistério daqueles que se escondem entre os humanos. Márcio Renato Bordin e Silvio Alfredo de O. Augusto usaram esse artifício em seus contos, revelando seus vampiros apenas no final. O romantismo é constante nos contos, mas não chegam nem perto das histórias melosas que apareceram por aí. Encontro Eterno, de Rodrigo Bruno se destaca entre eles

Claro que em um livro com tantas histórias sempre vai ter pelo menos uma que não vai agradar. Devo confessar que não gostei daquelas onde os autores montavam um ambiente gótico, dando uma carga forçada de sensualidade e admiração a suas personagens. Prefiro os vampiros que se escondem, que procuram enganar suas vítimas se passando por mortal, do que aqueles que agem abertamente de forma arrogante e prepotente.

Vampiros são seres que provocam atração e repulsa, fascinam pela flexibilidade que suas características podem ter, possibilitando que cada autor crie um diferente. Isso é claramente visto em O Livro Negro dos Vampiros. Os escritores mantiveram pontos chave em suas personagens, como a sensualidade e a irremediável sede por sangue. Ou seja, aquilo que mais gostamos neles. Vampiros podem ser um clichê atualmente, mas quando bem abordados, são clichês bons.