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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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A Sordidez das Pequenas Coisas, de Alessandro Garcia

O cotidiano é o aspecto abordado pela maioria dos contistas. O dia a dia do cidadão normal, pacato, é material para muitas histórias. Um bom escritor consegue transformar a vida de qualquer um em algo interessante para ser lido. Alessandro Garcia é um desses novos nomes da literatura que pega da vida simples temas para centrar os seus textos, e em A Sordidez das Pequenas Coisas, lançado pela Não Editora, são coisas assim que ele dá ao leitor: o cotidiano puro, pensamentos de pessoas simples e suas histórias que rendem assunto para muitos outros contos.

Alessandro Garcia narra de forma elaborada. Compõe longos parágrafos com frases permeadas de vírgulas e diversas linhas de pensamento. O ritmo denso não é regra, mas todos os contos apresentam uma certa profundidade que instiga o leitor a olhar cada vez mais fundo no que o autor narra. O que ele vê então é a sujeira que envolve as pessoas e relações diárias. Histórias com um ar de decadência, comportamento sórdido mantido pelas personagens que chega a ser obsessivo. As tramas geralmente envolvem a classe média e a vida no subúrbio, retratando dramas e segredos que essas personagens, homens, mulheres ou crianças, guardam dentro de si.

Cada texto é aberto com imagens e uma citação de alguma outra obra que ilustram seu tema, em um acabamento gráfico de encher os olhos. É impossível não elogiar o cuidado com a edição desse livro. E as tramas são das mais variadas: em Velhos vemos um mendigo observando os idosos sentados na praça jogando damas e seguindo com seu dia ocioso. Temos o rompimento de uma relação em Senhas, com um protagonista que sente o peso da perda ao repassar todas as mudanças que deverá fazer. Um dos melhores contos é Submersão, que mostra um homem simples se sentindo oprimido pela relação que mantém com sua noiva, tão parecida com sua irmã mais nova, não resistindo às escapadas para os inferninhos do Centro de Porto Alegre.

A Sordidez das Pequenas Coisas traz olhares caídos, mistérios que podem ficar sem solução, fechamentos às vezes bruscos, como no conto Vãos, em que o centro não é o narrador/protagonista, mas o comportamento estranho de seu filho. O próprio método de como escrever um conto está presente no livro. É o caso de Um Tio, em que um homem pensa em como pode relatar o velório de seu parente pouco conhecido em um texto que seja interessante. Personagens se repetem, viram figurantes em outros contos, são mencionadas brevemente em histórias que o leitor pode considerar tão diferentes daquelas que protagonizaram.

Em seu primeiro livro “solo”, Alessandro Garcia mostrou sua capacidade de perceber grandes tramas em pequenos universos. Como bom observador, colocou em seus contos aquilo que todos vêem diariamente e mal notam. Uma prova de que a inspiração pode estar debaixo de seus olhos em tempo integral. Basta saber moldar o que se vê. E em A Sordidez das Pequenas Coisas, esse cotidiano de tramas cheio de segredos e decadência está bem representado.