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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Cidade da Penumbra, de Lolita Pille

Uma sociedade onde praticamente tudo é permitido e a liberdade e felicidade existem para todos está em um futuro próximo. A hiperdemocracia nos permite ter o que mais desejamos com injeções de dinheiro em contas bancárias, as mais sofisticadas plásticas e tratamentos de estética. Apesar do Sol não brilhar mais nessa Terra por conta de uma misteriosa fuligem que cobre o planeta, a vida segue na sua mais completa perfeição. Contudo, toda essa liberdade de Clair-Monde é uma farsa, um sentimento imposto a uma população alienada pelo consumismo. Cidade da Penumbra, novo livro da francesa Lolita Pille publicado pela editora Intrínseca, se baseia em grandes ficções do século XX para recriar uma sociedade que, por mais caricata que pareça, é muito parecida com a em que vivemos hoje.

Syd Paradine é a pessoa que percebe as imperfeições de Clair-Monde. Policial que trabalha na SPSM (Serviço de Proteção contra Si Mesmo), uma instituição que previne crimes e acidentes, começa a desconfiar que informações sobre seus casos são manipuladas para encobrir mistérios da cidade. O suicídio de um homem gordo – algo raro nessa sociedade em que a beleza dita tudo – abre seus olhos para alguma espécie de conspiração que esconde episódios importantíssimos desse novo estilo de vida. Sua curiosidade coloca sua vida em perigo, e ele passa a ser perseguido pelo SPI – o Serviço de Proteção da Informação. Sua busca por respostas e esclarecimento o leva até a misteriosa Blue Smith, irmã de um ex-colega dos tempos da Guerra dos Narcóticos que parece saber mais do que afirma. E enquanto os dois fogem para preservar a própria vida, toda a cidade se vê no meio de atentados terroristas que estabelecem o completo caos.

Quem disser que Cidade da Penumbra é um 1984 moderninho, acertou em cheio. O clássico deGeorge Orwell é claramente a principal referência de Lolita, assim como Aldous Huxley e outros grandes autores de ficção. O SPSM lembra muito Minority Report, por exemplo, com o trabalho de chegar à cena do crime antes de ele ser cometido. Porém, isso não é feito a partir de previsões, mas de dados concretos, fornecidos pelos próprios criminosos ou suicidas. A “tele-tela” de Lolita são os Rastreadores, aparelhos celulares que, além das boas e velhas ligações telefônicas, age como medidor de compatibilidade sexual, dispositivo que previne acidentes nas estradas e, principalmente, um confessionário. Todos os “assinantes”, moradores de Clair-Monde, devem se confessar durante 11 minutos todos os dias, obrigatoriamente. Essas confissões revolucionaram a publicidade, o comércio e, claro, a polícia, pois a Grande Central que recebe essas informações tem acesso total aos desejos e anseios da população. Uma vigilância constante com ares de liberdade.

Lolita Pille pega todos os desejos e costumes individualistas atuais e os coloca em patamares calamitosos. A prostituição, principalmente a infantil, está em todas as esquinas e é “normal”. As drogas são liberadas e praticamente toda a população vive em constante estado depreciativo. As cirurgias plásticas são incentivadas desde a mais tenra idade, até todos acabarem como verdadeiras múmias. Uma sociedade de fachada, afogada nos seus desejos mais obscuros e fúteis, com uma população completamente retardada, sem o mínimo de auto-crítica. Como uma a ex-cunhada de Syd Paradine diz ao se preparar para uma cirurgia estética: “Vou ser um objeto de desejo. O nada num magnífico casulo. E vou ser feliz, como só os imbecis e os filhos da puta sabem ser”. A inteligência e conhecimento são sacrificados por um sentimento falso de alegria e satisfação.

Apesar do tema repetitivo, Cidade da Penumbra consegue trazer uma visão bem assustadora de até onde nosso individualismo e consumismo irrefreável podem nos levar. Um fruto da irresponsabilidade e poder que aspectos materiais têm sobre a sociedade. O livro de Lolita Pille não se iguala à narrativa de George Orwell, é claro, mas também não deixa a desejar para o leitor que espera ler uma ficção envolvente e que traga alguma discussão relevante.