Entre textos curtos com histórias de duração breve, porém não simples, Saul Melo preenche o livro Entre Sombras, um dos últimos lançamentos da gaúcha Dublinense. Como o título sugere, as tramas criadas pelo autor acontecem entre momentos sombrios, narrados por personagens ocultos em grande parte, falando não justamente de um momento específico de suas vidas, mas principalmente filosofando sobre elas. Saul Melo cria histórias que, não importa o contexto, sempre estarão submetidas à melancolia.

 

Seus 18 contos publicados em Entre Sombras não escancaram personagens nem lugares. Elas são, muitas vezes, o mistério de suas curtas tramas – que em sua maioria mal completam duas páginas de texto –, onde o autor revela sua natureza apenas no final. E essa natureza pode ser tanto real como fantástica, uma ficção que tem ares de realidade e assim são consideradas pelo leitor. Exemplos estão em Reincidência e Cúmplices, contos onde figuram as mesmas protagonistas, aquele ser que nos tira a vida.

Em alguns contos, Saul Melo não relata ocorrências, mas reflexões. Como em Visão Feroz, em que o autor externa a violência atual e descrença nas ações humanas. Em outros, Melo procura explorar todas as personagens, dando voz separadamente a cada uma para que contem os vários aspectos de algo que vivenciaram. É assim em Catavento e Girassol, em que o homem inicia o relato, sendo ele fechado pela sua mulher tratando de momento posterior; Quando Mnmosyne Sonha, no qual a última voz pode ser a do próprio leitor; e O Deus dos Mares, a história de vida de um gigolô contada por ele, sua agente e clientes. São nesses contos que o autor expõe mais claramente os elementos de suas tramas e explora fatos específicos.

Apesar das sutis diferenças de abordagem, os contos de Saul Melo são dotados de profunda semelhança. Seja no seu tamanho, o que pode orientar o autor sobre o que narrar sem acrescentar informação inútil, quanto o uso das palavras que ele faz. Embora curtos, essa escolha resulta em histórias praticamente completas, onde o leitor não sente falta de elemento algum. Todos os seus textos tem um fundo sombrio, tristonho, em que todas as personagens acabam não exatamente de forma trágica, mas insatisfeitas com o que tem. Os contos muitas vezes exploram a morte, seja pela visão dela mesma ou de outras personagens que sofreram perdas ou se sentem perto de serem suas próximas vítimas.

Entre Sombras é um livro que rapidamente é acrescentado à lista de leituras terminadas. Não porque os textos são curtos, mas porque a leitura flui naturalmente, desperta o interesse e o lado sombrio do leitor. É um livro que deve ser evitado por aqueles que procuram por diversão, mas aceito por quem vê na literatura a possibilidade de vivenciar as mais diversas experiências. Pois a melancolia está, certamente, entre as mais profundas delas.