Livros que falam de injustiças e casos familiares delicados geralmente contêm uma carga forte de emoção para que o leitor se envolva o máximo possível com a história. Autores como R. J. Ellory (Uma Crença Silenciosa em Anjos) e DBC Pierre (Vernon God Little) fazem isso em seus romances: levam o leitor a questionar as personagens, se solidarizar com elas e sentir em si mesmo os problemas que enfrentam. Assim deveria ser com Rio Abaixo, de John Hart, mas o lançamento da editora Record peca na hora de simpatizar o leitor com seu protagonista.

 

Adam Chase é um homem amargurado com sua família. Aos oito anos de idade presenciou uma cena que criança nenhuma deveria ver, o que lhe despertou uma raiva contra todos para suportar a dor. Envolvido em brigas de bar de sua cidade, Adam é acusado de homicídio ao completar 23 anos. É declarado inocente, porém expulso de casa pelo pai. Os cinco anos seguintes ele passa em Nova York, vivendo no anonimato e tentando superar as injustiças com as quais sofreu. Contudo, o desejo de voltar à cidade natal o faz rever essas histórias e o envolve em novos crimes que podem colocá-lo novamente em frente ao júri.

John Hart inicia Rio Abaixo dando voz a Adam narrando sua volta e a onda de ressentimentos que ele levanta ao retornar a cidade. Ao ser expulso, o protagonista deixou para trás tudo que tinha: namorada, amigos e família. A história não é totalmente revelada ao leitor, e aos poucos ele descobre as circunstâncias do homicídio ao qual Adam foi acusado no passado e aos novos mistérios que envolvem a cidade e que, por força do destino, também possuem ligação com ele. É com essa abordagem que Hart pretende chamar a atenção do leitor, mas desde o início é impossível gostar de Adam. O protagonista se mostra amargurado de forma exagerada e não é capaz de fornecer respostas claras às perguntas de outras personagens, o que é irritante. O leitor percebe que seus problemas acabam vindo justamente dessa “auto-censura” que a personagem se impõe.

A trama de Rio Abaixo envolve mais do que o retorno de Adam à sua cidade. Há nela a tensão pela construção de uma usina, atrasada pela resistência de Jacob, pai de Adam, a vender sua fazenda para a companhia de energia. Ameaças o cercam e atingem todos os seus conhecidos, e por ser reticente, até Adam é apontado como suspeito nessa história. Além disso, há a tentativa de reconciliação com as pessoas que forçadamente abandonou e a necessidade de afirmar que não guardam suspeitas contra ele. Segredos familiares vêem a tona, e Adam ainda tem que lidar com tudo isso. O livro contém peças de quebra-cabeças que devem ser organizadas, processo que o protagonista narra durante toda a trama. Porém, toda essa reunião de problemas a serem resolvidos pouco estimula. Rio Abaixo envolve o emocional, mas Hart não desperta simpatia ao protagonista, o único centro da história. A reação dele às novas revelações é mal explorada, não envolve os sentidos do leitor, apenas relatos rasos sobre o impacto delas no protagonista, o que não confere interesse algum ao que ele está contando.

Como torcer por um protagonista e se interessar pela sua história sem a transmissão dessas emoções? Adam Chase é um personagem que viveu terríveis tragédias realmente difíceis de assimilar, continua a sofrer com sua repercussão e o juízo que dele fazem, mas em momento algum ele desperta solidariedade. Para tentar tornar a história mais atrativa, John Hart cria diversos mistérios e incentiva o leitor a tentar desvendá-los, mas são tantas as reviravoltas causadas pelas omissões do próprio protagonista/narrador que ele cria passagens desnecessárias que não acrescentam valor à trama.

Mas Rio Abaixo não é um livro abominável. Outras personagens despertam o interesse que o protagonista busca, mas não alcança, como os amigos de seu pai, Dolf Sheperd e sua neta, Grace. Pessoas humildes e determinadas, e seus próprios problemas e dedicação à família Chase conseguem tocar o emocional do leitor. Felizmente, ambos tem participação relevante no livro. Como estão envolvidos diretamente aos conflitos de Adam, eles mantém o pouco interesse que a história desperta e encaminha o leitor até o seu final.

Rio Abaixo foi uma trama que decepcionou justamente por não conseguir envolver e criar sentimentos fortes de compaixão. O livro não chega a tirar nem uma lágrima de quem está lendo, mesmo com a trama envolvendo interessantes casos de amizade e conflitos familiares. É só mais uma tentativa de thriller arrebatador cheio de morte, perseguição e revelações que não funcionam.