Casinhas do jogo Banco Imobiliário – ou Monopoly, pra quem gosta do nome original – ilustram o livro. Isso já indica que não se deve pensar na “parede” do título do primeiro livro deCarol Bensimon como algo diferente de uma… parede. Pó de Parede, publicado pela Não Editora, contém três contos que falam de estranhezas e inseguranças da juventude. A CaixaFalta Céu Capitão Capivara estão diretamente ligados à parede, ao concreto, a um lugar onde se cresceu, ou um que se viu construir, ou então em um onde se passou pouco tempo da vida.

 

O primeiro texto que abre Pó de Parede é A Caixa, cuja protagonista é Alice, uma adolescente vista como estranha, e assim se sente ante seus colegas de escola e também os próprios pais. Esse sentimento parte da própria casa onde mora, no meio de um subúrbio de casinhas com telhados convencionais e seus jardins, que apenas realçam o contraste entre o clássico e a arquitetura moderna do lugar onde mora. Os vizinhos consideram sua família esquisita, certamente por aceitar viver debaixo de um teto tão incomum. E ela, claro, ficou conhecida como a garota que mora na “caixa”. Mas o conto começa de trás pra frente, com um amigo já adulto transpondo madeiras que trancavam as portas e janelas de outra casa, uma que não é a “Caixa” e que o leitor nem faz ideia de que ligação realmente ela tem com a que dá nome ao conto.

Alice é uma personagem observadora justamente por viver em uma solidão imposta, muitas vezes, por ela mesma. Afinal, como não se sentir diferente quando se vive em lugar tão fora do comum? No início, o conto centra-se só nela, do que pensa dos colegas, de sua família e do lugar onde vive. Mas logo aparecem outras personagens, amigos com que conviveu na adolescência e que são peças chave para o desfecho dessa trama. O conto fecha de forma surpreendente, o que não é difícil, já que Carol não dá pista alguma sobre o que poderia acontecer na vida de sua primeira protagonista.

O segundo conto, Falta Céu, não fala de uma casa, mas de um condomínio, um empreendimento luxuoso que invade a calmaria de uma pequena cidade. Carol narra de forma corrida, sem aspas ou travessões para indicar diálogos. Faz ótimo uso das vírgulas para indicar quando a voz é do narrador e quando é da personagem, e a leitura segue sem barreiras e é rápida. Assim como fez no primeiro conto, nesse a autora narra pelos olhos de Lina, uma adolescente estilo “revoltada”, que ao mesmo tempo em que descobre um relacionamento, vê de camarote o tal condomínio sendo construído às margens do rio onde costumava se banhar. Lina tem o desejo de deixar a cidade, de ser um “herói” como todos os outros que conseguiram sair de lá, mas observa essa construção com certa tristeza, como se ela estivesse profanando o lugar onde cresceu.

Por último, Carol abandona a terceira pessoa e embarca o leitor em um conto com dois protagonistas narrando suas histórias. Capitão Capivara se passa em um hotel na serra em que Clara, uma jovem aspirante à escritora, trabalha como mascote para entreter as crianças. Paralelamente, vemos o desprezo pela literatura de massa do conhecido escritor Carlo Bueno, hospedado nesse mesmo hotel, recluso há três meses para escrever um novo romance policial que é mais marketing do que literatura. A trama aqui gira em volta da visão ingênua de Clara, que vê em Carlo o ideal de escritor, enquanto ela mesmo não suporta o emprego que tem no hotel. Enquanto ela alimenta o sonho de ser escritora, ele duvida que o que faz seja literatura.

Carol Bensimon não coloca as personagens de Pó de Parede exatamente no centro dos contos. Elas são olhos para outras tramas que ocorrem por trás dos panos, que em algum momento explodem na frente dos seus olhos e que se ligam a suas próprias vidas. E no fundo de tudo isso está a textura dura e constante das paredes: a casa esquisita, o condomínio novo, o hotel de luxo, fazendo uma sombra quase que opressora nas personagens. As três histórias narradas por Carol podem ser um pouco do pó que desprende dessas paredes, como se houvessem muitas outras para sair delas. E certamente seriam histórias com a mesma qualidade narrativa que a autora conferiu ao seu primeiro livro.