Virgínia era uma garota sem sal. Normal como todas as outras, nem bonita nem feia, nem gostosa, com cabelo tingido de loiro como a maioria das gurias costuma fazer hoje. Mas, de repente, Virgínia se torna o centro de tudo para um homem. Um colega de trabalho que, sozinho e desnorteado com sua atitude, vê nela algo que o atrai surpreendentemente, e não consegue definir seus reais sentimentos por ela, muito menos descobrir quem ela realmente é. Noiva de um médico, a moça do nada dá suas investidas no colega que, sem saber o que fazer, aceita tudo o que ela lhe faz. Regado por música e remédios para curar um ferimento no pé, Virgínia Berlim – Uma Experiência, livro de Luiz Biajoni publicado pelo selo independente Os Viralata em 2007, narra uma história rápida, porém intensa.

Costumado a freqüentar um bar com os colegas de trabalho depois do expediente, o narrador e protagonista de Virgínia Berlimrecebe surpreso um beijo de Virgínia, até então uma mulher apagada para ele. Definido por alguns conhecidos e outras ex-namorados como um homem soturno, quieto e fechado, ele se pergunta o que uma garota jovem e noiva poderia ter visto nele – o que quer dele. Entre uma noite de bebidas e som, acidentalmente pisa em cima de cacos de vidro de um copo quebrado, o que o obriga a ficar trancado em casa por semanas para se recuperar. Nesse meio tempo, sua única companhia é um velho farmacêutico que lhe troca os curativos e a própria Virgínia.

O conforto que ela lhe passa deixa o narrador ainda mais confuso. Afinal, tudo parecia se encaminhar apenas para o sexo. Mas em poucos dias, a espontaneidade de Virgínia o envolve de forma tão forte que a única pessoa com quem espera ficar é com ela. O protagonista coloca todos seus sentimentos na novela, pondo no papel qualquer coisa que lhe vem à mente, relevante ou não para seu caso com Virgínia. O leitor percebe o momento de frustração e desorientação pelo qual ele passa: ansioso por alguma companhia – a de Virgínia –, cansado de ficar trancado em casa sem poder sair e ver alguém e nem beber algo para afogar as dúvidas, por conta dos remédios.

Assim como uma tempestade intensa, Virgínia se vai com a mesma velocidade com que veio. O que surpreende os leitores que tiveram contato com os outros livros de Biajoni, que possuem uma ambientação e temas tratados de forma mais descontraída e animada. Virgínia Berlim envolve mais melancolia do que se poderia esperar, acentuada ainda mais pela forma brusca com que esse relacionamento – se é que assim poderia ser chamado –  termina. Juntamente com o livro, Biajoni oferece ao leitor 10 canções que resumem em música a história do protagonista e Virgínia. Canções deLou Reed, Jeff Buckley Nick Cave fazem parte dessa seleção para ser ouvida enquanto se lê as 44 páginas do livro e se envolver na atmosfera criada por ele.

Não considero Virgínia Berlim um dos melhores livros de Biajoni, justamente por gostar mais da atuação do autor escrevendo tramas que puxam para um lado cômico. Certamente ele mostrou mais de seu talento nos livros que vieram depois, em especial com Elvis & Madona – Uma Novela Lilás, que fez o caminho contrário do mercado de entretenimento atual: foi adaptado de um filme. Porém, Virgínia Berlim é uma história que arrebata o leitor quase como Virgínia fez com protagonista. Vale a leitura.