no-inferno-e-sempre-assimDias comuns viram literatura com personagens que se perdem em reflexões sobre o que rodeia suas vidas. Identificadas ou não, essas pessoas falam de suas dúvidas, dores e angústias pelas palavras da escritora gaúcha Daniela Langer em No inferno é sempre assim e outras histórias longe do céu, coletânea de contos publicada recentemente pela editora Dublinense. As histórias falam de pessoas normais com que topamos todos os dias pelas ruas, mas para as quais damos pouca atenção.

Dividindo o livro em duas partes – Histórias longe do céu e No inferno é sempre assim –, Daniela pega personagens comuns e deles tira angústias e expectativas que ocupam suas vidas. Acontecimentos que podem durar poucos segundos são transformados em minutos ou horas pela autora. Ela intensifica o detalhe, metaforiza e adjetiva pequenas ações, seja o voar de uma mosca, o suor escorrendo pelas costas, o beber de um copo de cerveja bem gelada ou o estirar-se na areia da praia. Nenhuma ação passa despercebida pelo texto de Daniela, que com suas palavras consegue remeter o leitor a sensações que já vivenciou.

Os contos da primeira parte do livro são mais difusos, não identificam personagens ou situações claramente, se concentram em narrar sentimentos e pensamentos, deixando o enredo subentendido. Em contos como “Para alguém que viu partindo” e “Como que fora do tempo”, a autora inicia a história a partir de um acontecimento corriqueiro, em que personagens fazem verdadeiras reflexões sobre suas vidas que, no final, retornam a essa ação que originou a história.

Já na segunda parte, o texto de Daniela é mais concreto. Personagens recebem nomes, como a protagonista de “Primo Lucas”, um dos melhores contos do livro. Nele Marianna vivencia a transição de menina à mocinha, ansiosa pela visita do primo distante à família que veraneia em uma praia. Esse ambiente infantil volta em “No fundo das metáforas”, onde um garoto narra um dia chuvoso de domingo em que espera pela visita do avô indo jogar bola com os amigos. Contrastando com esse conto, em seguida o leitor se depara com o texto que dá nome ao livro, que no lugar do protagonista com família bem constituída, sobre uma criança feliz da classe média, traz um garoto pobre vendedor de balas enfrentando o calor dos verões de Porto Alegre.

Em todos os contos, predominam a melancolia, os finais trágicos que são acompanhados por uma certa doçura que vem da ingenuidade das personagens que vivem essas situações pela primeira vez. Os contos despertam sensações e lembranças ao leitor – naquele que aproveitou os vários verões na praia, ou então derreteu no mormaço da capital, ou que jogou muito futebol no campinho perto de casa em um final de semana qualquer.

No inferno é sempre assim e outras histórias longe do céu é um livro que em poucas horas faz um relato de diversas vidas em seu íntimo que passam por casos que qualquer um pode vir a protagonizar – se já não as protagonizou. Narrados com palavras escolhidas a dedo para transformar o cotidiano em literatura, os contos mostram os pequenos infernos de cada um, invisíveis ao olhar superficial.