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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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As Entrevistas da Paris Review

A orelha do primeiro volume de As Entrevistas da Paris Review, recém publicado pela Companhia das Letras, diz tudo o que o leitor precisa saber sobre uma das maiores revistas literárias em circulação. Criada em 1953, a Paris Review é sinônimo de qualidade, com material rico em informações sobre grandes autores e obras recolhido e editado criteriosamente. Ao abrir o livro, o leitor dá de cara com um simples sumário e logo os maiores escritores se revelam aos seus olhos pelas impressões daqueles que os entrevistaram. Traduzidas por Christian SchwartzSérgio Alcides, as entrevistas englobam todo o período de publicação da revista até os dias atuais, uma leitura que desde as primeiras páginas se mostra deliciosa e muito interessante.

As 14 entrevistas que compõem o volume feitas com W. H. Auden, Billy Wilder, Doris Lessing, Ernest Hemingway, William Faulkner, Javier Marías, Ian McEwan, Amós Oz, Jorge Luis Borges, Louis-Ferdinand Céline, Paul Auster, Primo Levi, Manuel Puig Truman Capote são dispostas em ordem cronológica. São nomes nada desconhecidos da literatura mundial, autores de obras contemporâneas cuja leitura é quase obrigatória. Não há nenhuma informação sobre o critério de seleção dessas entrevistas, mas a sua leitura justifica a presença de cada autor por si só. E o fato de que esse é só o primeiro volume de trabalhos da Paris Review mostra que ainda há muitos bons autores para conhecer melhor.

Começando com Faulkner em 1956, o leitor logo nota que As Entrevistas da Paris Review é uma fonte inesgotável de boas frases e citações. “O artista não tem importância. Só é importante o que ele cria, já que não há nada de novo a ser dito”, responde ele à Jean Stein ao ser questionado sobre o motivo de não gostar de conceder entrevistas. É uma forma no mínimo irônica de dar início a um livro que foca tanto no artista quanto na sua criação. Daí em diante, todos os nomes dessa coletânea respondem às perguntas com o mesmo cuidado e talento com que escreveram seus livros, oferendo ao leitor reflexão e boas histórias.

O livro mostra a visão dos autores sobre a arte da escrita e seus processos de criação, e enfatiza a diferença entre métodos e pensamentos de cada um. Ao mesmo tempo, mostra que muitas opiniões sobre a literatura coincidem bastante. O fator mais visível nas falas dos escritores é que não existe uma “fórmula” para escrever. É uma alegação clichê, mas ao ver tantos autores falarem de como produzem, o leitor realmente entende que cada um tem um ritmo e método único para criar uma história. Seja de um jeito mais metódico, como Ian McEwan, ou totalmente sem planos, como Javier Marías. O que eles precisam é de uma ideia, personagens – que muitos alegam ter vida própria – , talento, disciplina e, o mais importante, muita leitura.

Da esquerda para direita: (em cima) Truman Capote, Doris Lessing, William Faulkner (embaixo) Billy Wilder, Jorge Luis Borges e Ernest Hemingway.

Qualquer estudante ou jornalista aficcionado por grandes entrevistas deve invejar todos os profissionais que tiveram o prazer de escrever para a Paris Review. Cada entrevista é, na verdade, uma conversa. Um trabalho de vários encontros, que leva meses ou anos até sua publicação. As entrevistas da revista são o resultado de um trabalho lento, demorado, e por isso mesmo invejável. É o sonho de qualquer jornalista poder se dedicar tanto à um só texto. Considero que é esse o tipo de material que um leitor gostaria de ver todos os dias nos jornais, mas a própria natureza dos textos torna esse trabalho praticamente inviável nas nossas redações.

O resultado desse trabalho não é somente uma reunião de relatos sobre a literatura, mas a exposição da história de vida e ideias de cada autor que enriquecem a experiência da leitura de suas obras. Cada entrevista é aberta por um texto introdutório que revela algo a mais ao leitor, fruto da regra que a faculdade de jornalismo e os profissionais experientes não cansam de repetir aos novatos: é imprescindível a observação dos detalhes e do ambiente em que se está. Tudo para poder oferecer ao leitor, além da voz dos entrevistados, uma visão do lugar em que vivem e criam, elementos que revelam características sobre uma pessoa tanto quanto as suas próprias respostas.

Durante a leitura é impossível não rir com Capote falando de sua juventude em uma conversa aberta e simpática com Patti Hill em 1957, em que relembra suas bebedeiras adolescentes “escondidas” da família. Suas respostas são longas e envolventes, prendem o interesse e atenção do leitor em cada assunto discutido. Já com Hemingway as respostas são mais secas – outro autor que não gosta muito de entrevistas -, com constantes cortes e críticas às questões levantadas pela jornalista com quem falou. Mas ainda assim, é um bom relato sobre suas leituras, sobre as  facilidades e dificuldades que encontrava ao escrever.

As capas da edição da Companhia das Letras, uma diferente da outra.

Jorge Luis Borges também respondeu as questões feitas por Ronald Christ com muita naturalidade, contando pequenos causos que incrementam as respostas sobre suas pesquisas da língua inglesa, cinema e questões que envolvem seus romances. Doris Lessing também é um destaque da Paris Review, principalmente ao falar de seus livros publicados sob o pseudônimo de Jane Somers, uma brincadeira que armou para testar o mercado editorial e avaliar a recepção dos novos autores. Indo além dos escritores, a entrevista com o roteirista Billy Wilder é outro texto cativante e bem humorado, este dedicado apenas ao cinema norte-americano. Ele realmente se debruçou em sua história para falar sobre a experiência de escrever roteitos para grandes filmes, a relação entre roteirista e diretor e outros profissionais da área cinematográfica.

Publicada em 1964, o texto com Céline é fruto de três encontros realizados em diferentes anos, e mostra já a decadência do autor, amargurado e arrependido com os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, quando assumiu seu antissemitismo – fato que inclusive tirou seu nome do calendário de comemorações culturais da França e gerou polêmica esse ano. As entrevistas com McEwan, Oz e Paul Auster são quase suas biografias, com perguntas que centraram-se na família dos escritores, sua juventude e influências literárias, também falando muito do início da carreira de cada um.

As Entrevistas da Paris Review é um livro para despertar o desejo pela escrita e leitura em qualquer pessoa. Conhecendo ou não os nomes presentes no livro, ver como cada autor entende a literatura e entrou ocasionalmente nesse meio aumenta ainda mais o interesse pelas suas obras. É leitura recomendada para jornalistas pelas entrevistas impecáveis, e à qualquer leitor que procure por se aproximar da obra e, porque não, da vida daqueles que produziram os livros mais aclamados da cultura atual. No fim, o leitor se sente incentivado a ele mesmo fazer suas incursões pela escrita, ainda mais se ele é constantemente perseguido por histórias e personagens que, segundo alguns escritores, só se acalmam quando postas no papel.