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Desacordo Ortográfico: a diversidade da Língua Portuguesa

Desde 1 de janeiro do ano passado, a Língua Portuguesa está unificada. Ou melhor, desde 2009 estão tentando unificá-la. Nesta data, entrou em vigor o Novo Acordo Ortográfico, que visa igualar a escrita do português em países que falam o idioma. Acentos foram removidos, assim como hífens, formando palavras visivelmente estranhas, mas sonoramente as mesmas de sempre. Muitos foram contra, pensando na dificuldade em se adaptar às novas regras – que já eram complicadas de aprender antes. Mas não teve jeito: a escrita mudou, e temos mais algum tempo até o “antigo” modelo ortográfico ser completamente deixado de lado.

Contudo, alguns meses depois surgiu o Desacordo Ortográfico. Infelizmente, não eram os governos querendo voltar atrás, mas sim uma antologia de contos de autores da Língua Portuguesa organizada por Reginaldo Pujol Filho e publicada pela Não Editora. Enquanto os livros começavam a ser impressos com as novas regras, a Não quis fazer uma obra que contivesse as diferenças de escrita que o português proporciona. Entre os autores, estão brasileiros, como Luis Fernando Verríssimo e Xico Sá, portugueses como Patrícia Reis, angolanos como Pepetela e outros autores de diversos países que adotam o português como língua oficial.

Como Pujol Filho diz na apresentação de Desacordo Ortográfico, o livro não se destina a ser um “museu”. Até porque, se você quer ler na antiga ortografia, é só entrar em qualquer biblioteca, onde pode-se encontrar obras com o antiquado “ph”. O livro quer mostrar a diferença da língua, justamente aquilo que o Acordo Ortográfico pretende esconder. Os contos querem, justamente, falar da pluralidade da Língua Portuguesa, de como uma mesma forma de escrever pode ser tão diferente. Porque escrevendo igual ou não, as palavras continuam sendo diferentes. Puto ainda é garoto em Portugal. Bixa ainda tem sentido ofensivo aqui.

Desacordo Ortográfico já começa com Luis Fernando Veríssimo embaralhando o próprio português do Brasil em Mais Palavreado. No conto, as palavras misturam suas funções: o que significava uma coisa é outra, uma troca de sentidos que diverte e aponta como mesmo na confusão é possível compreender a mensagem. E se há diferença na escrita, é claro que haverá oposição quanto a natureza dos textos. Humor e drama andam juntos aqui, e logo depois de Verríssimo, já temos Mulôji A Kolombolo Mata, do português criado na Angola José Vieira Mateus da Graça, onde um garoto vê sua mãe acusada de ser bruxa arder em uma fogueira.

Os contos tem personagens de diversas idades, mas são várias as crianças no papel de protagonista. Em O Cheiro do Mundo, de Ondjiaki, da Luanda, o leitor se depara com as percepções de um menino em seu primeiro dia de aula. Um dos melhores contos da antologia é O Rapaz que Não se Tinha Quieto, da portuguesa Rita Taborda Duarte, contando a história de um garoto que adorava viajar sem sair dos seus dois mil metros quadrados de terra, mas ansiando o dia em que finalmente pudesse deixá-lo. Sendo um dos contos mais longos, é aquele que mais encanta em todo o livro.

Ópera Minerália Cinematográfica, de Patrícia Portela, é o texto que menos atrai. Ele possui diagramação diferente e extensão também longa, causando um estranhamento maior do que a escrita diferente. A escritora trabalha outros sentidos no texto, inserindo na narrativa imagens e aparentemente mudando o foco da história a cada página. O método travestido de poesia confunde, e deixa o leitor se dispersar facilmente.

Desacordo Ortográfico tem muitos outros contos que merecem menção: O Tradutor Ideial, de Olinda Beja; Oficina, de Manoel de Barros; O Mistério dos Cachecóis Matutinos, do gaúcho Cardoso. Não se pode deixar de falar de Tentando Entender, de Marcelino Freire, que fecha o livro de forma magistral em um texto que usa apenas definições de palavras, ligando a Língua (fala) à língua (órgão). Uma mostra de que, no idioma português, não importa o lugar, as mesmas palavras podem ser interpretadas de formas diferentes, enquanto palavras distintas podem ter o mesmo significado. Desacordo Ortográfico é recomendado para quem gosta de se aventurar na diversidade que nossa língua proporciona. Um livro que mostra que unificação alguma irá tirar do Português essa característica.