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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Portal Fahrenheit, a última revista do Projeto Portal

Foram três anos publicando contos de autores brasileiros de ficção científica. Seis revistas reunindo esses contos ao mesmo tempo em que homenageava autores e obras do gênero. Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e agora Fahrenheit, o último “filho” do Projeto Portal. Organizado pelo escritor Nelson de Oliveira e distribuído entre leitores, críticos e acadêmicos, as revistas do Projeto me surpreenderam pela qualidade dos textos e imaginação dos autores. Infelizmente não li todos, apenas a partir do Fundação, mas desde o início apreciei os textos dessas pessoas das quais nunca ouvi falar antes. E com Portal Fahrenheit – a homenagem a Ray Bradbury, que infelizmente ainda não li – não foi diferente.

Ao contrário da revista anterior, em que seus autores apresentaram várias histórias bem humoradas e leves, Portal Fahrenheit vem com certa melancolia. A violência e as guerras estão mais evidentes, assim como a repressão aos desejos e sentimentos. Uma característica que força suas personagens a viverem em realidades paralelas, a criar sonhos e tentar sobreviver apenas com eles. E é assim que o livro abre. O primeiro texto é de Mustafá Ali Kanso, intitulado O mundo dos meus sonhos, em que seu protagonista, um engenheiro pouco imaginativo, consegue induzir um “sonho lúcido”, objetivo perseguido por sua mulher durante anos. A facilidade com que ele entra nesse estado de fantasia lhe tira da vida monótona de casado e lhe permite um encontro com uma bela mulher que sempre o recebe calorosamente. Embora não viva em uma sociedade opressora, a frieza de sua esposa é o bastante para motivá-lo a nunca mais sair desse estado adormecido.

O tema volta em Réquiem, de Petê Rissatti, em que um homem que vive em uma sociedade onde sonhar é proibido. A proibição pelo governo é controlada através de remédios que inibem o sonho. Quem tiver uma fantasia sequer está sujeito à prisão e sabe-se lá mais o que. A repressão dos sonhos aparece como uma tentativa de censura. Quem não sonha não reclama, não espera ter mais do que já tem, vive em um estado de constante acomodação com uma sociedade perdida. Em COMumAbílio Godoy também recorre ao tema para ambientar um reality show de pornografia e violência criada através daqueles que conseguem a lucidez em seus sonhos. Pessoas que criam cenários para puro entretenimento televisivo, fruto de uma tecnologia que projeta as imagens dos sonhadores a sofisticados aparelhos de TV. Nesses dois contos, os protagonistas buscam apenas a libertação: seja o de poder sonhar ou de se libertar de visões que é obrigado a ter.

Quando o assunto são viagens no tempo, Portal Fahrenheit oferece boas histórias. Uma delas é [Ficção Especulativa] de Brontops Baruq, em que policiais voltam no tempo para descobrir a identidade de criminosos e assim poder prendê-los o mais rápido possível. Uma viagem que não causa alteração no curso normal da história, o que permite aos viajantes fazerem o que bem entenderem em suas idas ao passado. O leitor percebe nesse artifício a mesma característica dos outros contos citados: uma realidade paralela, ou sonho, em que pessoas se escondem para externar seus sentimentos. A viagem no tempo aparece também Minhas Férias, de Ricardo Delfin, um dos textos de teor mais leve e humorístico desse livro, que narra as idas de um garoto para o passado e seus passeios pelo universo.

Deus é brasileiro?, de Sid Castro, é um dos textos que se destaca ao colocar a Igreja no papel que muitos conferem à ela atualmente: comandantes e opressores de um mundo onde as proibições religiosas chegam a um limite inaceitável. Apesar das armas de alta tecnologia e outros dispositivos ultra-modernos, o conto tem um ar medieval pelo teor de devoção irracional e alienação. Falando nos tempos medievais, Georgette Silen o aborda em A Senhora do Lago, em que a tecnologia se mistura à aura mística da lenda do Rei Arthur. O texto não é muito diferente dos outros que falam do mesmo personagem, mas é interessante a união de antiguidade com a modernidade em que a história está inserida. Voltando à religião, dois textos remetem o leitor à Virgem Maria: Os Olhos do Gato, de Luiz Bras, sobre um exército de mulheres frias e centradas, e O banho de Diana (sonata tripla em pi menor), de Bruno Cobbi, que coloca um grupo de mulheres em estado de devoção a uma gestante.

Portal Fahrenheit reúne uma gama variada de temas, lugares e personagens que agradam a qualquer leitor de ficção científica, assim como os outros volumes do Projeto Portal. Mesmo que nem todos os textos despertem simpatia e entram para a numerosa lista de leituras medianas, essa coletânea reserva ótimos exemplos de histórias futuristas, sociedades apocalípticas, textos que fantasiam o mundo da ciência em um país onde a ficção científica é vista muitas vezes vista como algo “menor”. Para aqueles que nutrem o hábito de pegar um livro e aleatoriamente escolher um conto, as revistas do Projeto Portal oferecem ótimo material para sentar e ler em 3 minutinhos.