Mentira é uma daquelas coisas que ninguém gosta, mas são fundamentais. É o mecanismo que usamos para elogiar o cabelo horrível da chefe e evitar mau-humor dela, por exemplo. Mentiras, dizem, são praticamente a base para a convivência social. São coisas necessárias. É o que o jovem John Egan percebe em O Menino que Odiava Mentira, da inglesa M. J. Hyland, publicado aqui pela Companhia das Letras. Sim, John é esse menino, e o fato de ele odiar mentiras vem justamente do que elas causam à ele: mal estar.

Aos 11 anos, John ouve seu pai contando uma pequena mentira. No mesmo momento, começa a se sentir enjoado e, sem saber como, tem certeza de que seu pai não lhe conta a verdade. Vertigens como essa se repetem a cada vez que algum conhecido lhe diz uma nova mentira. John se considera um detector humano, e se sente especial por isso. Maior do que os garotos de sua idade, John é inteligentíssimo, leitor assíduo e ama o Guiness Book. Todo ano, recebe um exemplar de seus pais e tenta a todo custo absorver o maior número de informações possíveis. Mas as mentiras não são as únicas coisas que o afetam. Mudanças em seu corpo começam a acontecer, típicas do início da adolescência, e ele nota que as pessoas o tratam de forma diferente.

Principalmente sua mãe. Mulher carinhosa e gentil, Helen sempre teve uma ligação muito próxima com o filho, mas aos poucos se afasta, não conseguindo lidar com a situação difícil da família. Seu marido está desempregado há três anos e passa os dias em casa lendo. Eles moram de favor na casa de sua sogra, na pequena Gorey, na Irlanda, e as coisas não vão nada bem. Ao contrário de sua mãe, o pai de John tem momentos extremos: uma hora é carinhoso, em outra só reserva grosserias para o filho. E como lidar com um pré-adolescente imaginativo e carente como John nessa hora? Hyland, de forma sutil, vai traçando o perfil de cada personagem claramente, mas sempre deixando algum mistério quanto a elas.

Toda a história é narrada pelo garoto, e o leitor é o alvo de suas dúvidas quanto sua vida e seu “dom” de detectar mentiras. Enquanto observamos com John suas experiências para comprovar seu talento, também assistimos à lenta decadência de sua família. O que começou belo e divertido vai aos poucos se tornando confuso e deprimente. O Menino que Odiava Mentiras se mostra um romance com temática densa narrado com a inocência de uma criança, e não uma fantasia que o título pode sugerir. Vemos confusão nas ações de John, um garoto que não entende pelo que sua família passa e tenta, de forma errada, consertar as coisas que faz, frutos de seu comportamento inconstante, semelhante ao pai.

O leitor, ao observar tudo isso, fica com um sentimento de impotência. Ele não tem como fazer a família voltar à feliz e aconchegante primeira cena repleta de piadinhas inteligentes e afeto. A única coisa que pode fazer é continuar ouvindo John para saber como os Egan irão terminar. M. J. Hyland fez um ótimo trabalho abordando temas sobre relacionamentos e amadurecimento pelo olhar de um garoto que ainda não entende como funciona certos aspectos da vida, mas esperto o bastante para observá-los e tentar compreendê-los.

O Menino que Odiava Mentira ensina ao leitor que certas coisas na vida devem ser ignoradas para que ela continue seu curso sem sofrimento. Não que ele possa deixar de existir, mas será minimizado. Depois de um tempo, as pessoas não conseguem simplesmente deixar o que tinham de lado para recomeçar, apenas lutam para manter aquilo já possuem. Com personagens bem construídas, Hyland faz de seu livro mais do que uma fábula sobre um garoto com “poderes especiais”.