“O daimon, para os antigos gregos, é tanto a natureza externa quanto a interna”, diz a contra capa de Daimon Junto à Porta, livro de contos de Nelson Rego. Como diz Charles Kiefer em sua orelha, daimon foi convertido a daemon, que em latim significa “demônio”. Mas o lançamento da editora Dublinensenão traz histórias de demônios – só uma, pelo menos – ou coloca o diabo parado na frente de várias portas esperando levar almas para o inferno. Daimon, aqui, é a inspiração artística, uma força que existe no artista que a recebe e a transforma em texto.
Mas esse também não é o tema central desse livro. Nelson Rego traz histórias que oscilam entre o inocente e o sexual, com narradores que aos poucos também se revelam protagonistas. Esse confronto que traz sensualidade aparece logo no primeiro conto, Platero e o Mar, cujo narrador fala de Inocência, uma de suas amigas com quem passa uma temporada no litoral. Inocência, uma jovem adulta, é o sonho de um grupo de garotos pré-adolescentes, e seu amigo conta como ela gradualmente é seduzida por essas “inocentes” crianças. O mesmo narrador encerra o livro com Um pedacinho do tempo diante dos olhos, onde ele e suas amigas voltam ao livro, dessa vez como pessoas registradas pelas lentes de uma fotógrafa que todos os dias busca eternizar segundos em sequências. Ambos os textos prendem a leitura pelo cuidado na escolha das palavras, mas o último não tem a mesma atração exercida pelo primeiro.
Falando de forças que invadem indivíduos, os contos Recital dos Mortos e Tecelagem do Mal praticamente tratam da possessão espiritual. No primeiro, a narradora conta a história de Seu Seis, um médium que vive em sua casa e atrai multidões com suas conversas com os mortos, até chegar ao momento em que recita nomes aleatórios e descrições de cenas de morte. Já o segundo traz um padre seduzido por uma garota possuída e revela uma angústia vinda da incerteza de sua real natureza, alheio a ser ou não um pecador. Nelson Rego mostra preferência por certa forma de narrar, como dividir cada conto em partes, estilo presente na maioria de seus textos. Mas também faz em alguns contos um texto corrido, sem pausas, esses tanto longos quanto curtos, que não dão fôlego ao leitor, como é o caso de Recital dos Mortos.
O estilo que mais se difere é o do conto A verdade é isso aí, ó, um texto todo em diálogos, em que um homem conta a outro um caso misterioso envolvendo uma imigrante em Nova York. Aqui ele trabalha com vícios de linguagem, repetições, cria um diálogo coloquial, mais realista. Como quase todos os contos, o autor confere intelectualidade às personagens, fazendo-as discutir questões filosóficas e lógicas.
Daimon Junto à Porta possui textos interessantes, histórias curiosas que despertam a vontade de desvendar os pequenos mistérios por trás de cada personagem. Assim como essas personagens são seduzidas e conduzidas a seus destinos por forças que pouco podem ver ou compreender, o leitor segue até o fim hipnotizado pelos contos de Nelson Rego.
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Oi.
Muito legal o teu blog. Vi que tu estuda jornalismo. É na Unisinos? Estudo lá.
Parabéns pelo blog.
Ah, tô te seguindo no twitter também.
Excelente post, adorei! E nem preciso dizer que fiquei muito interessada no livro. Adoro contos, e me senti bastante atraída pelos temas dos textos desse livro.
É a primeira vez que visito esse blog e fiquei impressionada com a resenha que você fez deste livro. Adoro livros; sou uma leitora compulsiva e fiquei maravilhada com o seu trabalho. Parabéns!
É a primeira vez que visito seu blog. Adorei!!
O livro deve ser interessante. Adoro ler contos e esses parecem ser, no mínimo, criativos.
Olá Izze, tudo bem?
Sou professora em São Paulo e trabalho com incentivo à leitura. Vi a matéria da Veja e, assim, conheci seu blog (muito legal, parabéns!). Gostaria de entrar em contato com vc para conversar sobre o blog e outros assuntos relacionados ao que saiu na Veja. Será que vc poderia me mandar um e-mail? Falar com vc seria muito interessante para o meu trabalho com os alunos. Aguardo seu retorno.
Obrigada
Oi!
Através do especial da Veja conheci um pouco sobre ti e seu trabalho.
Sabe, ando embaraçada com meus gostos literários. Enjoei de ler apenas “os mais vendidos”, quero me dedicar a obras atemporais. Portanto, começo, acho difícil, cansativo e na maioria das vezes acabo deixando-os sem terminar.
A semana passada consegui concluir um clássico, O coração das trevas de Joseph Conrad, adorei.
Há algum autor ou livro que me insira aos clássicos sem essa “sonolência” toda???? Há alguma receita de inserção nesse “mundo de letras” que tanto almejo?
Comprei a coleção de clássicos da Abril e perambulo por ela… sem grande vitória… alguma indicação???
Agradeço e admiro muito você!
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