o-jornalista-e-o-assassinoO que um entrevistado espera de um jornalista e o que esse jornalista espera que a pessoa que entrevista lhe diga causa descontentamento de ambos os lados. O jornalista quer informações que tornem sua personagem mais interessante. A personagem real quer que o escritor compre sua versão dos fatos, e não o contrário. Janet Malcolm, no livro O Jornalista e o Assassino, fala isso com palavras mais eficazes: “A disparidade entre o que parece ser a intenção de uma entrevista quando ela está acontecendo e aquilo que no fim ela de fato estava ajudando a fazer é sempre um choque para o entrevistado”.

Esse descontentamento é narrado no livro de Janet Malcolm, que recebeu recentemente nova edição de bolso pela Companhia das Letras. O entrevistado nesse caso é Jeffrey McDonald, médico acusado pelo assassinato de sua esposa grávida e das duas filhas pequenas, ocorrido em 1970. Primeiramente absolvido pelo julgamento do Exército e depois condenado, McDonald convidou o jornalista Joe McGinniss para acompanhar a sua defesa e escrever a sua história, que resultou no livro Fatal Vision, publicado em 1983. Mas o que McGinniss apresentou era totalmente diferente daquilo que McDonald esperava: ao invés de um livro que mostrasse a sua inocência, o que o jornalista fez foi confirmar o seu perfil psicótico de assassino. McDonald, então, processa McGinniss pelas “mentiras” divulgadas. Em O Jornalista e o Assassino, Malcolm expõe a relação entre entrevistado e jornalista e inverte os papéis das personagens dessa história: o vilão vira mocinho e o herói vira vilão.

A ética jornalística entra em cena no processo movido contra McGinniss. O jornalista, no trabalho de apuração dos fatos para o livro, tinha total acesso ao entrevistado, e durante anos freqüentou sua residência e trocou cartas com McDonald em que demonstrava afeto e solidariedade pelo “amigo”. Mas enquanto McGinniss agia como amigo e defensor do assassino em suas cartas, o livro que escrevia dizia o contrário. As cartas deixaram claro o comportamento ambíguo e falso de McGinniss, o que levantou a discussão sobre a prática jornalística e os métodos dele conseguir que seus entrevistados, suas personagens, lhes revelem o que quer saber. Munida dessas cartas e das transcrições tanto do julgamento de McDonald, que o condenou à prisão perpétua, quanto do processo contra o jornalista, que terminou em acordo, Malcolm apresenta as várias versões e opiniões sobre a prática jornalística. A autora também ouviu os protagonistas dessa trama, seus advogados e outros jornalistas que complementam essa reflexão.

O Jornalista e o Assassino alerta para a relação que entrevistado e jornalista travam durante o processo da entrevista, e levanta uma questão importante sobre ela: o jornalista deve ou não expor suas opiniões ao entrevistado sobre o assunto que está apurando? O que McGinniss alegou em sua defesa era que estava apenas incentivando McDonald a contar mais sobre sua vida. As cartas, transcritas por Malcolm no livro, mostram que o comportamento de McGinniss levou o assassino a esperar por uma obra redentora, que tirasse dela a imagem de monstro que o julgamento e a condenação lhe deram. A autora toma o partido de McDonald e critica o procedimento do jornalista. A entrevista exige certo distanciamento emocional de ambas as partes, que nesse caso não existia: McDonald precisava do jornalista para mudar sua imagem, McGinniss precisava do assassino para escrever seu best-seller.

Durante esse relato, Malcolm também revela as próprias técnicas que utilizou para recolher informações para o livro e de todo o processo de escrita e abordagem que faria da trama. O que ela sentiu ao entrar em contato com McDonald, McGinniss, jurados e advogados também entra na narrativa, o que cria um contraste entre a forma que o jornalista/protagonista dessa história realizou suas apurações e como a autora o fez. Outra comparação que Malcolm faz para ilustrar esse processo de criação de um relato jornalístico é diferenciar o que o autor de ficção e o de não-ficção tem em mãos para realizar esse trabalho.

A leitura de O Jornalista e o Assassino é imprescindível para qualquer pessoa que esteja se formando para atuar nessa área. É um livro rico em informações e fontes, muito bem organizado, quase um manual para o profissional. É uma importante história para o jornalista refletir a sua própria maneira de realizar esse trabalho, pensar em como lidar com suas fontes e lembrar que ele também tem deveres e regras a seguir que não devem ser ultrapassadas em nome da “liberdade de expressão”.