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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Menino Perplexo, de Israel Mendes

O que menos gosto na poesia geralmente é a rima. Considero que às vezes o poeta se preocupa mais em fazer as palavras combinarem do que fazer a poesia ter algum sentido. Odeio não entender o que está escrito, ou então tirar do texto tão pouca coisa que não me incentiva a tentar pensar sobre ela. Menino Perplexo, de Israel Mendes, reúne poemas que geralmente trabalham a rima. Mas felizmente, seus poemas não só possuem sentido claro como contam de forma simples curtas histórias. Nele, o poeta brinca com a língua portuguesa e com o próprio espaço físico do livro.

Publicado pela editora Dublinense, Menino Perplexo traz assuntos adultos com a simplicidade infantil. Sem intitular seus poemas, Israel Mendes trabalha com poucas palavras, às vezes com mais versos, e com a diagramação do próprio livro, fazendo poemas invadirem páginas a procurarem por um desfecho. Uma experiência não apenas de leitura, mas também visual, onde o tamanho da fonte, a disposição da palavra ou a ausência delas diz tanto ao leitor quanto um texto que preencha páginas e páginas. A construção visual é a própria poesia.

Seus versos são simples, rimados, harmônicos. Há um poema onde todas as frases terminam em “i”, outro em que dois poemas diferentes se unem formando um só, outro que “aproxima” o leitor do autor. São sacadas simples e por isso encantadoras. As melhores são as que narram pequenas histórias rimadas que levam o leitor a imagina-las, acrescentar nelas informações que antecedem o texto. Como no primeiro, que abre o livro: “O mundo perdia a magia/No dia em que a Maria/Descobria que não havia cegonha/Mas sim pai e mãe sem-vergonha”.

Menino Perplexo é lido em uma sentada, e invoca uma segunda leitura para que os poemas sejam saboreados com mais calma. Ninguém vai passar por uma grande revelação ou algo parecido lendo seus escritos, mas percebe uma calma nos poemas, uma graça rara de encontrar em outras histórias e versos. Por fim a leitura deixa um sentimento de leveza, mesmo nos poemas mais tristes que envolvem a perda.