Religião e paixão se cruzam e causam um embate na vida de um adolescente. Fiel aos ensinamentos judaicos, Daniel descobre, aos 13 anos, o que era o sentimento que tinha por Pedro, seu melhor amigo. Os olhares carinhosos depositados sobre ele iam além da admiração pelo jovem: caracterizavam o mais puro amor e desejo de compartilhar com Pedrotoda sua vida. A história de Daniel é contada porRafael Bán Jacobsen no livro Uma Leve Simetria, publicado pela Não Editora. Um relato que guarda uma beleza única e tristeza que ultrapassa as páginas e ligam-se ao próprio leitor.

Daniel é o que poderíamos chamar de garoto exemplar: órfão desde pequeno e morando sozinho na casa de sua tia, era presença constante na sinagoga da comunidade onde morava. Não ignorava um culto, uma data importante do calendário judaico, e seguia religiosamente os seus mandamentos. Nutria por Pedro uma relação de carinho profundo, o que primeiramente era visto apenas como gratidão por lhe auxiliar em momentos decisivos de sua vida religiosa. Mas Pedro era diferente de Daniel. Não era dado a esse fervor pela religião, era mais aproximado ao esporte, a “coisas de menino”. Daniel admirava essa figura descontraída que via no amigo, por ser alguém diferente, mas felizmente muito próximo.

Jacobsen conduz a narrativa se apossando das palavras de Daniel. Ele nunca rechaçou o que sentia pelo amigo, não se sentia culpado pelo verdadeiro amor que tinha por ele. Mas ao mesmo tempo sabia como esse tipo de relação seria vista caso fosse revelada para a comunidade. Sofria, então, em silêncio pelo sentimento não correspondido, até enfim ver que, aos olhos de sua religião, nunca poderiam ficar juntos exatamente como queria. Contudo, tal impedimento só fez crescer essa vontade. Com passagens recheadas de carga emocional, Daniel conta todo o apreço que tinha por Pedro, o sincero amor que por ele nutria, como vivia apenas para, junto com ele, ir à escola todos os dias e viver curtos momentos de descontração.

Paralelo à narrativa de Daniel, Jacobsen insere na trama a história bíblica de Davi e Jonatã, relacionando cada capítulo do livro a uma passagem sobre outro caso de sincera e forte amizade traduzidos em profundo amor. As duas tramas reunidas agregam ainda mais ao objetivo de aliar a religião judaica com a questão do homossexualismo, tão belamente abordada nesse livro. Uma beleza triste, melancólica, certa de que a felicidade nunca será atingida, de que permanecerá a dor da paixão não consumada. Daniel dirige todas as suas palavras a Pedro, como se quisesse dizer, tardiamente, tudo o que deixou em silêncio enquanto estiveram juntos, tudo o que precisou esconder por conta de um preconceito e, logo, do dolorido afastamento.

Sem dúvida, Uma Leve Simetria foi um dos livros mais emocionantes que tive o prazer de ler esse ano. Não há história de amor que se compare a uma vivida por quem tirou dela toda a fonte de sua vida, e tão cedo soube mostrar para muitos o que significa realmente o verbo “amar”. Rafael Bán Jacobsen escreve de forma fluida, sem obstáculos para a compreensão, traçando a cada nova frase uma fonte de carinho e aceitação. Pois é possível, sim, amar alguém mesmo contra o que sua religião diz. É possível nutrir esse amor sem ferir o que seus ideais lhe dizem. Qualquer tragédia ou arrependimento vem, na verdade, daqueles que não conseguem enxergar isso.