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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Ficção de Polpa – Crime!

Assassinatos estão sempre envoltos em uma aura atraente de mistério. O detetive, a pessoa designada a resolver casos estranhos que desafiam a mente, é tão atraente e sedutor quanto o próprio crime. A figura do detetive decadente, mas esperto, e esses casos mirabolantes estão presentes no livro Ficção de Polpa – Crime!, quarto volume da série de literatura de gênero1que já abordou horror e fantasia, organizados por Samir Machado de Machado e lançado hoje pela Não Editora. De Sherlock Holmes à reality shows futuristas, os autores que fazem parte dessa nova edição trazem de volta todo o glamour das investigações que tanto adoramos nas histórias policiais e casos narrados com o mistério e ação na dose exata.

A parte gráfica do livro já é um atrativo à parte. Inspirado nas revistas pulp dos anos 1930 e 1950, como explica o próprio Samir em seu blog, a capa remete às tradicionais histórias de investigações policiais. Mas essa impressão não está apenas do lado de fora: dentro o livro também atrai, com os textos diagramados em duas colunas, todos ilustrados e até com anúncios antigos, parecendo realmente uma daquelas famosas revistas. Anúncios esses que se encaixam em cada um dos 6 contos da edição – mais a faixa bônus -, que não se passam necessariamente em tempos passados.

O leitor confronta o estilo vintage do livro com a modernidade logo no primeiro conto, As Muralhas Verdes, de Carlos Orsi. Um detetive é contratado para resolver um caso de assassinato dentro de um reality show onde os participantes vivem em uma casa de vidro. O grande desafio está em descobrir o criminoso em um lugar em que nem as câmeras foram capazes de filmar as ações do assassino. O detetive de Orsi é a personificação do homem mulherengo, charmoso e inteligente, que presta tanta atenção às mulheres quanto ao caso que deve resolver.

O próximo conto já muda os ares do livro e está mais ligado ao psicológico. Em A Conspiração dos Relógios, o português Yves Robert cria um detetive com um amigo imaginário: um grande coelho azul e felpudo. Se esse fato já não fosse estranho, o resto da história diferencia o conto de todos os outros. O caso em que ele trabalha é descobrir porque uma jovem é perseguida pelos relógios digitais. A cada vez que ela olha por acaso para um relógio, ele mostra números sequenciais, iguais ou simétricos. Embora com essas diferenças, o detetive de Robert ainda mantém aquele ar de atração e astúcia, e cabe à ele o desafio de descobrir que tipo de “conspiração” os relógios estão tramando contra sua cliente.

Em A Aventura do Americano AudazOctávio Aragão revive o mais famoso dentre todos os detetives: Scherlock Holmes. O mistério todo está na morte de um jovem americano cujo pai quer descobrir o que aconteceu ao filho. Todo o conto, narrado pelo assistente Watson e “transcrito” por Aragão, trabalha na maior habilidade de Holmes, que é a dedução. A cada novo personagem que adentra o texto, o detetive usa seus conhecimentos dedutórios para fazer graça e apresentar ainda mais características da história ao leitor. E, claro, mostrar toda a inteligência por trás da figura do detetive, exaltando o “rei” de todos os outros investigadores do livro.

Os contos mais diferentes do habitual em Ficção de Polpa – Crime! são os que vem logo em seguida. A Carne é Fraca, de Rafael Bán Jacobsen, e Agulha de Calcário, de Carol Bensimon, não usam o detetive, mas fazem as próprias testemunhas, assassinos e vítimas contarem as suas histórias. Os dois contos são narrados em várias vozes, e mesmo com essa semelhença de estilo, são muito diferentes entre si, mas igualmente intrigantes ao leitor. No primeiro, Jacobsen chega a aterrorizar o leitor com os mistérios que envolvem um açougue de Porto Alegre do século XIX – nada como um crime num lugar que naturalmente cheira à sangue e carne. Já Carol não fala exatamente de uma investigação, mas mostra ao leitor os passos que precedem o crime, revelando aos poucos informações que formam todo um cenário para um assassinato em uma pequena praia francesa. Ambos os contos agradam pelo formato diferenciado e pelo mistério, e até horror,  que conseguem evocar.

Totalmente ambientado na Porto Alegre atual, Carlos André Moreira apresenta o jovem investigador Roszynski em Um dos Nossos. Aqui não existe detetive particulr charmoso nem nada, mas saim a própria polícia que deve trabalhar na solução do assassinato de um ex-policial. A narração da investigação lembra as atuais séries policiais, e coloca o investigador em um papel maior do que simplesmente resolver o caso. Aqui e lida com questões éticas e morais com que envolvem a profissão. Logo nas primeiras linhas, se percebe uma ligação maior do que a profissional entre Roszynski e os crimes com que já trabalhou e um certo julgamento às atitudes de seus colegas. Assim, o texto trabalha muito mais a ação, com tiroteios e muito sangue, do que com apenas a dedução. Mas esse não é o fim do livro: ainda há uma faixa bônus que o encerra com um conto de Ernest Bramah apresentando o seu famoso detetive cego, Max Carrado, mais uma ótima história com um personagem diferente e encantador.

Ficção de Polpa – Crime! é mais um volume de leitura obrigatória para quem gosta de literatura de gênero. E aos amantes de histórias de detetive, contém textos para os mais diversos gostos, seja de enredo ou mesmo da própria estrutura em que são escritos. Seja lendo um “clássico” caso de Scherlock Holmes ou acompanhando as atrocidades de um açougue macabro, Ficção de Polpa – Crime! mata a vontade de ler histórias repletas de sangue, mistério e inteligência. E o melhor, mostra que por mais que as personagens sejam parecidas, o mistério nunca é igual.