Depois de ler tantos contos que tratam predominantemente de casos cotidianos, é até estranho pegar uma reunião de histórias policiais nas mãos. A impressão que tenho é que o gênero hoje se reserva apenas ao romance, deixando no passado nas mãos de escritores como Arthur Conan Doyle e Agatha Christie o papel de criar curtas histórias investigativas. Na apresentação de A Prova dos Noves, o autor gaúcho Élcio Conte até faz essa comparação de seus textos publicados pela editora Nova Prova com os dois mestres policiais. Basta ao leitor concordar se os três contos que compõem seu livro merecem ser assim comparados.

A primeira história é a que dá nome ao livro. A Prova dos Noves revela ao leitor que ele não verá uma investigação mirabolante sobre algum caso obscuro, mas o ponto de vista dos principais envolvidos nesse caso: o assassino e a vítima. Nesse primeiro texto – o mais longo do livro – Conte apresenta Isdrail Biddenhoeff, um homem rico e amargurado pela perda de seu pai, seu filho e sua esposa. Vivendo apenas na companhia de seus empregados em sua mansão, o homem começa a desconfiar da governanta que o viu crescer e a toma como responsável pelas suas desgraças. Cada vez mais paranóico, Biddenhoeff busca vestígios que apontem a culpa da pobre senhora Eveline Gillis.

Élcio Conte foca seus esforços em caracterizar as personagens, fruto da procura pelo perfeccionismo que ele cita em seu texto introdutório. O leitor tem acesso a todos os pensamentos e gostos dos protagonistas e cria mentalmente uma imagem exata de quem são essas pessoas. A Prova dos Noves é exaustivamente detalhado, mas a história por fim mostra seu real mistério e engata uma narrativa mais rápida que fecha bem o conto.

O segundo texto é A Maquete Fatal, história de um homem já velho que, depois de anos de convívio com sua esposa, percebe que a vida de casado não lhe agrada. Ela lhe irrita cada vez mais, e ele passa a enxergar a paz que procura em sua morte. Mesmo o conto sendo visto apenas pelo olhar do assassino, o autor consegue conferir mistério a essa trama, que nesse caso não é resolvido em seu final, deixando a dúvida pairar na mente do leitor. Assim como no primeiro conto, Élcio Conte utiliza linguagem rebuscada na narrativa, o que chega a se estender até às falas das personagens, dando a elas uma encenação meio forçada. Contudo, os diálogos formais não chegam a afetar a leitura geral da obra.

O último conto é A Noiva de Vestido Negro, em que o já maduro Dimitri Leuter relata a um empregado a história de um casamento não ocorrido na sua juventude. Na trama, às vésperas da união sua noiva recebe presentes estranhos que pedem pelo seu suicídio. Transtornada, ela procura um culpado pelas ameaças e sente que está em risco. Para ajudar a noiva, Dimitri vai até um amigo inspetor pedir que investigue o caso. Esse é o texto que mais se assemelha aos velhos e conhecidos contos policiais por se centrar mais na investigação. É interessante notar que as próprias tramas parecem se transcorrer em um tempo passado. Embora Élcio Conte tenha dado início às histórias nos anos 90, ele finalizou-as agora e assim as datou. Neste último conto isso até está coerente, pois o protagonista narra sua juventude, mas os outros dois textos tem a mesma característica e se passam nos anos 2000.

A Prova dos Noves fecha a leitura com saldo positivo. Quem procura um bom texto para se entreter e ocupar a cabeça com enigmas, vai encontrar o que quer nos contos de Élcio Conte. E eles realmente lembram os velhos contos de Conan Doyle e Christie, por resgatar personagens perspicazes e cultas que se envolvem com crimes pouco comuns e que desafiam o leitor.