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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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O Efeito Facebook, de David Kirkpatrick

Antes de começar a ler O Efeito Facebook, do jornalistaDavid Kirkpatrick, o leitor deve ter em mente que o livro não pretende polemizar a criação da empresa que atinge a marca de bilhões de dólares criada por uma pessoa recém saída da adolescência. Não, o livro passa bem longe do queBen Mezrich fez em Bilionários Por Acaso, que inspirou o filme A Rede Social, de David Fincher. O que Kirkpatrick fez foi especular menos e informar mais. Publicado pelaIntrínseca (mesma editora de Bilionários), O Efeito Facebook traz toda a trajetória da rede social mais popular do mundo até o momento: do quarto de Mark Zuckerberg em Harvard ao grande escritório que atualmente ocupa em Palo Alto.

O autor tem a preocupação de justificar logo no início o porquê de fazer um livro sobre um site. E a justificativa está em uma manifestação realizada em Bogotá contra as FARC, força armada revolucionária da Colômbia que mantinha várias pessoas em cativeiro durante anos, uma delas a candidata à presidência Ingrid Betancourt. O protesto que reuniu milhões de pessoas no mundo todo nasceu na internet, ou melhor, no Facebook. Kirkpatrick quer com o livro mostrar a importância da rede social, o caráter transformador que site mostrou ter. A partir disso, o jornalista segue em um relato cronológico da história do site, resultado de várias entrevistas realizadas com os principais envolvidos na sua criação, como o próprio Zuckerberg, seus sócios e também seus investidores.

Aí está a grande diferença entre O Efeito FacebookBilionários Por Acaso, que romantiza a criação do site e se baseia basicamente no relato de Eduardo Saverin, quem primeiro injetou dinheiro no projeto e acabou sendo “chutado” da empresa. Bilionários é um livro cheio de suposições, o que não entra nas páginas do livro de Kirkpatrick, muito mais rico em informações. Há nele Saverin de menos – embora não deixe de lado os casos dos processos dele e dos irmãos Winklevoss – e Zuckerberg de mais. O livro quer justamente mostrar como um site criado por um garoto de 20 anos se tornou um dos empreendimentos de maior sucesso da última década. Como esse garoto teve que aprender de uma hora para outra a ser CEO, a negociar e a manter o seu negócio funcionando.

Por isso o que vemos é um Zuckerberg menos traidor e mais preocupado em fazer o Facebook crescer e, principalmente, aumentar o valor dele aos olhos dos usuários. Tornar o site verdadeiramente útil. Essa filosofia de negócio de Zuckerberg fez o Facebook ter pouco ou nenhum lucro durante anos, o que só aumenta o caráter de fenômeno do site: como algo que não gera retorno financeiro é tão estimado pelos investidores? Toda a cena que envolvia injeções de dinheiro para manter o site no ar e funcionando com a qualidade esperada é exaustivamente narrada por Kirkpatrick.

O que Mark Zuckerberg pensava do Facebook estava explícito em cada página. O Facebook é uma rede para conectar pessoas com quem já se mantinha alguma relação. Não é um site de relacionamentos para conhecer gente nova, embora isso também aconteça, mas um meio para se manter informado sobre sua rede de amigos. O fato de ser lançado apenas para universitários certamente influiu no seu sucesso. Como afirma Zuckerberg, é na universidade que as relações pessoais se intensificam. Por isso o site foi tão bem acolhido. Quando o assunto era pensar em que seus usuários queriam, Zuckerberg quase sempre acertava. Todos os altos e baixos do Facebook são apresentados para mostrar como funcionava o desenvolvimento do site e a cabeça de seu fundador, a visão que ele tinha de seu negócio e a reação de seus usuários a cada nova mudança.

Oi, eu sou o CEO

A questão da privacidade dos membros do Facebook tem destaque no livro. O Facebook claramente usa as informações que seus usuários divulgam em seus perfis para a publicidade. A preocupação é: o que uma empresa com dados privados de milhões de pessoas vai fazer com eles? Embora tenha mecanismos para aumentar a privacidade dos usuários, eles são pouco utilizados por conta de sua complexidade, conta Kirkpatrick. Mas assim como na vida real informações fogem de nosso controle, na web não é diferente. A conclusão que fica é que o usuário do Facebook colhe o fruto que plantou: se algo particular se espalha, bem, essa foi uma escolha sua ou de um amigo seu, o que poderia acontecer também no ambiente offline. Ainda assim, o que o Facebook fará com o que colocamos na rede é uma questão que assombra organizações que prezam pela privacidade.

Conforme o Facebook liberava acesso para todas as pessoas em qualquer país, David Kirkpatrick volta para a questão revolucionária do site. A forma com que população e governos enxergaram a rede social também foi determinante para o seu crescimento. E a força que a comunicação exerce sobre a ideologia e posição política de seus usuários se torna mais evidente. O autor ressalta que, mesmo invadido por joguinhos e atividades voltadas ao entretenimento, o Facebook tem papel importante em questões políticas e comportamentais em vários países. A própria situação do Egito, que terminou com a renúncia do presidente Mubarack nesse último sábado, já está em O Efeito Facebook, assim como outros casos em que o site foi determinante na união de pessoas por uma causa.

O Efeito Facebook é um livro para adoradores do site, de tecnologia e do mercado da internet. Apesar dos erros de revisão – nem o nome de Zuckerberg escapa deles –, contém material completo e bem organizado sobre esse sucesso que a cada dia consegue mais e mais usuários – espera-se que em 2011 o Brasil abandone o Orkut e migre para o Facebook. O site foi, certamente, um dos maiores fenômenos sociais, um serviço que consegue agregar quase toda a nossa vida dentro da internet. Ele exalta toda a genialidade e esforço por trás da criação e o amadorismo dos primeiros meses até atingir o status de mais abrangente empreendimento digital. Principalmente, esclarece a visão que seu próprio criador tem do site, e o que podemos esperar dele no futuro.