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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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O Lobo das Planícies, de Conn Iggulden

O homem reverencia a guerra. Embora desfrute dos tempos de paz, quando o assunto são combates, lutas e armas, o homem se sente atraído por sua força de destruição. Na literatura histórica, são as guerras que fornecem a maior parte do material narrativo, por serem acontecimentos que mudaram o mundo, afetaram países e milhões de vidas. Exemplo maior desse estilo é Bernard Cornwell, autor de mais de 40 livros que reconstituem fatos da História alinhando-os à ficção. Tomando o mesmo rumo, também temos Conn Iggulden, que se consagrou com a série O Imperador e esteve este ano no Brasil para a Bienal do Livro de São Paulo. Mas não foi nessa série, ainda inédita para mim, que vi esse fascínio pela guerra. Foi em O Conquistador, trilogia que conta a vida deGêngis Kahn, líder que uniu as tribos da Mongólia.

Publicado pela editora Record, o primeiro livro da série, O Lobo das Planícies, relata o início da vida do líder mongol que viveu no século XIII, quando então era conhecido por Temujin. Ainda na pré-adolescência, o garoto vê sua vida entrar em colapso. Filho do cã da tribo dos lobos, Yesugei, ele, sua mãe e seus seis irmãos são abandonados quando o pai é assassinado pelos tártaros. Sentindo-se traído por Eeluk, homem de confiança de Yesugei e agora cã dos lobos, Temujin nutre a vingança. Ao serem deixados para trás, ele e sua família, além de perder tudo que tinham, tem que conseguir sobreviver ao rigoroso inverno da região.

Temujin foi, desde o início da trama, uma pessoa de personalidade forte e com talento para a liderança. É difícil imaginar, mas aos 11/12 anos de idade, Temujin e seus irmãos mais novos já eram praticamente guerreiros. Dividido em duas partes, O Lobo das Planícies narra dois desafios: a luta pela sobrevivência  e recuperação de Temujin e sua família e o início da ascensão dele como líder mongol. Conn Iggulden narra ambas as partes de forma detalhista, focando-se nas personagens e suas ações, relatando passagens em ordem religiosamente cronológica que, às vezes, podem nem ter tanta importância pela trama. O que aponta para o enorme respeito do autor pelos passos dados por Temujin.

Na segunda parte, a característica de força e liderança do protagonista é ainda mais acentuada. Começando a formar um pequeno grupo de desgarrados – pessoas que se desligavam das tribos mongóis –, Temujin foi atacando seus inimigos e conquistando cada vez mais aliados. Apesar da sede de sangue, presente em 98% dos personagens masculinos do livro, ele e seus irmãos possuem uma sensibilidade enorme, dando valor ao respeito e buscando na sua liderança confortar o povo que agora protege. Enquanto busca se vingar do traidor Eeluk, Temujin impulsiona sua tribo para uma luta contra os tártaros, tendo auxílio financeiro dos jin, povo que vive em grandes cidades e acumula riquezas, e consideram as tribos mongóis selvagens.

Conn Iggulden, ao narrar as dificuldades da vida daquela época, não poupa quando o assunto é violência. Os mongóis, olhando por um lado fora da fórmula mocinho/heroi, são extremamente violentos. Sentem gosto pela batalha e, ao terminar uma, já começam a se encaminhar para outra. O objetivo, sempre, é conseguir armas, cavalos, bebidas e mulheres. O Lobo das Planícies transporta o leitor para dentro desse mundo antigo, sentindo na pele o frio, a fome e as dores das personagens, principalmente na primeira parte do livro. Na segunda, o que ele vê é o avanço arrasador de Temujin e muitas batalhas.

Como todo romance baseado na História, Conn Iggulden manipulou vários fatos para que se encaixassem na narrativa, todos explicados ao término do livro. O Lobo das Planícies é uma leitura que irá agradar aos ávidos por detalhes de um povo que ainda mantém hábitos datados de séculos atrás, como a prática da caça com arco e flecha e a sobrevivência baseada na criação de animais. O autor mostra esse mundo e suas principais características, apresenta o leitor a uma personalidade forte que, apesar de nutrir um prazer imenso ao derrubar seus inimigos, é extremamente carismática. Os detalhes que preenchem o livro podem se tornar cansativos em algum ponto onde a atenção tende a se desviar, mas é uma experiência de leitura que vale o tempo gasto. Principalmente para quem não consegue resistir à guerra.