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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Sob o Céu de Agosto, de Gustavo Machado

Juremir Machado da Silva diz que Gustavo Machado pode entrar na lista dos grandes jovens escritores gaúchos. O que, segundo ele, talvez possa não acontecer, por conta da sorte similar a de Mick Jagger que o jornalista possui. Mas eu digo que sim, Machado pode estar nessa lista. Não que eu tenha alguma autoridade para afirmar isso, mas seu primeiro livro foi um belo começo. Sob o Céu de Agosto, lançado semana passada pela editora Dublinense, é uma daquelas histórias raras capazes de prender o leitor por um dia inteiro, e que o simpatiza com uma personagem que tem mais defeitos do que virtudes.

Otto, um pintor de 30 e poucos anos, passa os dias em casa atrás de inspiração para suas telas. Diariamente, recusa de maneira heroica as investidas de sua vizinha e amiga ninfeta, Berta, de 15 anos, que age como adulta, sonhando em ser sua mulher. Otto está ficando sem dinheiro, e por nem conseguir representar nas telas a cor do céu nos dias nublados e úmidos de agosto, está desesperado atrás de um emprego. Não que ele queira realmente trabalhar, mas é sua única opção. Auxiliado por um amigo político, consegue uma vaga para dar aulas de pintura em uma casa de cultura.

Contudo, não foi apenas dinheiro que ele encontrou lá. Desde a primeira aula, se sentiu atraído por uma das alunas, Sophia, de 24 anos, que retribui o interesse. Em poucos dias, sua vida muda drasticamente, não necessariamente para melhor. Casada com um homem importante da região e violento, Sophia vê em Otto uma forma de libertação. Essa união repleta de atração e poder já nasce fadada à tragédia.

O livro já começa dizendo isso. Somos apresentados a Otto na cadeia, preso por envolvimento em um assassinato, mas não sabemos de quem. Toda a história de Sob o Céu de Agosto é narrada pelo pintor ao policial envolvido no caso. Não é um simples relato de sobre o que levou Otto ao crime, mas uma ficha completa de todas as suas angústias e decepções. Apesar de desprezar certas convenções sociais, ele se vê preso a essas regras que regem o comportamento das pessoas. Está na obrigação dele pagar suas contas, e para isso ter um emprego. É seu dever resistir à Berta, pois por mais adulta e inteligente que ela possa ser, um relacionamento com ela seria um crime. Mas com Sophia todas essas preocupações somem, enquanto outras piores surgem.

Otto é um personagem deprimido, que sabe expressar nos mínimos detalhes essa desilusão e desprezo pelo emprego e pessoas que conhece. Assim como Sophia o arrebata para um relacionamento perigoso, somos tomados pela narrativa criada por Gustavo Machado, onde o mistério se insinua sutilmente. Não parece que uma história assim possa conter algum suspense, um momento de ação, mas ela tem, e percebe-se isso depois que a leitura já está nesse estágio.

O autor fecha a história de forma inesperada, fazendo de Sophia e tudo o que Otto passou com ela algo que pode ficar na mera lembrança. Por fim, todo esse caso e a tragédia em que acabou se mostra algo positivo para Otto, como um acontecimento que insinua a desgraça de um homem mas termina como sua salvação. Mas não importa a finalização da história. Sob o Céu de Agosto é um livro que vale pelo seu desenvolvimento, por retratar de forma tão convincente a vida emocionalmente conturbada do protagonista. Sem dúvida, uma estreia positiva de Gustavo Machado na literatura gaúcha.