Três Sombras, de Cyril Pedrosa

Quando três sombras misteriosas surgem no horizonte, a vida de Louis, Lise e seu filho Joachim muda da alegria para o medo. Encapuzadas e de rostos obscurecidos, as sombras se tornam constantes, vigiando a rotina dessa família que antes era tão tranqüila e inocente, escondida pelas colinas de uma paisagem medieval. Uma vida invejável, onde pássaros cantam, rios correm limpos, frutas crescem saborosas e o único dever é aproveitar e preservar esse cotidiano. As sombras destroem essa vida, mas não diretamente. Elas agem pelo medo do desconhecido, e temendo que elas tenham aparecido para levar o pequeno Joachim, Louis parte com o filho para uma viagem por lugares tão diferentes de sua realidade pacata para tentar salvá-lo.

Essa é a história de Três Sombras, quadrinho do francês Cyril Pedrosalançado esse ano aqui no Brasil pela Quadrinhos na Cia., com tradução de Carol Bensimon. Com traços bem movimentados em um desenho que lembra rabiscos, mas cheios de detalhes, Pedrosa criou uma fantasia que encanta e emociona ao mostrar um imenso amor pela família que leva pessoas simples a enfrentarem os mais diversos desafios para preservar sempre por perto aqueles que amam.

A jornada de Louis e Joachim passa pela travessia de grandes rios, cidades e nevascas onde não enfrentam apenas o medo pela aproximação das sombras, mas também a mesquinhez e imoralidade de uma sociedade que se importa apenas com seus bens e riquezas. De forma inteligente e sensível, Pedrosa monta o perfil de inocência e decência de Louis, um homem gentil com personalidade forte, que não tem medo de criticar as escolhas e comportamentos das pessoas que encontra durante sua fuga. O pequeno Joachim reflete o pai, mas mantém uma calma e serenidade que por vezes faltam à Louis.

Os perfis bem construídos mais os traços de Pedrosa fazem com que a história nem precise de muitas palavras em suas cenas. Assim, muitos quadros passam pelos olhos do leitor sem que ele precise ler uma linha, mas apenas observar as expressões e movimentos tão bem desenhados pelo autor.

Ao cruzar com Três Sombras, não fuja de sua leitura como Louis e Joachim fogem das três silhuetas que os perseguem. Encare as sombras, a vida pacata e as personagens que compõem essa fantasia em quadrinhos e você será contemplado com uma história linda sobre um amor que enfrenta perigos para preservar momentos alegres. Alguns prazeres, infelizmente são curtos, mas ler Três Sombras é um desses que podem ser repetidos incansavelmente.

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2 Responses to Três Sombras, de Cyril Pedrosa

  1. Brontops says:

    Oi

    Uma coisa que não sabia sobre este livro é que o autor decidiu escrevê-lo após uma tragédia ocorrida com amigos (Vi no UniversoHQ, não dá pra contar sem risco de fazer spoiler).

    Gostei muito do traço e da narrativa. Me parece que algo “sobrou” na história, mas não sei exatamente o que é. Em todo caso, vale a pena, especialmente se você curte quadrinhos diferentes daqueles mais “banais”.

    Apesar disso não se compara a “O Pato, a Morte e a Tulipa” (Cosac & Naify). A história não deve ter trinta linhas e sempre que leio, choro. Procure na estante de infantis.

    Bjk

  2. cyr says:

    concordo com o comentário de Brontops quanto a algo “sobrando”… em minha opinião é a sequência em que as três vão recuperar a vida de louis tomada pelo trapaceiro. totalmente desnecessária, narrativamente, apesar de magistralmente desenhada.

    o traço de cyril pedrosa para mim é um achado! lembrou-me o lorenzo mattotti de “estigmas”, outra hq de primeira e que merece reedição. não se trata de rabisco, mas de nanquim mais seco no pincel, técnica aliás bem difícil… remete a artistas de outras tradições, como a chinesa e a japonesa, em que a linha tem um papel muito mais importante do que o de instrumento na construção de personagens e objetos, cumprindo fundamentalmente a função de evocar estados psicológicos. tradições de escrita ideogramática como essas encaram o desenhar como escrever, o escrever como desenhar, numa dança de signos. a enganosa simplicidade de cyril pedrosa vem de um lugar semelhante, como fica evidente na repetição de formas-signos usadas para fumaça, para nuvens, para árvores…

    é sem dúvida um livro que merece releituras e aprofundamentos.

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