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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Os Últimos Dias dos Romanov, de Helen Rappaport

Um dos maiores e mais misteriosos episódios do século XX ocorreu logo no seu início. Na madrugada de 16 para 17 de julho de 1918, em uma Rússia comandada pelos bolcheviques, a família imperial, há 16 meses presa depois da Revolução, foi terrivelmente assassinada. Os Romanov, descendentes de uma dinastia que comandou o país durante 300 anos, foram vítimas do ódio daqueles que sofreram durante o reinado de Nicolau II, o último czar. Encarcerados na cidade siberiana de Ecaterimburgo, eles passaram as suas últimas semanas de vida afogados em incerteza e esperança. O relato sobre a rotina da família na casa Ipatiev, sua prisão, está no livro Os Últimos Dias dos Romanov, da historiadora Helen Rappaport, que chegou ao Brasil no ano passado pela editora Record.

Uma extensa pesquisa realizada pela historiadora, que a levou até Ecaterimburgo para falar com estudiosos e visitar locais por onde os Romanov passaram, reúne relatos de personagens que antes não tiveram tanta voz nas pesquisas. Pessoas que de perto viram os últimos Romanov sofrerem com a falta de informações sobre o que aconteceria com eles no futuro, em uma cidade que, na maioria, apoiava o regime czarista, mas que nada podia fazer pelos seus sete integrantes. Nicolau, sua esposa Alexandra e seus cinco filhos Olga, Tatiana, Maria, Anastasia e o caçula Alexei, apesar de católicos ortodoxos fervorosos e solidários, não tinham a popularidade entre o povo que os reis devem inspirar. Nesse livro que reconta o assassinato da família, além de falar das condições em que eles viviam, Helen traça o perfil de cada Romanov e faz um panorama do que acontecia na Rússia de 1918.

Embora a autora deixe claro que os Romanov não eram realmente santos, já que o regime czarista também teve seus excessos acentuados pelo antissemitismo e o despreparo de Nicolau, a bondade que exalavam era tão grande que conquistava inclusive os seus algozes. Proibidos de ter qualquer tipo de contato com o mundo exterior, os Romanov encontravam nos seus próprios guardas as pessoas com quem conversar e se distrair no pequeno espaço que tinham na casa Ipatiev. Acompanhados de seus mais fiéis empregados, que decidiram rumar para a “casa com um propósito especial” por conta própria, passavam os dias rezando por um milagre que os livrasse da prisão.

Enquanto a família agonizava, os bolcheviques, liderados por Lenin, tramavam a eliminação total da dinastia Romanov. Porém, o atual líder russo pretendia lavar suas mãos quanto a responsabilidade pela morte da família, o que faz dos relatos sobre o massacre serem ainda mais obscuros. Os bolcheviques trabalharam arduamente para despistar diplomatas, jornalistas, governos estrangeiros e a própria população sobre como os Romanov viviam e o que lhes aconteceria. Por isso a autora alerta no fim do livro que parte das informações dadas por ela eram conclusões suas, e não fatos realmente comprovados. Os bolcheviques montaram uma rede de mentiras e desinformação sobre a família, entre as maiores a de que a mulher e filhos de Nicolau estariam vivos, e apenas o ex-czar teria sido assassinado devido à proximidade da invasão tcheca à cidade naquela noite.

O relato mais impressionante do livro é o dessa noite em que ocorreu o massacre. Levados para o porão da casa Ipatiev para tentar abafar os sons da morte, a incompetência dos soldados liderados por Yurovsky, quem comandava a segurança da casa, transformou a planejada rápida execução em um show de horrores. Foram 20 minutos de sofrimento para eliminar os sete membros da família e seus quatro empregados remanescentes, um banho de sangue doloroso e que parecia não ter fim. Atitudes dos próprios Romanov contribuíram para o sofrimento durante a execução. Preocupados com perder seus bens em caso de mais uma troca de cárcere, três das filhas do czar e seu caçula tinham jóias costuradas em suas roupas íntimas, o que funcionou como um colete à prova de balas e retardou o encontro dos projéteis com seus corpos. Mas o que veio depois, o enterro dos restos mortais da família, consegue ser tão horrível quanto o massacre.

A morte dos Romanov ainda está envolta em mistérios. Os detalhes sobre o que realmente aconteceu na noite de 16 de julho de 1918 ainda não são conhecidos em sua totalidade, e o que se sabe é fruto de relatos distorcidos. Helen Rappaport alega que tentou ficar o mais próximo de fontes consideradas confiáveis, mas ainda assim Os Últimos Dias dos Romanov não pode ser considerado o relato definitivo da história da família. O que é seguro dizer é que o czar que só queria ser um pai e marido dedicado, sua esposa opressora, mas justa, e seus graciosos filhos, membros de uma família exemplar, ainda atraem a atenção de muitos curiosos. Hoje santos da Igreja Ortodoxa Russa, o governo do país ainda procura se redimir pelo covarde massacre, embora se esqueça que a liderança de Nicolau tenha passado bem longe da perfeição, e quem sabe algum dia possam dizer o que realmente aconteceu com os últimos membros da família imperial.

Para interessados na história do país, Os Últimos Dias dos Romanov é um livro que incitará ainda mais a curiosidade sobre esse fatídico episódio que marcou o início do último século e que foi um grande mistério durante dezenas de anos. E claro, vai ser conquistado pelos Romanov, que se nos tempos do regime czarista não eram bem vistos, hoje são exaltados pela bondade e simplicidade com que passaram seus últimos dias de vida.