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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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O Mapa do Tempo, de Félix J. Palma

Em 1888, na noite de 7 de novembro, Jack, O Estripador, fez sua última vítima: Marie Kelly, prostituta, assim como todas as outras mulheres que matou. Mas esse assassinato não tirou apenas uma vida. Ele acendeu a vontade de acabar com outra, a do jovem Andrew Harrington, amante de Marie Kelly. Inconformado com a morte de sua amada, oito anos depois o jovem rico de Londres decide tirar sua própria vida. Porém, seu primo e melhor amigo, Charles Winslow, o convence a desistir do suicídio apresentando-lhe uma maneira de salvar Marie Kelly: viajar no tempo e matar o serial killer.

Para isso, os dois recorrem à H. G. Wells, autor de A Máquina do Tempo, livro que despertou no povo inglês o desejo de conhecer épocas que ainda estavam por vir. Essa é a história de O Mapa do Tempo, do espanhol Félix J. Palma, um romance que traça não só novas maneiras de viajar pelo tempo, mas também mostra o quanto nós, pessoas, deixamos nos enganar. Lançado aqui no Brasil pela editora Intrínseca, a narrativa envolve não apenas a tristeza do jovem Andrew, mas divide a abordagem das viagens em mais duas partes que se cruzam e montam uma eletrizante trama que ultrapassa a imaginação.

Nesse mundo criado por Palma, temos uma empresa que oferece excursões ao ano 2000, a Viagens Temporais Murray. Nessas viagens, a Inglaterra de 1896 tem a possibilidade de ver a batalha que salvará a Terra dos autômatos, robôs que se rebelaram contra os humanos e estiveram prestes a destruir o mundo. É essa empresa que liga as três partes de O Mapa do Tempo. Além de inspirar Andrew, a Viagens Temporais Murray é a solução que Claire Haggerty, jovem também rica, vê de escapar de sua época para viver em um tempo onde mulheres possam fazer mais do que apenas casar e bordar. E é também no ano 2000 que o inspetor Garret vê a solução para estranhos assassinatos que assustam Londres na terceira parte do livro.

Félix J. Palma narra por meio de um ser onipresente e onisciente, que vê através de todas as personagens e épocas. Por isso são apresentadas ao leitor as mais diversas visões de viagem no tempo que compõem o romance. Mas assim como a sinopse de O Mapa do Tempo esconde do leitor toda a sua história, o próprio autor vai e volta na realidade e mostra como a imaginação pode ir além e criar um desejo que atinge a todas as classes da sociedade. A cada nova parte do livro o leitor se pergunta se aquilo que está sendo narrado realmente está acontecendo ou se é mais um recurso usado por Palma para tecer o romance em cima de reflexões e suposições das conseqüências que as viagens temporais podem trazer ao mundo.

Embora pareça que Andrew seja o protagonista da trama, a verdade é que H. G. Wells representa um papel muito mais importante. Tomado inicialmente como personagem secundário, é ele quem levanta as principais ideias sobre viagens no tempo e quem mais pensa sobre o anseio de alterar o passado ou conhecer o futuro. Ele inclusive reflete sobre como as escolhas feitas pelo homem podem alterar significativamente o futuro. Mas o mais interessante está no fato dele pensar o próprio papel do escritor, de criar fantasias e povoar a mente de seus leitores com ideias cada vez mais desafiadoras. Ele é uma personagem cativante e fundamental, assim como todas as outras que fazem parte das reviravoltas de Palma.

Ciência e magia não são os elementos que montam O Mapa do Tempo, mas sim imaginação e desejo. Palma expõe quantas fantasias é possível serem inventadas ou melhoradas para satisfazer o homem. Não são só as personagens de seu romance que se perdem em meio às viagens no tempo e paradigmas que elas criam, mas o próprio leitor. Entretanto, para ele basta fechar o livro para se situar novamente no tempo. Mas as personagens de O Mapa do Tempo estão presas às realidades que lhes foram apresentadas. Logo, o leitor percebe uma trama que cumpre o objetivo de entreter e encantar com uma história mirabolante que apresenta muito mais do que uma simples ficção científica.