Quando a notícia de que Robert Crumb, o grande nome da contracultura, faria uma versão em quadrinhos do primeiro livro da Bíblia, todos ficaram surpresos. Os trabalhos que tornaram Crumb famoso passam bem longe da religiosidade, assim como ele mesmo, um ateu. Suas histórias são “marginais”, com muita droga e sexo, que nos anos 70 confrontaram os valores morais ocidentais. Então como o nome mais aclamado dessa cultura underground decidiu ilustrar justamente o primeiro livro da Bíblia? E mais: qual seria o resultado desse trabalho? Em 2009, todos ficaram sabendo. O resultado foi Gênesis, uma obra que leva a sério o livro que “fundou” a cultura ocidental, que ressalta cada passagem escrita, reescrita e editada tantas vezes através dos séculos.

Para quem não sabe – o que é difícil –, o livro Gênesisnarra a criação do mundo por Deus e também a história dos primeiros povos que habitaram a Terra e que deles descendem toda a humanidade. É o livro que fala de Noé e sua arca construída para sobreviver ao dilúvio provocado por Deus; da vida de Abraão, Isaac e Jacó; da destruição de Sodoma e Gomorra e, por fim, fala de José, um dos filhos de Jacó, que ascendeu no Egito. Crumb, antes de dar início ao quadrinho, explica ao leitor como escolheu o texto a ser utilizado nesse trabalho, levando em conta as várias versões existentes da Bíblia, e ressalta também que o utiliza na íntegra, uma prova do respeito pelo que iria ilustrar.

Finalmente na graphic novel, o leitor familiarizado reconhece facilmente os traços de Crumb: homens imponentes, mulheres robustas, cuidado nos detalhes. O Deus de Crumb é forte, um ser mais alto que a sua criação, de barba e cabelos que quase tocam o chão, com semblante sério, majestoso, a visão clássica do criador do mundo. Os homens são a sua imagem e semelhança, igualmente de cabelos e barba longos, porém visivelmente inferiores na condição de servos de Deus, e muitas vezes assustadiços. As mulheres são curvilíneas – totalmente fora do padrão de beleza atual que exalta a magreza –, com feições também diferentes do que geralmente consideramos ser “bonito”, e possuem um ar de força. O desenho dessas pessoas é muito semelhante, às vezes difícil de distinguir, e imagina-se o trabalho de Crumb para criar novas feições para todas as pessoas citadas na Bíblia. Em momentos em que o texto lista toda a linhagem de um homem, ele faz questão de dar um rosto a cada um, fazendo mudanças nos detalhes, como em acessórios e roupas.

Os quadros de Crumb focam no que cada versículo de Gênesis diz, logo não se têm planos abertos como costuma aparecer nas primeiras páginas dos quadrinhos tradicionais. São fragmentados e diretos como o próprio livro é. Assim Crumb carrega a mão nas feições e ações de cada pessoa, foca no que ela sente. Ele usa fundo escuro, totalmente preto, nos momentos de tensão e angústia, utilizando um halo luminoso em volta dessas personagens para representar surpresa, medo, tristeza ou alegria. Nisso está o sucesso de Gênesis: cada quadro desenhado por Crumb dá importância a cada versículo do livro, e o leitor dá atenção aos detalhes de todas as frases escritas nele. Ao fim da leitura, no momento em que o autor comenta cada capítulo falando de sua interpretação e escolha de como ilustrar, o leitor percebe ainda mais esses detalhes e nota como o estudo feito por Crumb para esse trabalho foi determinante para a obra.

Como, por exemplo, a força presente nas ilustrações das mulheres. Baseando-se em um livro da pesquisadora Sevina Teubal, em que fala sobre a existência em conjunto do modelo patriarcal e matriarcal nesses momentos bíblicos, o artista adota a ideia e coloca nos trechos em que as mulheres lideram o diálogo uma carga de respeito e poder maior, explicita essa característica através dos desenhos. Ao revelar essa pesquisa, Crumb faz o leitor perceber que a mulher tem influência maior no livro Gênesis do que ele antes pensava. Essas notas finais com comentários de Crumb esclarecem sua interpretação do texto bíblico também em outras passagens, o que enriquece ainda mais essa edição. Notas sobre a tradução dos termos hebraicos também procuram esclarecer as falas do texto.

Gênesis foi na verdade o meu primeiro contato com a obra de Robert Crumb – já havia visto seus quadrinhos antes, reconheço seu desenho, mas nunca li definitivamente uma de suas graphic novels. E realmente não sei o que me levou a escolher justamente esse trabalho como o primeiro a ler dele, isso porque também costumo manter uma grande distância entre mim e a religião. Mas Gênesis tem a capacidade de agradar até aqueles que rechaçam qualquer argumento baseado na Bíblia. Ao mesmo tempo que se mantém fiel ao texto sagrado, consegue conferir um novo olhar à ele através das ilustrações, uma certa dualidade que só aumenta a reflexão sobre o livro, acreditando no que ele diz ou não.