a-poetica-do-contoO conto é um gênero literário que parece ter pouco espaço entre os leitores brasileiros, mas bem visto entre os escritores. Ao escolher a próxima leitura, noto que o leitor prefere os romances longos, cheios de personagens e enredos com mil reviravoltas. Enfim, dão preferência às histórias que se aprofundam no que pretendem contar. Com os contos tudo é diferente: não é apenas o tamanho reduzido que proporciona leitura curta, mas também a própria abordagem de uma história, que age com mais ação e intensidade. Para o leitor amante de romances, o livro A Poética do Conto: de Poe a Borges – um passeio pelo gênero, do professor Charles Kiefer e publicado pela editora Leya, não serve apenas para conhecer mais o conto, mas para ver sua grandeza na literatura.

Para falar desse gênero, Kiefer aborda no livro a produção crítica e literária de três grandes autores que dedicaram a vida ao conto: o pai da literatura policial Edgar Allan Poe e os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges. Nomes conhecidos que veem o conto como o gênero onde o autor pode mostrar de forma mais única todo o seu talento. A pesquisa de Kiefer se divide em três partes, cada uma tratando de um dos autores estudados e suas leituras. Assim, o leitor tem acesso às críticas de Poe ao escritor Nathaniel Hawthorne, às de Cortázar a Poe e às de Borges a todos os escritores anteriores. Esse é um exercício que define o conto ao mesmo tempo em que mostra como cada autor o enxergava e o que colocavam em seus próprios textos. Kiefer também avalia se eles seguiam as regras estipuladas em seus ensaios e resenhas em suas próprias obras.

Charles Kiefer usa uma estrutura padrão para apresentar a poética do conto. Ele utiliza as palavras dos próprios autores analisados para formar essa poética, apresentando ao leitor a síntese dos livros utilizados nesse estudo e também das resenhas publicadas pelos seus objetos de análise. Ele destrincha todo o livro Twice-told Tales, de Hawthorne, classificando cada conto conforme seu gênero, enredo, narrador, tempo, espaço e tema, colocando essas informações em tabelas que simplificam a visualização para o leitor. O mesmo ele faz com Tales of the Grotesque and Arabesque, de Poe, O Bestiário, de Cortázar, e Ficções, de Borges. A partir das análises dos contos, ele utiliza a palavra dos próprios autores para definir o que é o gênero e como ele se comporta.

Edgar Allan Poe produziu três resenhas para o livro de Hawthorne em que elogia a criatividade e originalidade do autor – todas em anexo no final do livro –, mas onde ao mesmo tempo critica o caráter alegórico, cercado de conclusões morais, que o escritor usa para fechar várias de suas histórias. Até o título do livro é alvo de crítica de Poe, que segundo ele, não engloba todo o seu conteúdo. Poe coloca o conto acima da poesia, ensaio e romance por conta da totalidade de sua leitura: o conto prende e se fixa no leitor por poder ser lido em uma ou duas horas, enquanto na leitura de um romance ele seria interrompido e influenciado por fatores externos ao livro. Poe prega que cada palavra do conto deve ter um propósito e encaminhar o texto para esse fim. Kiefer mostra que, embora alguns de seus textos apresentem caráter alegórico, a maioria segue as próprias “leis” que impõe.

Julio Cortázar, ao fazer uma leitura de Poe, simpatiza com suas ideias e usa-as como base para suas próprias histórias. Como ele concebe o conto como uma unidade que deve ser lida na sua totalidade. Na segunda parte do livro, Kiefer destaca as traduções e livros de contos de Poe organizados pelo argentino, que no ensaio Poe: o poeta, o narrador e o crítico, aborda toda a vida do autor e sua trajetória literária. Já Jorge Luis Borges, em suas leituras de Hawthorne, Poe e Cortázar, pende muito mais para o estilo de composição literária do primeiro autor, com predominante teor alegórico em seus textos e de maior variação estilística e temática. Com essas diferenças bem evidenciadas entre a produção de cada autor, Kiefer mostra como o gênero conto pode englobar os mais diversos temas e estilos e, assim, encantar e prender a leitura tanto quanto o faz um romance, e ser tão belo quanto um poema.

A Poética do Conto é um livro objetivo que não se estende muito por teorias e outros aspectos próprios do estudo literário. Ele levanta um panorama sobre o conto, esclarece sua produção e define a importância desse gênero para esses três grandes autores da literatura, que não só contribuíram para a criação de novas narrativas e mundos, mas também para a análise da própria produção literária. Vê-se no livro muito mais das palavras de Poe, Cortázar e Borges do que do próprio Kiefer, que figura como um agente que organiza os pareceres de cada autor. Leitura recomendada para se interessar, ler e aprender mais sobre o gênero tão utilizado pelos novos escritores daqui.