Resenhas

Quero Ser Reginaldo Pujol Filho

Reginaldo Pujol Filho não tem medo de mostrar o que o inspira a escrever. Ele sabe que não há problema algum em escancarar as suas influências literárias, os autores que admira e que fizeram com que ele também escrevesse. E muito menos de dizer que seus textos contém fragmentos de cada um desses autores. Daí surge Quero Ser Reginaldo Pujol Filho, contos do segundo livro do autor gaúcho publicado pela Não Editora, em que rouba os estilos de seus autores preferidos para ser ele mesmo.

A brincadeira foi criada a partir de um conto originalmente intitulado As linhas desnecessárias do círculo, publicado em seu primeiro livro, Azar do Personagem. Aqui, ele reaparece com outro nome, Quero ser Amílcar Bettega Barbosa. No conto, o protagonista de Pujol Filho fantasia em uma fila de autógrafos do autor sobre uma passagem de um conto de Barbosa, no qual um jovem jornalista, ao entrevistar Júlio Cortázar, acaba ficando com um texto inédito do argentino. Pujol Filho pensa se, ao puxar conversa com Amílcar, poderia acabar passando pela mesma experiência, tendo que decidir o que fará com o texto: publicar com seu nome, devolver ao autor ou modificá-lo?

Essa influência já escancarada em Azar do Personagem incentivou Pujol Filho a fazer isso com seus outros autores preferidos. Quero Ser Reginaldo Pujol Filho reúne então contos onde o autor “quer ser”Miguel de CervantesMachado de AssisLuis Fernando VerissimoAltair MartinsItalo Calvino, Luigi PirandelloMia Couto, Gonçalo M. Tavares Rubem Fonseca. O estilo de cada escritor é usurpado pelo autor com referências a suas grandes obras, porém em tramas originais inspiradas na vida dos autores ou em suas criações.

Pujol Filho mata Rubem Fonseca como vingança por ele ter escrito seus livros antes dele. Sequestra Altarir Martins para se apoderar de seus contos por conta de um romance baseado na literatura. Se consulta com o Analista de Bagé por considerar que imita outras pessoas, sem ser ele mesmo. Conversa com o leitor como Machado de Assis ao tentar narrar um crime. Vive a história de Cervantes como um daqueles loucos que afirmam ser Napoleão. Enfim, cada autor rende um conto com histórias novas, mas familiares a quem os leu.

A absorção dos contos certamente é mais completa se o leitor já teve contato com os trabalhos desses nomes homenageados no livro. Mas a não leitura deles não compromete a compreensão dos textos, que mantém o tom bem-humorado e metaliterário já encontrado em Azar do Personagem. Ao querer ser Machado, Mia Couto e Rubem Fonseca, Pujol Filho é ele mesmo. Brinca com as personagens que lhe parecem fugir do controle, coloca a frustração de bloqueios de escrita no papel, viaja em suposições do que a história poderia ser. Quero Ser Reginaldo Pujol Filho é um livro ótimo para pessoas que, assim como o autor, admiram esses grandes nomes da literatura e também se inspiram neles para criar.

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2 thoughts on “Quero Ser Reginaldo Pujol Filho

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  2. Me interessei bastante por esse. Adoro esses livros que trazem influências ‘descaradas’, mas sem perder a criatividade! Vou coloca na minha lista.

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