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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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A Teoria das Janelas Quebradas, de Drauzio Varella

Drauzio Varella é um nome bem conhecido de todos. Se não pelo livro Estação Carandiru, que originou o cultuado filme, é pelas suas séries sobre saúde transmitidas pela Rede Globo no Fantástico. De alguma forma, você já teve contato com o trabalho dele. No meu caso, tive apenas com as matérias na Globo mesmo, nem ao menos cheguei a ver Carandiru. Mas agora li as crônicas que o médico/escritor escreve para o jornal Folha de S. Paulo, um trabalho de 10 anos publicado no livro A Teoria das Janelas Quebradas, pela Companhia das Letras.

O livro apresenta textos de Drauzio que abordam diversos assuntos. As crônicas são relatos ouvidos pelo autor, coisas que vivenciou na vida de médico, reflexões sobre questões cotidianas e, claro, críticas sociais e um tanto de ciência e medicina. O livro faz uma categorização desses textos, começando com as histórias que Drauzio ouviu e viveu como médico na Casa de Detenção e em hospitais. As personagens dessas crônicas são as mais diversas: presos, carcereiros, médicos, pessoas ocasionalmente encontradas nas ruas. Mas a maior parte das suas fontes vem de dentro da prisão, onde narram ao doutor casos engraçados de adultério e a malandragem.

Nessas histórias descontraídas não há nenhuma grande lição ou mensagem aos leitores, apenas o puro relato que mostra o bom humor com que os interlocutores tratam os seus problemas conjugais que viram motivo de riso em mesas de bar. A Teoria das Janelas Quebradas começa justamente com esses textos mais leves e engraçados para ir conquistando o leitor. As crônicas são curtas, pois Drauzio, assim como qualquer outra pessoa que escreve para um jornal, tem um espaço limitado, que por vezes parece obrigá-lo a terminar seus relatos de forma brusca.

Em seguida, o livro engata nos textos que tratam da sociedade e englobam violência, comportamento, governo e cárcere. Aqui Drauzio fala de como as mulheres presas são abandonadas por seus companheiros, histórias de ex-presidiários que decidiram nunca mais cometer crime algum, a situação lamentável de hospitais e atos pouco profissionais de colegas de profissão. O autor expõe opiniões fortes, voltado ao lado humano, como no caso da crônica em que critica a postura da religião e medicina de que um paciente não deve ter sua dor aliviada. Em vários textos, Drauzio Varella narra teorias evolutivas, questões que para um leitor comum são complexas, mas que nas palavras dele ficam simplificadas, fechando o texto questionando o leitor sobre a ciência ser bem mais interessante para explicar o início do mundo do que os dizeres religiosos.

As últimas crônicas se utilizam de uma narrativa mais científica para explicar casos simples do dia-a-dia. A Teoria das Janelas Quebradas, por exemplo, é um ótimo texto que faz uma relação entre cidades limpas e bem cuidadas com a violência, utilizando como base de argumentação uma pesquisa que avaliava o comportamento das pessoas em infringir regras em diversos ambientes. Drauzio Varella desmistifica crenças relacionadas à saúde, “explica” as mulheres, o instinto materno, a nossa proximidade com os primatas. Por conterem muitos dados científicos, essas crônicas podem até parecer cansativas, mas são bem elaboradas e informativas e lança uma luz em cima de crenças alardeadas por nossos pais e avós.

A Teoria das Janelas Quebradas é um livro que tirou de mim certo preconceito com a escrita de Drauzio, uma visão errada que tinha de que o autor escrevesse apenas sobre violência. Visão ignorante de quem nem ao menos pegou em um de seus livros. Suas crônicas são, no geral, muito bem humoradas, até quando tratam de assuntos mais pesados. Concordando ou não com o que ele diz, é uma boa fonte de reflexão sobre a sociedade, nosso comportamento e a própria medicina praticada pelo autor. Vale a pena gastar alguns minutos de seu dia lendo os textos de Drauzio Varella.