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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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O Palácio de Inverno, de John Boyne

Quando fui saber quem era John Boyne vi seu nome ligado ao best-seller O Menino do Pijama Listrado. A obra é bastante recomendada, mas dela vi somente uma imagem de sua adaptação cinematográfica. Imagem essa que dizia ser uma história triste, que pega pela emoção. Quando peguei O Palácio de Inverno, terceiro livro do autor publicado no Brasil pela Companhia das Letras, esperava apenas mais uma boa história que mistura a ficção à realidade, e não algo tão emocionante. E levar o leitor a pensar isso, inicialmente, é o objetivo do livro.

O Palácio de Inverno conta a vida de Geórgui Danielovicht Jachmenev, um senhor nos seus 80 anos de idade de origem russa que vive na Inglaterra. Sua mulher, Zoia, está hospitalizada, enfrentando os últimos estágios de um câncer. Perto da perda iminente, Geórgui relembra tempos passados ligados a grandes momentos do século XX e, principalmente, das pessoas que passaram por sua vida. A história de Geórgui está intimamente ligada com o último czar russo, Nicolau II, e sua família, a quem serviu durante a juventude. Fazendo saltos temporais a cada capítulo, Boyne narra as principais passagens da vida desse homem.

A distância entre os Geórguis descritos no livro parece ser maior do que o intervalo de tempo entre os anos 1910 e 1980. Aos 16 anos, o russo salva um primo do czar e ganha sua confiança para ser segurança particular de seu filho, Alexei, herdeiro do trono de 11 anos. Aqui, Boyne apresenta a intimidade da família do czar, composto ainda por sua esposa, a czarina Alexandra, e suas quatro filhas, Olga, Tatiana, Maria e Anastácia. O jovem “mujique” se vê deslumbrado com a vida no Palácio de Inverno, em São Petersburgo, onde Nicolau II comandava seu país em uma guerra, e também abençoado por estar em companhia dos “escolhidos de Deus”.

Em contrapartida, o Geórgui idoso, sério e aparentemente mal-humorado, relata a descoberta da doença de sua esposa, a perda da filha, o nascimento de seu neto e os problemas em ser estrangeiro em épocas de guerra. São nessas passagens que Boyne insere o mistério da trama, insinuando um segredo guardado por Geórgui e Zoia que relembram grandes sofrimentos, motivo pelo qual o russo se mostra tão fechado às outras personagens. Há um contraste enorme entre o jovem e o velho, que vai esmaecendo conforme a leitura avança. Enquanto os relatos nos tempos de serviço ao czar se encaminham para o futuro, os dias na Inglaterra sofrem um retrocesso, de maneira que, no final do livro, Geórgui velho se funde com o novo e a chave de seus segredos é revelada.

Nicolau II, czar da Rússia, e sua família em 1913

Esse ritmo que John Boyne deu ao romance o torna ainda mais atraente. Enquanto o leitor espera dar continuidade a um caso descrito, por exemplo, em 1916, ele logo pula para 1945, tornando a história ainda mais curiosa. Esse método só faz criar mais expectativas acima da trama, que funciona justamente por ser contada dessa forma: em fragmentos, com a ordem cronológica constantemente interrompida. É dessa maneira que Boyne cria o suspense da trama, encaminhado o leitor para um final emocionante, possível apenas na literatura.

O Palácio de Inverno se mostrou um livro que engana. Superficialmente, pensa-se que ele fala da guerra, da relação com pessoas importantes, com o poder, quando na verdade ele fala de amor. O relato da vida da corte russa, das amenidades da família real, da vida tranqüila e normal de Londres e os fatos históricos não passam de um pano de fundo, um cenário meticulosamente montado para dar ainda mais consistência a uma história de amor que sobrevive às mais variadas adversidades e, principalmente, ao tempo.

John Boyne fez de O Palácio de Inverno uma ficção que se apossa da realidade para ir além do mero curioso. Nele vemos um imperador atencioso, dramas da juventude, mazelas da guerra, o cotidiano de um homem que teve seus dias gloriosos ao lado de pessoas ilustres que, agora, esconde seu passado de todos com o único objetivo de proteger quem ama. Uma apropriação mais do que bem sucedida da história dos últimos Romanov, que até 2007 ainda estava envolta em mistérios e inspirou muitas outras obras. O Palácio de Inverno certamente irá emocionar e fazer o leitor desejar que tudo poderia ter acontecido exatamente como Boyne narrou.