Aleatoriedades Literárias

Coordenador de É só o começo fala da coleção voltada para neoleitores

A editora L&PM divulgou em sua newsletter uma entrevista com o professor Luís Augusto Fischer, coordenador da coleção É só o começo, que traz clássicos adaptados para leitores iniciantes. O lançamento dessa coleção, que conta com títulos como Robinson Crusué, Romeu e Julieta e O Cortiço, já foi assunto aqui no r.izze.nhas e gerou uma boa discussão sobre as alterações em livros para adequá-los a linguagem atual. Enquanto alguns tem uma visão otimista, voltada para o incentivo da leitura, outros já ficam com o pé atraz e falam da descaracterização das obras.

Essa questão é abordada nessa entrevista que a editora fez com Luís Augusto, então vou colocá-la aqui porque acho interessante colocar a visão do coordenador . Além disso, ele fala dos critérios para a escolha dos livros e como foram feitas as alterações. Segue a entrevista:

L&PM – Como foi feita a escolha dos títulos que entrariam para a Coleção É só o começo?

LAF – Escolhemos romances (e uma peça de teatro) clássicos, quer dizer, que já passaram pelo duro critério do tempo e continuam a fazer sentido para milhares de leitores a cada nova geração. Além disso, mais especificamente, escolhemos livros cuja força estava no enredo e nos personagens, não no trabalho da linguagem, porque nos permitem, até certo ponto, simplificar o jeito de relatar a história, sem impor perdas substantivas a aspectos poéticos. Livros de intenso e inventivo trabalho de linguagem, como Ulysses , de James Joyce, ou Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, perderiam demais se o plano das palavras fosse muito alterado; ao contrário, boas histórias como as de O Guarani, de Alencar, ou Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, mantêm interesse mesmo quando reproduzidas de modo mais sintético.

L&PM – Mesmo delimitando o universo de leitores (adultos recém-alfabetizados e estudantes até a oitava série), como definir o que poderá ser compreendido em termos de vocabulário por esse público, visto que esse recorte implica em universos distintos? Que cuidados foram necessários para uma “universalização” da linguagem?

LAF – Aí há muito do conhecimento empírico da equipe de trabalho, composta por gente experiente em sala de aula e por especialistas em ensino de língua e de literatura. Por outro lado, a edição tomou muitos cuidados para oferecer caminhos de ajuda para o leitor que eventualmente tropece em alguma palavra mais difícil, colocando notas.


L&PM – Como foram definidos os critérios para a adaptação? Como foi o processo de revisão dos livros?

LAF – Os critérios de adaptação podem ser divididos em dois níveis: quanto à literatura (enredo, personagens, tempo e espaço, etc.), definimos que era preciso seguir o texto original (consultado na língua do autor, naturalmente) o mais de perto possível quando ao andamento da história, da entrada de novos atores em cena, etc., mas procurando simplificar a linguagem e evitar sub-enredos, histórias secundárias, etc.; quanto à língua, definimos que era preciso fazer o neoleitor permanecer lendo o texto, o que significa dizer que evitamos que ele fuja ao deparar com estruturas muito complexas (frases muito longas, com muitas orações; encaixe de orações mediante processos sofisticados, como o que ocorre quando se usa “cujo”, etc) e com vocabulário muito distante de sua experiência. Mas na hora em que foi preciso utilizar palavras específicas indispensáveis, mesmo sendo provavelmente desconhecidas pelo neoleitor, mantivemos a palavra, ma s oferecendo uma nota explicativa.

L&PM – De que forma a adaptação de uma obra auxilia o leitor iniciante a chegar aos textos originais? Não existe o risco da limitação no aprendizado?

LAF – O risco dessa limitação existe sim, e isso não está sendo inventado por nós. Quem de nós, letrados, leu a íntegra em versos da Ilíada ou da Odisséia, obras-primas indiscutíveis? Elas chegaram à esmagadora maioria de nós em adaptações, traduções que passaram aquelas impressionantes histórias para uma prosa mais ou menos direta. Assim ocorre sempre; em nosso caso também vai ser assim: o neoleitor vai ter, com a nossa Coleção, uma chave de entrada efetiva para o mundo da grande literatura. Se ele conseguir ir adiante, realizará a si mesmo como pessoa; mas se não for, ele terá compartilhado um importante tesouro da humanidade, que deve pertencer a todos mesmo.

L&PM – Os livros didádicos costumam ser acompanhados de um material para professores, com as respostas dos exercícios e com algumas outras atividades sugeridas. A coleção É só o começo também terá um material para professores, elaborado pelo senhor. Quais as diferenças desse material de apoio para um livro do professor “convencional”?

LAF – O material que estamos preparando para acompanhar a Coleção não tem rigorosamente nada a ver com os manuais convencionais. O que estamos fazendo é estimular a inteligência do leitor que é o professor, para que ele, peça fundamental no mundo ainda hoje e sempre, leia com seus alunos e divulgue a literatura. Nossa intenção é devolver o livro ao centro da aula de literatura.

Gostei que o professor disse que algumas obras realmente ficariam fora de contexto caso fossem adaptadas para leitores iniciantes. E acredito, ainda, que essa coleção tem sua relevância, porque penso que a partir dessa leitura mais leve aqueles que realmente gostarem vão atrás do original depois. A leitura de clássicos, principalmente quando feita por obrigação, pode afastar muitas pessoas do hábito de ler. E, pelo menos com esses livros, essa atividade não vai parece tão assustadora aos olhos dos “neoleitores”. Mas claro, a forma de incentivar a leitura, sobretudo nas escolas, também tem que mudar para que o incentivo realmente funcione. Porque ninguém gosta de fazer nada obrigado.

PS.: Agradeço ao Salvador Camino pela dica do post.

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2 thoughts on “Coordenador de É só o começo fala da coleção voltada para neoleitores

  1. Sei lá… eu acho que essa visão “facilitando vamos incentivar” bem frágil, porque uma boa parte dos bestsellers estão em linguagem mais “jovens” e mesmo assim não atraem os pequenos leitores. Acredito que o problema esteja mais na forma que se usa para apresentar a literatura ao novo leitor. Pode ser idealismo, mas sempre pensei que a melhor forma de cultivar a vontade de ler em uma pessoa, devemos dar oportunidades e não indicações. Se cada um pudesse eleger seu livro dentro de uma lista pré-selecionada e depois ser avaliado encima desse base, as coisas iam andar melhores. Mas como não entendendo nada de pedagogia, fica complicado fazer essa afirmação de uma forma mais sólida.

    • Breno, eu acho que muitas pessoas não se rendem aos best-sellers simplesmente porque pensam que a literatura em geral é chata, como os clássicos. Elas não são apresentadas a esses estilos de fácil absorção, porque eles não são abordados na escola. Por isso penso que essa “facilitação da leitura” tem mais pontos positivos que negativos. Porque aí elas veriam que ler não significa algo cansativo e chato, e daí sim partiriam para best-sellers, livros mais densos e afins.

      Até hoje não encontrei ninguém que nunca leu nada que, quando pega um livro do Dan Brown, não fica encantado com a leitura. Falta mudar a visão de que ler é chato, e fazer do livro algo desejado, botar nas pessoas a curiosidade de querer ver o que acontece no livro.

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