grito-de-guerra-da-mae-tigre“Meu papel como mãe é preparar vocês para o futuro, e não fazer com que gostem de mim”. Com essa frase, Amy Chua justifica às suas duas filhas, Sophia e Lulu, e também ao leitor o motivo de ser tão rígida quando o assunto é educação. Professora de direito na Universidade de Yale e filha de imigrantes chineses, Amy Chua decediu criar suas duas meninas com o mesmo tratamento que teve de seus pais: com controle, dedicação, firmeza e extrema cobrança. A rotina puxada de estudo e treinos de violino e piano que Amy narra em Grito de Guerra da Mãe-Tigre, publicado aqui pela Intrínseca, causa espanto e críticas por parte da cultura ocidental. O método da “mãe-chinesa”, como ela o batiza, não aceita erros. As notas devem ser sempre as mais altas, os professores sempre estão com a razão, o respeito é fundamental e, em competições, ela não aceita nada menos do que vencer. Apesar de tanto rigor e pressão em cima de suas filhas, Amy mostra em seu livro, comparando culturas e valores, que a cobrança e as duras palavras proferidas tiverem sim o seu efeito.

Sophia, hoje com 18 anos, sempre foi uma garota prodígio. Já entrou na pré-escola sabendo contar e reconhecia as letras do alfabeto, e aos 4 anos tocava piano. Nunca desobedecia às ordens de Amy, que em um acordo com Jed, seu marido judeu, tomou as rédeas de sua criação. E o método escolhido foi justamente o da mãe-chinesa que, para Amy, é o ideal para preparar os filhos para o futuro e fazer brotar neles os maiores talentos. Sophia aceitou com poucas críticas esse método, e incentivada a sempre se superar, aos 14 anos de idade já era um destaque no piano, com uma apresentação solo no Carnegie Hall. O sonho de qualquer mãe.

Mas com Lulu, a coisa foi bem diferente. Briguenta, teimosa e três anos mais nova que Sophia, esperneava, desobedecia e desafiava Amy constantemente. Também seguia a mesma rotina controlada e rigorosa imposta à sua irmã mais velha, mas na base de muita gritaria e suborno. Amy via desde o início que Lulu era muito parecida com ela mesma, e essa compatibilidade de personalidade era o que tornava a relação entre ela e a caçula tão intensa. Em um mintuto, uma estava gritando os maiores insultos para a outra, e no seguinte já estavam abraçadas, rindo. Foi justamente Lulu a responsável pela mudança de pensamento de Amy acerca do sua maneira de educá-las, um conflito duramente travado que derrubou alguns de seus conceitos.

Amy apresenta o método da mãe-chinesa fazendo constantes comparações com a cultura ocidental. De início, se mostra uma mulher dura, rabugenta, preconceituosa e irritante – como quando diz que nunca deixaria seus filhos tocarem bateria porque o instrumento os levaria às drogas. Mas conforme narra a sua relação com as filhas, o leitor percebe aos poucos que essa maneira controladora de lidar com elas surtia efeitos que a educação baseada na liberdade de escolha da criança, que nós ocidentais pregramos, dificelmente teria. Taxada de megera por quem ouvia suas duras críticas às filhas por mais que elas se esforçassem – para Amy, nunca se deve elogiar os filhos em público -, a autora revela que essa não passa de uma visão deturpada. Ao criticar, exigir mais e exaurir suas filhas com tanto treino e estudo, Amy acredita que incentivou suas meninas ainda mais a melhorar. Era uma maneira mais eficiente de dizer que elas eram capazes de realizar feitos que julgavam serem impossíveis de fazer. E elas realmente conseguiam.

Ser uma mãe-chinesa, para ela, é muito mais difícil do que empregar o estilo aberto e livre que os pais ocidentais tanto prezam, focado na autoestima de seus filhos. Amy esteve prestes a relaxar a educação de Sophia e Lulu por várias vezes por considerar que estava sendo severa demais, mas logo bloqueava a tristeza que sentia por ser vista como um carrasco. Era justamente na fraqueza de ceder às vontades dos filhos por medo de magoá-los que Amy via a culpada pela criação de crianças desobedientes e pouco dedicadas. Não há como o leitor não concordar pelo menos com parte do que ela alega. Os jovens de hoje parecem agir cada vez mais contra àqueles que os criam, desrespeitando-os e pouco fazendo pelo seu próprio futuro. Mas ainda assim, o confronto com a opinião de Amy é muito grande, principalmente quando relata as duras brigas com Lulu e os insultos que ambas trocavam, de fazer qualquer criança chorar de desolação.

De um livro pedante e exibicionista – que a própria Amy confessa ser – , Grito de Guerra da Mãe-Tigre se transforma em um relato bem-humorado e intenso sobre a educação de uma criança. Ela levanta questões interessantes a se pensar sobre como nossa sociedade enxerga o ensino, aponta valores que se perderam em nossa cultura que deveriam ser resgatados. O que mais fica na cabeça do leitor no fim do livro é quanto o futuro da criança deve ser priorizado. Entretanto, ao invés de impor atividades no melhor estilo Amy de ser, descobrir as aptidões da criança e trabalhá-las para potencializar suas realizações é o método ideal de prepará-las para o que ainda há por vir. Uma leitura que qualquer mãe, pai ou educador deveria experimentar.