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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Linguagem de Sinais, de Luiz Schwarcz

Planejando o livro para ser um romance, Linguagem de Sinais, de Luiz Schwarcz – mais conhecido como editor e dono da Companhia das Letras –, teve que adequar sua trama depois da recusa de seus próprios colegas editores. A solução foi transformar os capítulos em contos, e eis que seu segundo livro (sem contar o infantil) é lançado agora pela sua editora. Mas seu livro não parece ser uma antologia. Ele fica em um meio termo entre conto e romance, onde personagens se repetem e vivem histórias em certa ordem cronológica.

 

O “protagonista” do livro é Lajos, um homem que constantemente relembra momentos específicos de sua vida. No conto que abre o livro, Antônia, ele está no aeroporto preparando-se para viajar a Portugal. Enquanto, no avião, presencia a confusão armada por um idoso com Alzheimer, ele lembra dos seus apelidos de infância e sua ex-mulher, quem dá o título ao conto. Ela dá palestras para surdos e suas famílias e, fascinada pela linguagem de sinais, admira Beethoven e Goya, dois grandes nomes cujos problemas auditivos não minimizaram seus talentos.

Lajos não entende exatamente como foi acabar se casando com Antônia, uma mulher de certo modo egoísta e estranha, que nunca lhe inspirou muito afeto. Em outros contos onde retorna, ele continua relatando aspectos de sua vida, ligados ou não à ex-mulher, mas geralmente relacionados à sua família. O único conto que destoa claramente do resto é Síndico, onde uma jovem narra o comportamento estranho do síndico do novo prédio para onde se muda, um homem estranho com mania de repetir sempre a última frase que diz. A personagem desconfia que ele espione os inquilinos do prédio, e tem certa paranóia quanto a ser alvo de suas investigações.

Os demais textos de Schwarcz se interligam, onde alguns não se referem exatamente ao “protagonista”, mas também não dizem o contrário. O autor reuniu nessa trama muitas de suas lembranças pessoais. Quem lê sua coluna no Blog da Companhia certamente reconhecerá o conto Pai. Outros momentos de sua vida também servem de pano de fundo para seus contos, e o próprio Schwarcz os aponta ao final do livro.

Luiz Schwarcz mantém um padrão narrativo em Linguagem de Sinais fácil de absorver. Seu texto não separa narração de diálogo, onde as personagens invadem a fala do narrador a todo instante e ditam com sua própria voz. Mas apesar dessa invasão, a leitura de seus contos é fácil e envolvente, com histórias não necessariamente surpreendentes, mas que seguram a atenção pelas vivências de seus personagens. Embora se diz tratar de casos cotidianos, as personagens que Schwarcz apresenta tem um quê de estranheza que as distingui dos demais tornando-as interessantes.

Linguagem de Sinais é um livro de leitura rápida. Certamente, a transição de romance para contos pode ter tirado um tanto de histórias que o autor teria para contar, e não considero que a trama não pudesse funcionar como romance. Isso porque todos os contos estão ligados de certa forma, bastaria apenas de uma trama onde eles pudessem se encaixar definitivamente. Mas isso não tira do livro a sensação de intimidade com o protagonista e a vontade de continuar a ler mais sobre a vida dele.