r.izze.nhas

Resenhas e aleatoriedades literárias.

Menu Close

Fetiche, de Carina Luft

Podolatria. Dentre tantas as taras que o homem tem, foi essa a escolhida por Carina Luft para compor seu romance policial, Fetiche. Assim como Ana Cristina Klein, Carina integra a oficina literária de Charles Kiefer, em Porto Alegre, e isso já é um ponto que causa certa curiosidade quanto a seu livro. Mas o enredo também chama a atenção: uma série de assassinatos em uma pequena cidade gaúcha onde as vítimas tem seus pés cortados. Um thriller, aquela velha caçada ao assassino, onde uma dupla de investigadores trabalha contra o tempo para solucionar o caso. São várias as expectativas quanto ao primeiro livro de Carina, mas nenhuma delas foi superada.

O cenário de Fetiche, publicado pela editora Dublinense, é Adenauer, cidade pequena e tranqüila que se vê ameaçada. Começamos o livro vendo uma jovem modelo na cidade indo para uma sessão de fotografia em uma fábrica de calçados da região. Assassinada, sabemos depois que na verdade se trata do segundo caso estranho em que uma moça é amarrada em uma árvore, violentada e tem os pés cortados, deixada na mata para morrer lentamente. Por trás das investigações estão o delegado de Adenauer, Weber, e seu jovem inspetor, Nestor. Juntos, vão atrás dos suspeitos desses crimes, um taxista, o dono da danceteria da cidade e um fotógrafo recém chegado.

Carina Luft não apresenta uma narrativa bem elaborada. Fetiche pode ser caracterizado como uma história que funcionaria para o teatro ou cinema, mas não para a literatura, escrito de forma semelhante a um roteiro. A autora usa muitos diálogos, mas esses são vazios, puras palavras que não denunciam seu interlocutor, não caracterizam as personagens. Quanto à narração, Carina fala apenas do físico: detalhes sobre cenário e, principalmente, sobre as ações das personagens – abrir a porta, andar pela casa, largar objetos –, sem dar a elas emoções.

O enredo tão interessante na sinopse foi mal explorado. A história do assassino fascinado por pés não possui mistério e, por isso, não seduz. Ela é previsível, e nem as tentativas da autora de tirar os holofotes de cima de um dos suspeitos e deixar dúvidas na cabeça do leitor funciona. Por conta do modo seco que apresenta os elementos dos crimes, sem aprofundamento, a história fica pouco atrativa. Espera-se a abordagem de algum assunto referente às motivações do assassinatos, uma solução engenhosa para prender os suspeitos, mas até isso se torna difícil, pois os próprios crimes não são bem montados.

O final de Fetiche, que poderia trazer alguma surpresa quanto às dúvidas do delegado sobre quem seria realmente o assassino, chega bruscamente. Em uma página, Carina narra a busca nas casas dos suspeitos e, virando-a, já temos o desfecho do caso. Assim, do nada. Carina ainda fecha o livro com um diálogo clichê entre Weber e Nestor, deixando a sensação de que a dupla poderia ter outro livro. É triste dizer que, de todos os livros de autores gaúchos que vim lendo nos últimos meses, Fetiche foi o primeiro a me decepcionar. E espero que seja também o único.