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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Vergonha, de Salman Rushdie

Os vários atos que definem a palavra “vergonha” estão presentes no livro que leva esse sentimento como nome. Desonra, humilhação, afronta, timidez, vexame. Tudo isso ligado a um jovem país, que poderia ser o Paquistão, mas não, é um lugar fictício, fruto de uma mente fantasiosa. A mente de Salman Rushdie, que publicou em 1983 o livroVergonha, o sentimento que faz as pessoas corarem e abaixarem a cabeça perante leis, crenças e comportamentos rechaçados pela cultura ocidental. Em nova edição lançada ano passado pela Companhia das Letras, o romance que mistura política à fantasia esmiúça a vergonha de seus personagens, mostrando que dela surge uma fúria impossível de ser controlada.

O romance engloba a história das famílias de Iskander Harappa e Raza Hyder, que nos primórdios desse país fictício disputam o seu comando. Mas os verdadeiros protagonistas são Sufiya Zinobia Hyder, uma jovem rejeitada pelos pais por nascer mulher e com retardamento mental, que carrega dentro de seu corpo toda a vergonha da família, e seu marido, Omar Khayyam, médico criado por três mães sem religião, posição política e acanhamento. Uma relação estranha que envolve pessoas tão diferentes uma da outra, onde a mocinha encarna a fera e um pervertido assume o papel de heroi.

Salman Rushdie é o contador dessa história. Começando a narrativa pela infância de Omar Khayyam, a fantasia por trás de Vergonha é logo colocada em cena ao falar da mansão que o isola de todo mundo até a sua iminente partida. Em meio a esse relato, Rushdie tece comentários sobre a necessidade de falar da vergonha, da miséria e da corrupção de um país, julgando a índole de suas próprias personagens. E, principalmente, falar sobre a ambição descabida de seus governantes e do atraso social que afunda o país. Logo o autor passa para as disputas de poder e dramas familiares desses líderes, falando de seus laços, de cada membro importante para a trama política que envolve o romance e dos sentimentos de angústia e humilhação que vivem carregando, que são o ponto central de toda narrativa.

A vergonha, inicialmente, parece atingir apenas as mulheres da trama. Sufiya Zinobia ruborizou logo ao nascer, pressentindo que não era desejada. Arjumand, filha de Iskander Harappa, sente vergonha por estar presa em um corpo feminino que lhe tira a oportunidade de também ser líder. Bilquís Hyder, mãe de Sufiya, chora a chegada da primeira filha e sua limitação mental. Todas as mulheres com um sentimento de humilhação imposto por uma cultura opressora. Mas logo o leitor percebe que esse espírito está espalhado entre todas as personagens, homens, mulheres, ricos e pobres. Até Omar Khayyam, o então sem-vergonha, não deixa de ser atingido por ela. Ela se torna, então, tão opressora que explode em violência, uma fúria concentrada dentro de Sufiya Zinobia que faz a frágil menina se transformar em monstro.

Rushdie narra sem seguir o tempo cronológico, mas sim conforme os assuntos se desenrolam. Habilmente, ele carrega o leitor para passado e futuro sem deixá-lo confuso ao ir e voltar no tempo da narrativa entre uma personagem e outra.  Faz rodeios com as palavras para narrar um simples ato, o que confere o tom poético e fantástico que a história tem. Por mais real que o romance seja, o tom ficcional não abandona o livro em momento algum: seja ao narrar os ataques furiosos de Sufiya ou ao falar da estranha mansão onde as três mães de Omar Khayyam parecem ser imortais. Fantasmas surgem, a loucura toma conta das personagens, alucinações envolvem cenários e os tiram do plano real.

Vergonha no fim é isso: um livro que vai da humilhação à violência, das atitudes que levam um país à revolta, mas ainda mantém seus atrasados e desumanos costumes. Que tortura e maltrata e obriga as pessoas a engolirem o que realmente pensam, a se envergonharem de quem são e se sentirem diminutas perante aqueles que são iguais a elas. Salman Rushdie criou uma fantasia que não é para encantar, mas sim chocar ao mostrar até onde a vergonha pode levar uma pessoa, sua família e até seu país.