r.izze.nhas

Resenhas e aleatoriedades literárias.

Menu Close

Orgulho e Preconceito e Zumbis, de Jane Austen e Seth Grahame-Smith

Invadir: esse verbo caracteriza o ato praticado por um zumbi. Eles invadem cidades, acabam com todos os que encontram pela frente no único objetivo de encontrar um suculento cérebro. Essa invasão às vezes pode ocorrer em lugares pouco convencionais, longe das paisagens que vemos no cinema. Como em um livro, por exemplo, inserindo os zumbis em uma obra chamada de clássica, uma invasão em um mundo onde eles, de início, nunca existiriam. Seth Grahame-Smith fez isso em Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Ele invadiu seu romance com uma horda de zumbis, transformando-o em uma história sangrenta, mas sem destrui-la.

Orgulho e Preconceito e Zumbis, publicado pela editora Intrínseca, é um exercício de adaptação de uma grande obra. As convenções sociais do final do século XVIII ganham um plus: agora não é só “casar bem” que interessa, mas também sobreviver aos ataques dos mortos-vivos. Grahame-Smith adiciona o treinamento nas artes mortais como característica principal de uma mulher que queira ser considerada prendada. E em meio ao relacionamento entre Elizabeth Bennet e Sr. Darcy, estão aqueles que saem de suas tumbas para fazer uma boquinha.

A história não muda praticamente nada com esses novos personagens. É só tirar qualquer menção a eles que você terá o puro romance de Jane Austen. E os zumbis não tiram de Orgulho e Preconceito o seu contexto, o que faz deles apenas um método de tornar a história um pouco mais ativa e, com isso, trazer para Austen leitores que nunca cogitaram ler seu livro.

Embora Grahame-Smith insira de forma muitas vezes sutil os mortos-vivos na trama, algumas passagens destoem demais do resto da história. Contudo, isso não compromete sua absorção e nem tira de suas personagens principais as suas características mais marcantes. No máximo, podemos pensar se tratar de dois tempos diferentes, que vez ou outra se juntam em uma coisa só.

O relacionamento entre Elizabeth e Darcy, assim como toda a reflexão sobre os costumes que regiam a sociedade da época, continuam em evidência. Pensar que o “co-autor” quis se aproveitar do livro de Jane Austen para vender mais é ter um certo preconceito. Não deve ter sido fácil adequar as falas de cada personagem para que os zumbis realmente parecessem fazer parte de toda aquela atmosfera de bailes e flertes. Por isso, considero que Orgulho e Preconceito e Zumbis seja uma leitura válida, sim. Que problema há em tornar um livro um pouco mais atraente? Eu não vejo nenhum. Não se isso é bem feito.

Orgulho e Preconceito e Zumbis não é nenhuma afronta ao trabalho de Jane Austen. Ao contrário, ele te leva ao assunto principal da trama, que são as impressões que temos das pessoas afetadas por nossos orgulhos e preconceitos. Os zumbis ficam em um segundo plano, um elemento de diversão. Por fim, aqueles que esperam encontrar muito sangue e cérebro tem sua necessidade saciada, mas também acabam por se encantar com essa grande obra do século XIX e pela narrativa de Jane Austen. Ler Orgulho e Preconceito e Zumbis não é nenhum demérito, mas se você não tem simpatia alguma com gente morta andando por aí e caindo aos pedaços, recomendo ficar só no original mesmo.