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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente, de J. P. Cuenca

Na rotina frenética de Tokyo, um submarino percorre os subterrâneos da cidade em busca de imagens de um jovem executivo. Ele está ao lado de uma loira alta de olhos azuis, facilmente reconhecível por ser ocidental. O submarino filma, grava e envia imagens para a Sala do Periscópio, onde um velho poeta vê as relações de seu filho, acompanhado sempre de sua boneca de última geração nomeada Yoshiko. O jovem, chamado Shunsuke, dispensa novas mulheres e toda a sua vida para estar perto de Iulana Romiszowska, a polonesa-romena que trabalha como garçonete em um “inferninho” da capital japonesa.

Estão listadas as personagens de O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente, de J. P. Cuenca, que compõe a série Amores Expressos, publicado pela Companhia das Letras. O autor dá voz à Shunsuke Okuda, que fala da bizarra e obsessiva relação dele com seu pai, o poeta Otsuda Okuda, que acompanha seus casos amorosos, fadados sempre a um relacionamento insosso. A história começa com Shunsuke se apaixonando por Iulana ao vê-la no Abracadabar. Ser olhada por um cliente sem ser uma das meninas à venda do local chama a atenção de Iulana, interessada em uma das dançarinas da boate com quem divide um quarto.

Começa um romance pouco comum, fadado ao erro, com o homem abandonando sua vida profissional sem graça para medir o máximo de esforços no intuito de conquistar a companhia da misteriosa estrangeira e mantê-la sempre a seu lado. Cuenca faz uma narrativa bastante visual, conjurando cheiros e sons, se estendendo em descrições de gestos, lugares, pessoas e formas. Shunsuke, o narrador, é obsessivo, repete sentenças inteiras, afirma angústias e escancara o ódio pelo pai observador. Otsudo Okuda, ou o Sr. Lagosta, como o  chama Shunsuke, é a entidade onipresente que alardeia o fracasso amoroso, repetindo que “o único final feliz para uma história de amor é um acidente sem sobreviventes”.

Mas não é só Shunsuke quem apresenta toda essa trama complexa de amor e perseguição, mas também a boneca Yoshiko. Dotada de um questionador cérebro eletrônico, a boneca define Okuda como seu mestre, aquele que lhe ensina tudo, o indivíduo a quem ela recorre para entender as ações humanas. Enquanto Cuenca representa Shunsuke de forma lírica, cheia de figuras e descrições, Yoshiko tem voz mecânica, com vocabulário limitado ao que seu mestre lhe ensinou, ingênua ao falar das taras de seu dono que, para ela, são coisas habituais. Além da mudança clara de voz, o projeto gráfico de O Único Final Feliz… sofre alterações, inclusive de cor, marcando claramente quem é que está narrando. Falando em projeto gráfico, a capa repleta de elementos e traços combina com o título de palavras em excesso, uma união que de muitos detalhes que dá certo.

Percebemos no decorrer da leitura que Shunsuke é quase tão onipresente quanto seu pai. Por ser o narrador da maior parte do livro, vemos através dele os passos de Okuda, os seus planos para sabotar o romance do filho, as suas excentricidades. Por fim, Shunsuke é tão obsessivo quanto ele, vendo-o sussurar poemas na rua, enquanto espiona o casal. Por fim, somos agraciados com a violência que permeia filmes e séries japonesas: grandes explosões e seres gigantes que destroem prédios, ações detalhadas pelo jovem repetidas vezes.

O voyerismo concedido por O Único Final Feliz… é contagioso. Em poucas horas, as páginas são rapidamente consumidas, assim como Okuda consome o fugu, que estampa a capa da edição, assim como absorve as imagens do filho e suas conquistas. Com um título como o que tem, o romance de Cuenca não ilude para uma história leve sobre um casal. Como propôs desde a primeira frase, ele não nos dá um desfecho alegre e sadio. Leitura recomendada pela sua estranheza, por mudar a forma de expressar amores, e por saber manter o leitor atento em uma trama com tantos elementos conflitantes.