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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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A Pirâmide Vermelha, de Rick Riordan

Não tem jeito: livros infantojuvenis realmente atraem. É uma forma de ainda manter contato com a fantasia da infância, mas com um pé nos desafios que assombram qualquer adulto. E, a meu ver, é o estilo mais divertido da literatura, porque é possível trabalhar diversos assuntos e torná-los interessantes para qualquer pré-adolescente. Foi por isso que resolvi encarar o novo livro de Rick Riordan publicado pela editora IntrínsecaA Pirâmide Vermelha, que abre a série As Crônicas dos Kane. E apesar das características que incomodaram em Percy Jackson e os Olimpianos estarem presentes também nessa série, Riordan mostra que sabe trazer a mitologia para o mundo atual, e faz isso muito bem.

Só que dessa vez não temos um protagonista, mas dois. Sadie e Carter Kane viveram praticamente metade da vida separados. Quando sua mãe morreu, Sadie, com seis anos de idade, foi para a Inglaterra morar com os avós maternos, enquanto Carter, de oito, ficou com Julius, seu pai. Ele era um importante egiptólogo, e até os seus 14 anos Carter passou todo o tempo viajando com ele em suas pesquisas. Enquanto isso, Sadie os via apenas duas vezes por ano. A rotina dos irmãos muda completamente quando se encontram na véspera de um Natal. Seu pai os leva para uma visita ao British Museum e, misteriosamente, uma explosão os envolve em uma aventura repleta de mistérios e deuses egípcios. Com o pai desaparecido, os dois vão ter que aprender toda uma nova cultura – e habilidades – para encontrá-lo e salvar mais do que sua vida, mas toda a América do Norte.

O enredo segue a mesma fórmula de Percy Jackson e os Olimpianos: adolescentes com poderes mágicos e forte ligação com uma antiga cultura que devem enfrentar grandes desafios para, basicamente, salvar o mundo. Riordan não tenta fazer nada exatamente diferente do que fez na sua mais famosa série, o que deixa no leitor aquela sensação de “já vi isso em outro lugar”. Mas seu trunfo é a forma com que monta toda a história, deixando uma dose certa de enigmas e mistérios a serem revelados apenas nas últimas páginas. Alternando a narrativa entre Sadie e Carter a cada dois capítulos, ele trabalha a estrutura de mostrar vários pontos de vista e a evolução da relação entre cada um. Os dois irmãos são completamente diferentes, tanto na personalidade – Sadie é revoltada, Carter é um nerd – quanto na aparência – ela é branca, ele negro. Essa relação entre o físico dos protagonistas é inclusive ressaltada pelo autor ao colocá-los em situações onde outras personagens desconfiam de seu parentesco por conta da diferença de cor. Isso até rende uma crítica contra o preconceito que, admitimos ou não, existe em qualquer lugar.

Rick Riordan naturalmente apresenta a cultura egípcia ao leitor, que adquire mais conhecimento sobre ela junto com os protagonistas. Ele se faz entender quando mostra que a mitologia toma formas diferentes, onde os deuses são pais, filhos e irmãos ao mesmo tempo. Na narrativa corrida com que o autor trabalha, algumas dessas explicações podem acabar se perdendo, mas ele retorna para questões mais complexas da mitologia para tornar tudo compreensivo. É essa velocidade acelerada da ação que conta como ponto negativo para Riordan. Prefiro muito mais histórias que se centram em um longo período de tempo e trabalhem mais o desenvolvimento das personagens em outras situações além da aventura. Mas certamente é essa característica que atrai muitos leitores para Riordan: não tem como largar o livro para descansar.

A Pirâmide Vermelha termina com o gancho para os próximos livros da série: a provável recuperação de uma entidade mais poderosa que os deuses egípcios que vai estabelecer o caos no mundo – a mesma trama de Percy Jackson. Uma fórmula que se espera funcionar nessa série sem ficar muito defasada. Como os livros sobre os mitos gregos, As Crônicas de Kane foi exemplar ao inserir no mundo moderno de forma divertida a cultura egípcia, que em uma aula normal de História poderia parecer maçante. Quem gostou dos outros livros de Rick Riordan não vai se desapontar com essa nova série.