No século XVI, na região de Auvergne, na França, a história das mulheres-lobas continua envolta em mistérios e dores impossíveis de reparar. Iniciada a trama em O Baile das Lobas – Volume 1: A Câmara Maldita, a escritora francesa Mireille Calmel conquistou milhares de leitores com seu drama que envolve vingança, amor e magia. A história de Isabel, uma jovem camponesa que viu seu marido morrer e sofreu abusos do senhor de Vollore, Francisco de Chazeron, para satisfazer a seus caprichos, não havia terminado. Um segundo livro dá cabo dessa trama que narra a vida de gerações dessas mulheres que procuram apenas a cura de sua maldição. O Baile das Lobas – Volume 2: A Vingança de Isabel (Nova Fronteira), fecha essa história se perdendo em sub-tramas que prolongam a sua leitura.

Antonieta Maria, neta de Isabel, fora criada até os 5 anos de idade como se fosse filha de Chazeron. Porém, a ameaça pairou sobre sua família, e sua tia-avó, Albéria, arquitetou um plano que a levou para Paris aos cuidados de sua avó e salvou-a do seu suposto pai. Criada no Pátio dos Milagres, o sub-mundo dos mendigos parisienses, Maria cresce em meio aos carinhos dos pobres franceses e dos ricos tecidos confeccionados por Isabel, que por um breve tempo esqueceu sua vingança à Chazeron e viveu tranquilamente como roupeira do rei Francisco I. Mas essas mulheres não viveriam em paz por muito tempo: 10 anos depois da suposta morte de sua filha, Chazeron recebe o cargo de chefe de polícia de Paris e volta a aterrorizar Isabel, Albéria, Loralina e, sem saber, Maria.

A vontade de vingar a família de todo o sofrimento pela qual passou retornou em Isabel. Até a metade do livro, Mireille se concentra no plano para destruir de vez Francisco Chazeron. Dessa vez, centra-se em Maria, de quem segredos sobre sua real natureza e maternidade se escondem. Velhos personagens retornam à trama, como a figura de Nostradamus, Philipus, pai de Maria, e Hugo de La Faye, marido de Albéria e administrador das propriedades de Chazeron. Todos esses e novos personagens se envolvem no plano que promete acabar com dele. Até esse ponto, A Vingança de Isabel se assemelha muito ao primeiro livro, sendo protagonizado por uma jovem que tem o dever de seguir com o legado deixado pela avó, mostrando-se persistente, corajosa e independente como ela. Porém, após findada essa questão, a autora envereda por outros temas levantados durante a narrativa.

Nesse ponto, as mulheres que se transformam em lobas procuram um antídoto para sua maldição. Isabel luta contra a idade para recriar o Alkeheist, e todas as personagens unem suas forças a ela. Mas Mireille consegue deixar até mesmo essa parte do enredo em segundo plano ao inserir Maria na corte do rei da França. O livro então se mostra um emaranhado de parágrafos tratando de questões fragmentadas da história do país, como a entrada dos ideais luteranos na vida religiosa do povo parisiense e os excessos dos nobres da capital. Encantada, mas com o pé no chão, a escritora monta pequenas tramas fundadas no relacionamento de Maria com seus antigos amigos do Pátio dos Milagres e o rei da França, enchendo o livro com intrigas sexuais que desviam a narrativa da natureza mágica da história.

As mulheres então fortes e destemidas dão lugar às submissas, que colocam o amor e uso do corpo para resolver seus problemas acima de qualquer outro sentimento. Mesmo com a nova protagonista lutando pela discrição e bem estar de sua família, a impressão que fica é que ela é tão presa às convenções da época que pouco ela tem de revolucionária. Aos poucos, as personagens que fizeram o primeiro livro abandonam a trama, já que a história envolve um período muito maior de tempo nessa continuação. Até o seu desfecho, diversas tramas curtas atrasam a conclusão dessa história que mistura magia a uma abordagem mais realista, focada em retratar os costumes do século XVI.

A Vingança de Isabel pecou por apresentar histórias que não se ligam muito bem com a problemática inicial do livro. Mireille Calmel se estende demais narrando trechos pouco importantes para o desenvolvimento da vida das mulheres-lobas, o que torna o livro cansativo a partir de sua metade. A autora não consegue transmitir ao leitor o real sentido daquilo que narra, o objetivo claro do por que estender o livro para além do que ele inicialmente propôs. Contudo, ela ainda consegue prender a atenção com uma escrita que respeita o modo de falar da época e passagens claras. O Baile das Lobasé certamente um dramalhão feminino, uma fantasia que desperta o interesse pelo cuidado da autora em conduzir a trama em uma ordem cronológica sem falhas e tratando dos anseios e prazeres que, para a época, eram avançados demais para as mulheres.