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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Nove Plantas do Desejo e a Flor de Estufa, de Margot Berwin

O título já profetiza alguma história com caráter de autoajuda, cheio de máximas motivacionais para levantar o moral e deixar o dia aparentemente mais bonito e a vida menos difícil. A sinopse, envolvendo uma mulher separada, filha da cidade grande e seu encontro com a natureza só aumenta mais essa impressão. Nove Plantas do Desejo e a Flor de Estufa (Intrínseca), de Margot Berwin, é, em parte, tudo isso. Mas além do clichê mulher-urbana-vai-pra-natureza-e-encontra-o-amor, Margot conseguiu deixar o livro ainda mais suspeito de ser lido ao tentar colocar magia e mistério no meio da trama.

Lila Nova era uma mulher bem sucedida como redatora publicitária, mas sua vida sofre um golpe ao ser abandonada sem explicação pelo marido. Sozinha em Nova York e desiludida, toma como lei o mantra “sem filhos, sem bichos, sem plantas”. Mas em certo momento – e o leitor não sabe por que – ela decide enfeitar o apartamento com uma planta, e aí conhece David Exley: um bonitão florista que lhe vende uma árvore e pelo qual Lila se apaixona. O interesse por Exley se estende para as plantas, e caminhando pela cidade à noite encontra uma misteriosa lavanderia repleta de árvores e flores e seu esquesito dono Armand, um homem não muito objetivo que revela guardar nos fundos do estabelecimento nove plantas raras.

Elas são as nove plantas do poder, cuja lenda garante que a pessoa que reunir todas terá tudo o que mais quer na vida. Amor, paixão, magia, dinheiro e muitas outras coisas que alguém pode desejar. Inesperadamente, Lila parte de Nova York com Armand para a Península de Yucatán em busca de sua própria felicidade, aventura e, como em qualquer romance água-com-açúcar, amor. Até aí Nove Plantas… segue o curso previsível desse tipo de livro. Lila se sente arrasada e nas plantas se ergue novamente para encarnar a mulher firme e bem-sucedida. Mas a partir do momento que coloca os pés no México, um teor forçado de magia e mistério envolve todo o livro, acabando com todo o sentido que a narrativa podia ter.

Talvez seja um pouco de impaciência do leitor, ou então a quantidade absurda de alucinógenos consumidos na história – a única explicação plausível para tantas reviravoltas e desfechos felizes instantâneos –, o fato é que Margot não consegue manter a coerência do texto. Regado de diálogos vazios e com obviedades sobre a vida e, principalmente, os relacionamentos, ela coloca novas informações à disposição do leitor conforme acha conveniente. Sua protagonista, como próprio Armand não cansa de repetir durante a trama, não passa de uma mulher desesperada por homens que não se acerta justamente por conta disso – o único comentário realmente relevante do livro e que deveria ser dito para muitas mulheres por aí.

Nove Plantas do Desejo e a Flor de Estufa poderia ser mais um romance adotado pelas mulheres como um novo Comer, Rezar, Amar, que traz novamente uma pessoa reencontrando a si mesma em uma viagem reveladora, o contato renovado com a natureza e o abandono da futilidade urbana. Contudo, a tentativa de fazer da história uma fantasia, um conto de fadas cheio de bruxas e magia, tirou qualquer seriedade que o livro poderia ter. Uma fantasia, quando bem construída, pode ser coerente e convencer o leitor de sua história, por mais invenção que ela tenha, mas Margot não conseguiu fazer a sua magia encantar o leitor.