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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Só Garotos, de Patti Smith

Chorar não está entre as reações que mais gosto de ter. Ironicamente, as minhas histórias preferidas são as que causaram esse efeito. Seja por alegria ou tristeza, um livro faz chorar quando o autor consegue colocar toda a emoção que sua história contém nas páginas. E surge uma obra inesquecível. Só Garotos, da roqueira Patti Smith, acabou de entrar para essa lista pessoal de bons livros. Vencedor do Prêmio Nacional do Livro dos EUA no ano passado, essa biografia lançada no fim do ano no Brasil pela Companhia das Letras transborda emoções em cada página. Um retrato de uma época cultuada pela arte que gerou, com duas vidas que respiraram poemas, músicas, pinturas e fotografia.

Patti Smith começou desenhista, virou poeta e assim foi por um grande tempo até ceder à ideia de ser cantora. Já na infância mostrava que tinha um futuro ligado à arte, ao devorar livros e criar histórias para seus irmãos mais novos, deslumbrada com o que conhecia através dessas invenções. Sua vida sempre seria dedicada à criação. Mas Só Garotos não conta apenas a vida de Patti. Na verdade, o livro não existiria sem Robert Mapplethorpe: fotógrafo que participou ativamente da vida da cantora, tanto na profissional e principalmente na pessoal.

Só Garotos é dedicado à relação de amor, amizade e companheirismo vivida entre Robert e Patti, a promessa de que ela contaria ao mundo a história que viveram. Narrando acontecimentos que vão principalmente do final dos anos 1960 até a morte de Robert, vítima da aids, em 1989, Patti oferece ao leitor todo o cenário artístico que havia em Nova York da qual tanto sonhavam fazer parte e que conseguiram adentrar. Ao “fugir” de sua cidade aos 20 anos de idade para ser artista, Patti se viu em uma Nova York sem casa e emprego, apenas com alguns amigos que eventualmente lhe davam teto e comida, e conseguiu, no meio desse lugar novo e deslumbrante, encontrar um companheiro que lhe inspirasse por toda vida.

Robert Mapplethorpe derramou sobre a Big Apple todos os sentimentos repreendidos durante a infância. Sempre teve vocação para a arte, tinha uma habilidade inconfundível com as mãos, e seus colares, pulseiras e colagens eram tudo o que tinha para sobreviver. Em Patti viu sua musa e companheira, com quem dividia o dinheiro, o estúdio e a cama e, juntos, trabalhavam: ele querendo a fama, ela apenas fazer arte. Patti cria no leitor uma vontade de procurar por tudo o que eles viveram. Sair sem planos e se dedicar ao que realmente gosta, apesar de todas as dificuldades. Patti conseguiu conferir romantismo até mesmo aos momentos mais críticos dessa trajetória, um ar mágico e atraente. O começo pobre no Brooklyn, a rápida e traumática passagem pelo Hotel Allerton e a chegada ao inspirador Hotel Chelsea, onde o ambiente artístico fez as portas se abrirem tanto para Patti quanto para Robert. Momentos difíceis mas necessários para o crescimento pessoal e artístico.

Os tempos passados no Hotel Chelsea são os que ocupam a maior parte da biografia, e também reúnem mais nomes famosos. Era ali, segundo Patti, que o cenário artístico de Nova York florescia, onde os novos encontravam os grandes. Onde Patti consolou Janis Joplin e conheceu Allen Guinsberg e muitos outros nomes da música e literatura. O hotel onde tantos criaram e consagraram como ninho da arte. Onde Patti, que durante tanto tempo se manteve longe das drogas, viu muitos sucumbirem aos seus vícios, interrupções tristes de vidas talentosas. Todos esses casos e os sentimentos de Patti sobre o que viu nesses dias compõem a parte mais memorável de Só Garotos.

Patti e Robert não foram durante todos os anos de convivência um casal. Enquanto a homossexualidade de Robert aflorava, transferido-a para seus trabalhos, Patti também conta seus outros amores. Mas mesmo separados, a amizade entre os dois, seu companheirismo, sempre prevaleceu, como se fossem duas pessoas dependentes uma da outra para criar. É incrível como Patti coloca a sensibilidade e criatividade de Robert acima dos seus excessos com as drogas e até sua prostituição nas ruas, que serviam também como inspiração e fonte de seus trabalhos. Patti coloca nessa biografia o mesmo romantismo que lia nos livros sobre o sacrifício em prol da arte, o que fez parte da vida de ambos.

Toda a emoção de Patti é transferida para objetos. Cada parágrafo possui detalhes apaixonados de artigos de arte, material utilizado na criação, lugares, discos, fotos e gravuras. Transferir o sentimento para os objetos é no que a arte consiste, logo tudo o que Patti sentiu com Robert ela conseguiu passar para o livro, um emaranhado de folhas de papel que também não passa de um objeto. Só Garotos é um trabalho de amor, sensibilidade e beleza. Impossível não se emocionar com tudo o que passaram, e principalmente com o fim dessa relação que manteve aceso os sonhos de duas pessoas e levaram elas até onde desejavam estar. Como a arte ultrapassa a morte, Patti conseguiu imortalizar Robert e seu talento em Só Garotos, assim como ele mesmo se manteve vivo através de suas fotografias.