autobiografia-de-um-ex-negroEm 1912, um livro intitulado Autobriografia de um Ex-Negro foi publicado nos Estados Unidos. Sem identificação de autoria e com um narrador sem nome, o livro foi tomado como um relato real das condições raciais nos EUA no final do século XIX e começo do XX. Em 1927, o livro ganhou uma segunda edição, dessa vez com autoria creditada à James Weldon Johnson, um dos principais nomes pela luta dos direitos dos negros no país. Em 2010, Autobriografia de um Ex-Negro ganhou sua primeira tradução para a língua portuguesa por Robertson Frizero, publicada pela editora 8Inverso. Considerado um clássico da literatura afro-americana, a falsa autobiografia revelou à sociedade como a questão racial era vista e discutida entre brancos e negros depois da Guerra Civil.

O protagonista/narrador inicia sua história pela infância. De pele clara, ele foi confrontado com sua origem ao ser classificado como negro por sua professora da escola. Filho de mãe negra e pai branco, o garoto inteligente e talentoso que adorava piano abraçou a cultura e comunidade negra e sentiu diretamente o tratamento diferenciado que os negros recebiam. Mas na verdade, ele mesmo passou a se ver e se tratar de modo diferente. A questão sobre igualdade de direitos para os negros virou um assunto de extremo interesse, avaliando as diferentes nuances com que o negro vê o homem branco e vice-versa.

Partindo para o Sul dos EUA, onde os negros são tratados com mais hostilidade, o protagonista de Johnson cultiva a simpatia e semelhança com as classes minoritárias. Observador, o narrador apresenta ao leitor a visão dos brancos sobre os negros e a forma com que eles os tratam, dividindo-os em três grupos. O primeiro seria o dos negros miseráveis e criminosos, constantemente usados como argumento para desclassificar a raça e rebaixá-la a animais. O segundo é o grupo de negros serviçais, operários e empregados que seguem as leis, vistos pelos brancos como pessoas simples e dignas de um pouco de respeito. O terceiro é o de negros de sucesso, com tanto dinheiro e poder quanto os brancos, mas rechaçados por eles assim como os negros do primeiro grupo. A interpretação dessas constatações é a de que os brancos só toleravam negros quando esses são serviçais, submissos à eles, e o fato de eles poderem ser tão poderosos quanto os brancos  era uma afronta. Infelizmente, essa é uma visão que muitos ainda tem dos negros.

James Weldon Johnson retrata cada momento da vida do protagonista colocando-o em diferentes situações e vivências. Dos dias em que viveu com os negros cubanos em fábricas de charutos à vida de boêmio em Nova York. Da viagem pela Europa com seu “amigo milhonário” à volta ao Sul dos EUA. Esse é o trecho em que o narrador mais confronta opiniões sobre a questão racial. O destaque está em uma conversa com um médico negro, questionando-o sobre como se sentia ao ser destratado pela cor, em que ele responde que só se incomoda quando o preconceito influi na sua liberdade. Em outro diálogo, o narrador observa a discussão entre um velho soldado da Guerra da Secessão e um texano, em que falam sobre o tratamento reservado aos negros e confrontam a visão nortista e sulista. Nessa conversa, Johnson utiliza argumentos pró e contra a liberdade e igualdade aos negros em uma discussão acalorada que tem o ápice na pergunta: “Se os anglo-saxões são a fonte de tudo o que há de bom e sublime na raça humana desde o início dos tempos, por que não foram as florestas alemãs as que viram o nascimento da civilização?”

Apesar de muitas demonstrações de respeito à raça negra que o narrador presencia, um ato de barbárie o coloca em cheque sobre sua real identidade: ser branco ou negro. Tomando uma atitudude individualista, ele escolhe viver se passando por uma pessoa branca, escondendo sua origem, mas não negando-a, a procura de mais oportunidades para sobreviver e não ser julgado pela cor de sua família. Essa fato pode desacreditar o leitor quanto à real preocupação do protagonista sobre a questão racial, mas ele mesmo se critica por não estar lutando abertamente por mais respeito aos negros.

Autobiografia de um Ex-Negro ainda possui um artigo escrito por Frizero falando da importância do livro para a literatura afro-americana como primeira ficção escrita por um autor negro e que fale de forma tão aberta e democrática sobre a questão racial nos EUA. Johnson não só levantou uma importante discussão com seu livro mostrando como os negros eram vistos pela sociedade, mas também criou uma obra que transita livremente entre diversos temas que aos poucos se ligam com a questão racial. Uma leitura que levanta reflexões ainda hoje, onde os negros, ou qualquer outra etnia, credo ou raça, ainda são tratados com desrespeito e inferioridade. Leitores preocupados ou não com questões ligadas à oportunidades e preconceitos vão encontrar um história reveladora sobre uma sociedade que ainda hoje cultiva costumes e pensamentos atrasados.