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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Alterego: de loucos à herois

“Vivemos num país sem herois”, diz Santiago Nazarian no prefácio da antologia Alterego. Ele argumenta que nosso dia-a-dia deve ser muito absurdo para não precisarmos criar um ser com supe rpoderes que o difere das outras pessoas, para não querermos nos aventurar em uma fantasia. E apresenta os contos de jovens autores organizados por Octavio Cariello como o remédio para essa falta de “ação fantástica”. Publicado pela editora Terracota, Alterego não fala só de herois, mas também pessoas aparentemente normais que possuem outra identidade. Ou simplesmente fala de loucos.

A dupla personalidade e/ou identidade é o fio que permeia os 20 contos de autores de todo país. São histórias que predominantemente falam daquilo que se é e do que se finge ser. Seja você uma pessoa com distúrbios mentais, um fugitivo ou um monstro em pele de cordeiro. Não há espaço para apenas uma vida nos contos desse livro. É obrigatório que as personagens queiram ser mais do que uma pessoa.

Em Jennifer, mamãe, é estéril o leitor se depara com uma história que muitos podem chegar a achar absurda, mas é mais comum do que se pensa. O protagonista do conto de Valdo Resende não esconde uma personalidade obscura que habita seu interior, mas a real identidade de sua mulher. A narração é simples e convidativa, e o desfecho do conto não é previsível. Continuando ainda fora da fantasia, Albano Martins Ribeiro contrasta diferentes realidades em Todos os Luxos o Lixo, alternando parágrafos entre a riqueza de Adonis e a miséria de Argemiro em uma mesma cena.

Os super-herois não demoram a aparecer em Alterego. O Salteador Noturno, de Mario Carneiro Jr. insere no livro uma personagem vestida com capa, um justiceiro que vaga pela noite e que não esconde apenas sua real identidade, mas também sua natureza violenta. O conto parece dialogar com Alterego², de Weber Sauerbronn, que retrata também um jovem heroi que, literalmente, é louco, além ter mais de uma voz na cabeça dizendo-lhe o que fazer. Ainda nesse nicho, Brontops Baruq escancara identidades secretas ao mostrar uma realidade onde o governo concede aos cidadãos superpoderes, onde é comum ver pessoas voando pelos céus com suas capas coloridas, bem o contrário do que Santiago reclama no prefácio do livro.

Alterego reúne bons textos, envolventes e até surpreendentes, em uma leitura que insere novos personagens no cotidiano brasileiro. É um livro que basicamente fala daquilo que mostramos ser na rua e do que revelamos na segurança das paredes de casa. Todos tem um alterego para vestir e sentir-se seguro, e aqui eles são expostos de forma fantasiosa ou extremamente louca. São textos recomendados para uma leitura descompromissada, ideal para preencher a lacuna que há quando você não dialoga com sua outra personalidade.