Vou dizer que sou suspeita para falar da estreia de Guilherme Tauil na literatura. Muito suspeita. Conheço o Tauil e me sinto endividada com ele desde a Flip do ano passado, quando o arrastei da frente do telão da mesa com Robert Crumb para ir comigo a uma lojinha meio hipster comprar uma saia que eu vi e não me saia da cabeça. Por isso sou mais suspeita ainda, porque essa resenha pode parecer uma forma de me redimir. Mas não é, não. A resenha é sincera – juro. Principalmente porque prometi a ele dizer realmente o que eu penso sobre as crônicas – e uma poesia – que compõem seu primeiro livro, Prosa de Gaveta. E promessa é dívida.

Os textos de Tauil englobam desde histórias criadas em sua mente ou então baseados casos que ele mesmo viveu, enfeitados com seu bom humor e inteligência. Destino Traçado, o texto que abre o livro, já indica o que o leitor encontrará pela frente: casos cotidianos com um olhar debochado e otimista, que evocam um jeito alegre e simples de avaliar o que nos acontece. Em Destino Traçado, ele coloca Deus e seu protagonista em uma negociação sobre a vida que ele terá na Terra. Esse Deus tem uma personalidade que se repete em outras crônicas de Tauil: um troçador, que se diverte ao determinar como será a vida do homem. Que ri ao alegar que dá a ele a beleza e boa vida que deseja, conquanto que leia Paulo Coelho e seja fã de Calypso.

Manual do guarda-chuva é mais do que divertido: é útil. Quem enfrenta o centro de qualquer cidade em dia de chuva sabe bem que as dicas que Tauil podem realmente resolver parte dos problemas de visão causados pelas pessoas que usam tal objeto como arma. Isso é uma característica forte que conquista para os textos do autor. É impossível não se identificar com alguma cosia que ele relata. Principalmente com a crônica Leitores, em que exalta a companhia de um bom livro e sua praticidade. E com Ode ao Miojo, onde qualquer estudante ou pessoa que não sabe cozinhar vai agradecer pelo santo macarrão dos 3 minutos, que há muitos anos vem salvando vidas.

A risada não fica escondida durante a leitura de Prosa de Gaveta. Os “manuais” que Tauil faz, práticos e objetivos, faz abordagens criativas do cotidiano, que são tão rápidas que dá vontade de relê-las logo em seguida. O Gato e o Monstro, um relato dramático das tentativas de dar remédio a um gato, se encaixa tão bem nesse formato que fica ainda mais visível todas as peripécias felinas para fugir do medicamento.Caderno de Receitas do Caos é de dar inveja ao Coringa, com ingredientes simples e práticos para acabar com o mundo ou montar uma “bela” programação na televisão em um domingo. E aquela uma poesia? Também não desaponta, embora não tenha o mesmo bom humor dos outros textos, tem a beleza que se precisa para narrar uma vida do nascimento à morte.

Cada história contada por Guilherme Tauil não traz realmente algum novo assunto ou visão à tona. Mas trata dessas pequenas cenas do dia-a-dia como poucos conseguem, com inteligência e sagacidade que faltam a muitos autores conhecidos por aí. E Tauil está só começando. Ele diz que quando ler esses textos posteriormente vai achar tudo uma porcaria. Eu não vou deixar ele dizer isso. Infelizmente, você não vai encontrar Prosa de Gaveta por aí. O livro é uma produção independente do autor e não está à venda. Foram 300 exemplares distribuídos entre amigos e conhecidos. Mas você pode ter contato com os textos de Tauil em sua nova coluna no site Artilharia Cultural. E quando se deparar com algum livro com o nome dele em uma livraria – porque isso vai acontecer –, leia com fé. Vai valer a pena.